Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Fim do conto de fadas: a venda de Neverland, onde viveu Michael Jackson

O rancho em que o astro pop, segundo investigações, abusou de crianças, saiu por 'apenas' 22 milhões de dólares

Por Amauri Segalla Atualizado em 29 jan 2021, 08h57 - Publicado em 29 jan 2021, 06h00

Muito antes de se tornar o rei do pop, o americano Michael Jackson teve um sonho de infância: morar em um paraíso terrestre. Para ele, a representação perfeita desse ideal seria uma lugar distante dos centros urbanos, rodeado de florestas e onde ele pudesse usufruir tudo que o dinheiro pudesse comprar. O lugar, no imaginário do jovem Jackson, teria brinquedos de parques de diversão (roda-gigante e carrossel) e um míni zoo com diferentes espécies animais (elefantes e orangotangos). A mansão em si, além de luxo e sofisticação, abrigaria passagens secretas e esconderijos. Com o sucesso, e os dólares que vieram a reboque, o cantor realizou o desejo infantil. Ele se materializou na forma do Rancho Neverland (referência à Terra do Nunca, de Peter Pan), propriedade imensa, em Santa Bárbara, na Califórnia. Foi lá que Jack­son viveu durante dezessete anos até pouco antes de sua morte, em junho de 2009. Neverland entrou para a história como uma das residências mais suntuosas jamais vistas, mas também pela má fama que a acompanhou, palco das esquisitices de Jacko. Agora, depois de muitas reviravoltas, o rancho encontrou um final honroso.

Há alguns dias, o bilionário americano Ron Burkle, dono de redes de supermercados, firmas de investimento e de um time profissional de hóquei, comprou a mansão por 22 milhões de dólares, valor incrivelmente mais baixo do que os 100 milhões de dólares pedidos pelos antigos proprietários. Eles cederam por uma simples razão: o conto de fadas de Neverland tinha virado um filme de terror.

FELIZ - Burkle: dono de time de hóquei -
FELIZ - Burkle: dono de time de hóquei – Dave Benett/Getty Images

Tudo começou em 2003, quando o rancho foi inspecionado pela polícia durante investigações de um caso de abuso de menores que tinha Michael Jackson como principal acusado. Os agentes apreenderam grande quantidade de material pornográfico e imagens de crianças nuas. Jackson foi absolvido em 2005, mas sua reputação — e a da mansão, que serviu, segundo as autoridades, de palco para a pedofilia — jamais seria resgatada.

A ruína na imagem de Jackson levou, como seria inevitável, ao seu declínio financeiro. Endividado, o astro não honrou um acordo que tinha com um fundo administrado pela Colony Capital, e acabou perdendo o imóvel. O curioso é que a Colony tinha entre os sócios Thomas Barrack, parceiro do ex-presidente americano Donald Trump em diversos negócios. Apaixonado pela casa, Jackson, numa jogada ousada, acabou associando-se novamente ao fundo de Barrack e, indiretamente, a mansão voltou a ser sua. Um ano depois, porém, o cantor morreu e deixou centenas de milhões de dólares em dívidas. O rancho, após desgastantes disputas judiciais, ficaria mesmo com a Colony Capital, mas a saga estava longe do fim. Por diversas vezes, a empresa tentou se livrar do mico, mas os interessados — em geral, bilionários árabes, russos e chineses — jamais honraram as promessas de fechar o negócio. Com o passar do tempo, o preço original de 100 milhões de dólares foi sendo reduzido, até que Ron Burkle decidiu oferecer 22 milhões de dólares à vista.

O novo proprietário pretende transformar o lugar em um clube privado, mantendo boa parte da estrutura construída pelo cantor, como as quadras poliesportivas, campo de futebol, piscinas e lagos. Os 22 edifícios serão convertidos em acomodações que poderão, por exemplo, receber atletas profissionais para a realização de treinos de pré-temporada. Depois da morte de Jackson, todos os brinquedos e animais foram retirados de Neverland, e ocasionalmente estrelas como a cantora Lady Gaga realizaram eventos no local. O sonho de infância de um dos maiores astros da história foi interrompido por seus fantasmas interiores. A partir de agora, a Terra do Nunca nunca mais será a mesma.

Publicado em VEJA de 3 de fevereiro de 2021, edição nº 2723

Continua após a publicidade

Publicidade