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Livro mapeia a nova geração de pintores brasileiros e sua busca pela reinvenção do uso da imagem

Tendência de quadros pictóricos nacionais traduz o desejo de uma geração dos novos pintores de aprofundar o papel da informação e da fotografia na arte

Por Mariana Zylberkan 15 abr 2012, 08h13

Nos últimos cem anos, a pintura tem tido uma trajetória cíclica no mundo da arte. Ora em alta ora ofuscada por outros formatos e suportes, ela alterna períodos de desvalorização e momentos de retomada, como a que se vê agora, em todo o mundo. Impulsionada por esse retorno, uma nova e vigorosa geração de artistas brasileiros embarcou na tinta em busca de uma reinvenção do uso da imagem. É o que aponta o mapeamento feito pelo livro recém-lançado Pintura Brasileira Século XXI (Cobogó, 308 páginas, 160 reais).

Organizado por Isabel Diegues e Frederico Coelho, o livro reúne o trabalho de 33 artistas com idades entre 20 e 50 anos. Salvo exceções de pintores dedicados à abstração, a maioria desenvolve a pintura figurativa. Eles usam imagens pré-existentes, como fotos tiradas por eles mesmos ou obtidas por pesquisas, para criar suas telas. A foto é uma espécie de trampolim para a própria expressão, explica o crítico de arte José Bento Ferreira. “Nesse sentido, esses artistas figurativos repensam o papel da imagem, já que a fotografia, que antes contava uma história, é usada como base para contar outras. É como se a imagem, que vinha recalcada desde a arte moderna, tivesse sido desbloqueada.”

A pintura prevaleceu no meio artístico brasileiro em outros dois momentos, recentemente. Nos anos 80, numa reação ao olhar pós-modernista que a encarava como arte dependente do mercado. E na primeira década dos anos 2000, quando um grupo de jovens artistas se lançou com a exposição 2000e8, que reuniu talentos como Ana Elisa Egreja, Bruno Dunley, Marina Rheingantz e Rodrigo Bivar. “Essa nova investida na tinta pode ser explicada pelo esgotamento de outras mídias e também pelo fato de que a pintura deixou de ocupar um lugar de passagem, como algo que deve ser superado pelo artista após o período de aprendizado. Ela voltou a ser vista como possibilidade de trabalho”, diz o artista plástico Paulo Pasta, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

A representação figurativa é o que diferencia a produção atual das anteriores. “Passei a usar figuras no meu trabalho para ser mais coerente com a minha vida e as coisas que me circundam. A força da imagem é muito grande e eu não podia pintar sem levar isso em conta”, diz a artista plástica Ana Elisa Egreja, de 29 anos. Suas telas partem de fotos coletadas na internet e manipuladas no computador antes de ser pintadas. Atualmente, Ana Elisa trabalha com imagens de casas abandonadas. “Quero recontar a história dessas casas a partir do meu ponto de vista. É como criar um mundo utópico pela arte.”

Assim como Ana Elisa, a artista plástica Ana Sario usa fotografias como matéria-prima. “O dia a dia em São Paulo é tão corrido que é impossível se fixar nas coisas. Eu tiro as fotos e as transformo em pinturas como uma maneira de compensar essa correria e dedicar um tempo às imagens do cotidiano”, diz a artista de 28 anos.

À parte a questão reflexiva, é inegável que a pintura figurativa é influenciada pelo aumento do interesse nas obras brasileiras. No livro Pintura Brasileira Século XXI, há, por exemplo, trabalhos de Adriana Varejão e Beatriz Milhazes, integrantes do grupo de artistas que bateu recorde no valor de obras vendidas em vida. A ideia de que os jovens se dedicam mais à pintura figurativa porque ela está em alta no mercado, porém, é uma simplificação. O mercado de arte é capaz de absorver diversos tipos de expressão – escultura, instalação, vídeo ou fotografia. “Hoje, tudo vende. Mas a arte não suporta impostores, por isso quem pinta para vender não sobrevive”, diz Paulo Pasta.

O artista plástico Luiz Zerbini, 53, é adepto da multiplicidade de meios. Pintor, ele também se dedica a projetos de instalação e participa do grupo Chelpa Ferro, que mistura música e arte. “As fronteiras entre as técnicas desapareceram. Eu faço tudo isso, mas continuo pensando como pintor. Para mim, pintura é uma opção, um gosto pessoal.”

A artista Mariana Palma, 32, se aventurou por outras plataformas artísticas antes de enveredar pela pintura. Seu trabalho faz uso do volume para falar de fragmentação. Ela abusa das cores para recriar pedaços de tecido que se sobrepõem numa ordem ilógica. Foi através da pintura que ela conseguiu criar esse universo à parte, condizente com o seu raciocínio. “A pintura é o único meio em que é possível criar intimidade para poder se expressar. A capacidade de se reinventar é infinita.”

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