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‘Heleno’, o filme que bateu na trave

Longa desperdiça oportunidades de contar com riqueza a história de um dos jogadores mais habilidosos e problemáticos do país

Por Carol Nogueira Atualizado em 10 dez 2018, 10h34 - Publicado em 30 mar 2012, 15h21

Um filme sobre um jogador de futebol que não é sobre futebol. Um longa que propõe explorar a vida de um homem atormentado, mas não revela seus demônios. Assim começa a história de Heleno, filme dirigido por José Henrique Fonseca (da série Mandrake, da HBO), com Rodrigo Santoro e Alinne Moraes no elenco. Cinebiografia de Heleno de Freitas, um dos primeiros jogadores-problema do Brasil, era um longa que tinha tudo para ser memorável, mas falhou.

O esforço de Fonseca e Santoro, que foi um dos produtores-executivos do filme, no entanto, é louvável. Afinal, Heleno passou mais de cinco anos aguardando financiamento, até ter metade de seus custos bancados pelo empresário Eike Batista – o bilionário brasileiro é botafoguense e gostou da ideia de patrocinar um projeto sobre seu clube do coração. E, apesar da ajuda de Eike, o longa teve um orçamento que pode ser considerado baixo (8,5 milhões de reais), ainda mais por se tratar de um filme de época, ambientado nos anos 1940 e filmado em preto e branco.

“Eu acho o filme bonito. Não sei se ele é bom, mas é bonito”, disse Fonseca ao site de VEJA, provando que todo diretor conhece bem o filme que fez. Heleno é mesmo bonito, mas peca em questões básicas de roteiro. Como quando tenta, sem sucesso, deixar subentendidos detalhes da história. Exemplo: Heleno morreu vítima de um estágio avançado da sífilis conhecido como neurossífilis, mas em nenhum momento a doença ou seus efeitos são explicados. Essa lacuna, além de deixar o espectador perdido, desperdiçou o investimento de Santoro em um laboratório da doença: o ator consultou uma equipe de médicos especializados para entendê-la. A interpretação foi impecável, mas o espectador nem percebe do que se trata. “Não sei também porque esses detalhes foram omitidos. Foi uma escolha da direção”, diz Santoro.

: https://www.youtube.com/watch?v=UERgLWjbz44

Fonseca tenta defender seu filme, justificando a presença tão pequena de futebol em um longa sobre um jogador. “O projeto não é sobre futebol, mas o esporte está impregnado nele. Pensamos em vários detalhes, como o fato de não haver número na camisa na época que Heleno jogava, nas traves, que eram quadradas, no tipo da rede, na bola de couro e na chuteira que era usada naquele período… O filme não era para ser Um Domingo Qualquer, do Oliver Stone, que é só sobre futebol. Por isso, optei por filmar apenas uma cena de jogo, que é debaixo de chuva e à noite. Algumas pessoas reclamam que poderia ter mais cenas de futebol. Podia, mas eu não quis fazer.”

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Mesmo a filmagem em preto e branco não é aproveitada em sua totalidade, como fez o francês O Artista, vencedor do Oscar deste ano. O diretor explica: “Eu já queria gravar em preto e branco há muito tempo, porque os grandes filmes de que gosto são assim. Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Frank Capra… Mas não sei se eu penso em preto e branco, acho que penso em cor”.

Outras ramificações da vida de Heleno também poderiam ter sido incluídas para dar sabor à história do jogador, mas, em vez disso, o longa opta por contar a história do boleiro da forma como ela foi relatada por jornais da época e, em menor escala, pela descrição de pessoas que conviveram com o jogador – não há vídeos da época.

Poderia, por exemplo, falar mais sobre o filho que o jogador teve com sua mulher, Ilma – que no filme se chama Silvia e é interpretada por uma apagada Alinne Moraes. O rapaz parece ter uma história interessante: não chegou a conviver com o pai, porque só teria descoberto que era filho do atleta anos depois de sua morte. No longa, pouco se sabe sobre o que pensa Silvia, ou Ilma, ou por que ela abandona Heleno e se casa com um ex-colega de time do marido.

“Não acho que ela era uma Maria Chuteira. Ela realmente se apaixonou por ele, mas percebeu que ele não estava preparado para criar um filho com ela. Naquela época, as mulheres se submetiam a casamentos para preservar a família”, opina Alinne. “É uma personagem muito contida, se expressa muito no silêncio. Ela não é tão densa quanto outras que eu já fiz.”

Deixados de lado os seus defeitos, Heleno ao menos foge do lugar-comum do cinema nacional ao apresentar um drama de estética bonita e atual, evitando ser mais uma comédia despejada nas salas do país. Mas, ao contrário delas, que são a maioria entre os lançamentos de sucesso no mercado brasileiro, Heleno pouco deve fazer em bilheteria.

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