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Iza: ‘As coisas incríveis da nossa cultura vieram da periferia’

Cantora fala a VEJA sobre seu novo single, 'Gueto', racismo e a sua onipresença nos serviços de streaming e em propagandas da TV

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 4 jun 2021, 12h12 - Publicado em 4 jun 2021, 09h44

Nos últimos dois anos, a cantora carioca Iza viu seu nome explodir nas plataformas de streaming e também na TV. De 600.000 reproduções de suas músicas no Spotify, em 2019, ela saltou para 1,6 bilhão neste ano. Seu rosto praticamente monopolizou a TV, com participações especiais em diversos programas de auditório e também como garota propaganda de três grandes marcas em horário nobre. Como se não bastasse o sucesso comercial, Iza foi eleita recentemente pela revista americana Time como uma das Novas Líderes da Nova Geração em 2021.

Nesta sexta-feira, 4, a cantora lança o clipe de seu novo single, Gueto, em parceria com uma marca de cerveja, em que ela aborda o racismo e relembra as suas raízes, no bairro de Olaria, no Rio de Janeiro. O single será acompanhado de um projeto para estimular que a criatividade que surge nas periferias ganhe o Brasil. A cantora conversou com VEJA sobre seu novo projeto e também sobre racismo. Leia a seguir:

É do gueto que vem a base da nossa cultura? Eu acho que sim. A grande maioria das coisas incríveis que existem no nosso país e na nossa cultura vieram, sim, da periferia. Vieram das pessoas que são marginalizadas pela sociedade. Não tem como a gente não dizer que o surgimento dos ritmos brasileiros não tiveram origem em guetos. 

Recentemente, você foi apontada pela revista Time como uma das líderes da nova geração. Como recebeu essa notícia e o que significa ser uma das “novas líderes da nova geração” em 2021? Eu recebi a notícia com um susto enorme. Fiquei muito emocionada. Seria um sonho, por exemplo, estagiar na Time. Estar numa matéria, realmente, é uma coisa que eu nunca imaginei. Estou muito grata de poder celebrar alguma coisa nesse momento tão difícil. Não dá para deixar de ser grata por tudo o que está acontecendo na minha vida. O que eu posso dizer é que é importante que a gente entenda qual é o nosso papel na sociedade. O artista pode escolher aquilo que faz. Acho que vale a pena, sim, você olhar de onde você veio, olhar para onde você está indo e entender se você pode contribuir com o mundo, além da sua música. 

Você diz que fala do racismo não por ser um assunto que gosta, mas porque é necessário. Como cantora, como vê sua responsabilidade nessa questão? Seria muito hipócrita da minha parte se eu não falasse sobre racismo. Eu sei o quanto eu sofri com isso durante a minha adolescência. Graças a Deus, eu tive acesso ao ensino de muita qualidade. Sempre estudei em escolas particulares, e eu era uma das poucas crianças negras na escola. Isso acaba, sim, fazendo com o que você pense que tem alguma coisa errada com você. Acho surreal ver uma mulher retinta fazendo um comercial de produtos de beleza para pele, por exemplo, hoje em dia. Isso ainda não é normal, infelizmente. Deveria ser. Mas nós somos pouquíssimos. Não é uma parada que eu acordo querendo falar, mas não posso fechar meus olhos para isso nem fingir que nada está acontecendo. 

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A cantora Iza em cena do clipe 'Gueto' -
A cantora Iza em cena do clipe ‘Gueto’ – Rodolfo Magalhães/Divulgação

Acha que essa nova onda do afrofuturismo pode ajudar a conscientizar as pessoas a respeito do racismo, especialmente com os trabalhos feitos por Beyoncé e do filme Pantera Negra? Com certeza. Se especula muito sobre o que é o afrofuturismo. É exatamente o que se diz: é o futuro do negro. É o nosso futuro. É como a gente quer se ver. Existem formas caricatas e comerciais de se reproduzir o afrofuturismo e isso acaba sendo generalizado. Mas é sobre modernizar a nossa história. Mais do que isso, é contextualizar a nossa história e sobre como a gente quer que ela seja contada, através do nosso olhar, através da nossas perspectivas. É contar a nossa história sabendo de onde ela vem. 

Você se vê como a Beyoncé brasileira? Eu acho que as pessoas são muito simpáticas quando dizem isso. O trabalho dela, com certeza, sempre me inspirou muito. Como fã da Beyoncé, eu observei os caminhos que ela trilhou e o que ela priorizou para ser essa artista hoje. É uma grande referência para mim. 

