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Louvre? Que nada: jovens franceses gastam “bolsa-cultura” em… mangás

Quadrinhos japoneses foram os itens mais comprados com passe cultural de 300 euros inventado pelo governo de Emmanuel Macron, o que gera críticas

Por Amanda Capuano Atualizado em 28 jul 2021, 12h29 - Publicado em 28 jul 2021, 12h20

Quando o governo francês lançou um vale cultural para todos os jovens de 18 anos, em maio, a ideia era que os 300 euros disponibilizados fossem usados na compra de livros, ingressos para shows, galerias, exposições, entre outros produtos e experiências culturais às vezes distantes da juventude. Mas, em vez de ir ao Louvre ou conhecer as obras de algum escritor clássico, a maioria deles preferiu aderir aos mangás – as famosas histórias em quadrinhos japonesas, populares entre os jovens.

Segundo reportagem do New York Times, a boa notícia é que 75% desse “bolsa-cultura” foram gastos em livros. Mas a informação seguinte pode fazer os mais puristas da cultura torcerem o nariz: nada de os jovens lerem Victor Hugo, Alexandre Dumas, Antoine de Saint-Exupéry ou Jules Verne, foram mesmo os mangás que assumiram a ponta dos gastos, representando dois terços das obras compradas com o auxílio. Na imprensa francesa, já se apelidou o vale cultural de “passe mangá” e se fala, inclusive, em uma “febre” dos quadrinhos japoneses propulsionada pela sempre generosa ajuda do estado.

Em uma reportagem recente do Le Monde, lojistas apontam que há pilhas de mangás para serem repostos nas prateleiras e, assim, poder suprir a demanda. “Você não deve lamentar que eles leiam mangá”, lembra um vendedor da livraria La Planète Dessin, em Paris. “É preciso lembrar que antes, nessa idade, eles haviam parado de ler”, complementa.

Há, porém, um conflito entre a ideia arquitetada pelos criadores do passe e seu uso na prática. Quando o presidente Emmanuel Macron lançou o passe cultural, declarou em seu discurso que era uma vitória para a França, pois os jovens deixariam de dizer “esta obra de literatura, este filme não é para mim.” A ideia, portanto, era que  a juventude explorasse formas culturais para além da própria bolha. Mas a maioria optou por seguir consumindo aquilo que já é popular entre os jovens, como quadrinhos japoneses e sagas juvenis.

“Não consigo imaginar por um momento uma criança usando o passe para ouvir ópera barroca”, criticou Pierre Ouzoulias, senador do Partido Comunista Francês, que acredita que o passe sirva aos já financeiramente privilegiados, e não ajude a expandir o universo cultural dos menos favorecidos. Além dele, sindicatos de instituições culturais públicas chamaram o vale de “gadget presidencial” com financiamento “exorbitante”, e acusam Macron de querer conquistar o voto da juventude com dinheiro, no lugar de financiar programas existentes, como aqueles administrados por centros comunitários para jovens, que ampliam o acesso à cultura de uma forma mais estruturada.

O passe, na verdade, é um aplicativo, em que cada jovem tem um crédito de 300 euros para gastar em cultura. Desde que ele foi lançado, em maio, 630 000 pessoas já ativaram o benefício. Os usuários podem gastar até 100 euros em ofertas como e-books e assinaturas de mídia online e serviços de streaming de música ou filmes, limitados a empresas francesas. O passe também pode ser gasto em videogames, desde que os jogos sejam franceses e não apresentem violência. Óbvio que, sob essas limitações, até os ultrapopulares games não foram páreo para os mangás.

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