Que episódio de racismo você sofreu que te marca até hoje? Tudo o que acontece na nossa adolescência fica muito marcado. Eu não posso escolher uma coisinha em específico. Mas, todas às vezes que pegavam no meu cabelo para tentar entender de que material que era. Todas às vezes que cheiravam meu cabelo na escola. Fingiam que levavam susto quando eu entrava na sala. Eu sempre fui muito comunicativa, representante de turma, e isso nunca me impediu de me relacionar. Entendi que, na verdade, eu tinha que criar uma relação com as pessoas por conta da cor da minha pele. Eu entendi que eu precisava ser legal com todo mundo para não ser excluída. Se você entrar num lugar e vê alguém cochichando, já imagina que é sobre você. Hoje, eu acho que realmente seja sobre mim. Mas por um bom motivo. Eles devem estar dizendo: “Caraca, é a Iza!”. Mas, no passado, eu ficava com a sensação de que estava sendo observada e julgada. Existe uma insegurança que é muito característica em pessoas que sofrem preconceito ao longo da vida e que, infelizmente, não me abandonou. Eu também tenho plena consciência de que o meu lugar me protege muito e me acho muito privilegiada considerando a vida de outros artistas negros no país hoje. 

A cantora Iza em cena do clipe 'Gueto' -
A cantora Iza em cena do clipe ‘Gueto’ – Rodolfo Magalhães/Divulgação

Outras artistas pop já foram canceladas, como Anitta e Ludmilla, por exemplo. Mas você não. O que fez para evitar esse tipo de ação da nossa era digital? E o que você pensa dessa cultura do cancelamento? Eu ainda não fui cancelada, mas tenho consciência de que não estou livre disso. Pode acontecer a qualquer momento. A gente não sabe o que pode ser motivo de cancelamento para alguém. Vivemos num mundo muito polarizado e as pessoas não têm realmente a paciência de ponderar as coisas e se colocar no lugar dos outros para entender como ela agiria em determinada situação, com determinada idade, vivendo tal realidade. Falta muita empatia. Existe uma coisa que é muita característica do cancelamento que é a lacração. As pessoas querem ser vistas. As pessoas estão carentes e querendo atenção. A pessoa escreve uma coisa horrorosa e vai beber seu café. Ninguém tem o direito de cancelar ninguém. Se eu pegar o seu WhatsApp, talvez você seja cancelado. Se a pessoa ficar uma semana no Big Brother Brasil, talvez ela saia com a maior rejeição da história. As pessoas viraram fiscais da vida dos outros e estão querendo atenção. Eu vejo que é um caminho ainda em evolução. 

Esse ano, você atingiu 1,6 bilhão de streamings no Spotify. É uma marca impressionante. Ao mesmo tempo, você ocupa lugar cativo no horário nobre da TV e está em muitas propagandas. A quais fatores credita a boa gestão de sua carreira e imagem? Fico lisonjeada de saber que as pessoas escutam a minha música. Eu tento fazer tudo com muita verdade e paciência. Eu tenho meu tempo para fazer as coisas. Eu queria muito poder conseguir lançar mais coisas, mas o meu processo é realmente mais lento. Talvez por saber que quando coloca o nosso trabalho no mundo, ele está sujeito a todo tipo de comentário e para que isso não me fira enquanto artista, eu preciso ter certeza daquilo que eu vou fazer. Então talvez seja isso: paciência. Eu tenho muita paciência comigo. 

A cantora Iza em cena do clipe 'Gueto' -
A cantora Iza em cena do clipe ‘Gueto’ – Rodolfo Magalhães/Divulgação

Recentemente, você contou que o humorista Paulo Gustavo foi um que lhe abriu as portas no começo da carreira. Como foi a sua história com ele? O Paulo foi uma das pessoas mais generosas que existiram. Me senti muito abençoada de ter cruzado o caminho dele. Ele acreditou muito no meu trabalho e em mim, numa época em que eu nem sabia direito o que estava fazendo. Ele me contratou para cantar no aniversário dele quando eu não era ninguém, e fez uma contratação tão bonita. Ele pagou adiantado, falou com o meu escritório e me deu liberdade criativa. Eu fui bem tratada do início ao fim. Ele me apresentou a todas as pessoas da festa. Foi quase um empresário fazendo as relações-públicas. Ele estava querendo fazer alguém acontecer e mostrar uma coisa legal para os outros. Não tem como não lamentar a morte dele. Não só pela grandiosidade que ele teve na vida de tantos brasileiros, mas por saber que isso era algo que poderia, sim, ter sido evitada. Acredito muito nos caminhos de Deus. Eu tenho uma relação muito especial com a minha fé, mas não dá para não lamentar. Poderíamos estar rindo com ele até hoje. Eu perdi duas pessoas da minha família no início da pandemia para essa doença. Sei o que é perder alguém para esse vírus. É tudo muito cruel. E eu digo mais, quem transmite o vírus somos nós. Se a gente tivesse mais responsabilidade com os outros, talvez tudo isso deveria ter sido diferente.

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