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Elvis Costello lança novo disco e comprova potência como cronista musical

Compositor prolífico, ele lança seu 33° álbum com faixas engajadas e românticas — e diz não se importar de ser lembrado “apenas” pelo cover de 'She'

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 13 nov 2020, 10h53 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

Spoiler: o caso a seguir aconteceu de verdade e não é nenhuma piada de português. Certa vez em Lisboa, Elvis Costello, de 66 anos, fez um show intimista. A apresentação ia bem e o público local parecia receptivo, mas algo o incomodava. A cada canção, ouvia-se um chiado da plateia, quase como se as pessoas estivessem pedindo a ele que fizesse silêncio. “Eles faziam ‘shhhh’ bem baixinho. Era esquisito. Seria uma maneira polida de os portugueses pedirem para eu calar a boca?”, disse a VEJA. Lá pelas tantas, a ficha caiu. O público clamava pela música She, que, com o carregado sotaque português, soou aos ouvidos do cantor inglês como uma vaia. A história com jeitão de anedota ajuda a ilustrar a abrangência do sucesso mundial que Costello atingiu ao reinterpretar a canção do francês Charles Aznavour, parte da trilha sonora do filme Um Lugar Chamado Notting Hill (1999). O cover, que destoa de sua vasta produção autoral e prolífica carreira de mais de quarenta anos, poderia ser um fardo, mas é encarado por ele com naturalidade. “Sou solenemente conhecido por essa música. Mas não me sinto mal por ser famoso por isso. Afinal, ela me deu a oportunidade de tocar no mundo todo.”

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REBELDE - Nos anos 70: a energia do punk adaptada para faixas sóbrias – Fremantle Media/Shutterstock

Dono de letras sofisticadas e quase sempre ácidas, o compositor é um dos grandes cronistas musicais da língua inglesa. Surgido no pós-punk britânico do fim dos anos 70 (uma vertente mais introspectiva e experimental do punk rock), Costello nunca se prendeu a um estilo, passeando com desenvoltura pelo pop, soul, rock e, nos últimos anos, pelo jazz. Seu novo álbum, Hey Clockface, o 33° de estúdio, é um exemplo desse caleidoscópio musical. Gravado na Finlândia, na França e nos Estados Unidos, antes da pandemia, o disco sai apenas dois anos depois do lançamento mais recente, Look Now, de 2018. Em Helsinque, capital da Finlândia, surgiram as faixas mais políticas, onde ele gravou sozinho todos os instrumentos. Em Paris, junto com o tecladista Steve Nieve, parceiro musical de longa data, contratou a banda Le Quintette Saint Germain. Na ocasião, a maioria dos músicos franceses não entendia uma palavra em inglês do cantor, o que resultou em sessões com pouca conversa e muito improviso, como o jazz gosta. “Não perdemos tempo teorizando sobre a música. Seguimos sentimentos”, conta. Já em Nova York, as gravações ocorreram de maneira mais tradicional e naturalmente apontaram para o rock e o pop. “Não acho que rotular a música que faço tenha importância para mim. Por isso me sinto tão livre para compor”, diz ele.

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Ouvir o novo álbum de Costello requer, portanto, atenção e tempo. O tempo, aliás, é um dos principais motes desse trabalho. Na faixa que batiza o álbum, ele reflete sobre como as horas passam rapidamente quando se está na companhia da pessoa amada, no caso, sua mulher, a jazzista canadense Diana Krall, de 55 anos, e lentamente quando se está longe dela. “Passei os últimos três meses da pandemia em Vancouver, no Canadá, com ela e nossos filhos gêmeos, de 13 anos.” Mas é na ácida crítica política, a qual ele nunca abandonou, que o disco ganha musculatura. Em No Flag, ele canta que não defende nenhuma bandeira, nem segue religiões ou filosofias. Na introspectiva We Are All Cowards Now, faz um apelo pacifista contra o uso de armas. “Não penso nesse álbum como um manifesto. Escrevi No Flag em junho de 2019, sem saber o que iria acontecer em 2020. As músicas são assim: uma faixa de 100 anos atrás ainda pode ter algum significado hoje”, explica ele, que prefere não romantizar nenhuma época. “Dizem que os anos 60 foram incríveis. Mas eu ouço coisas boas de todas as épocas. Mais importante é que a música tenha uma longa vida útil.”

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MUSA - Diana Krall: casamento de dezessete anos com o músico – //Divulgação

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A relação de Costello com a imprensa também inspirou algumas das canções. Em Hetty O’Hara Confidential, uma colunista de fofoca se sente ultrapassada numa época em que “todo mundo tem um megafone”. Em Newspaper Pane, ele relata fatos aleatórios estampados em jornais velhos colados em um painel. “Fotografias de um futuro brilhante que foram, de alguma forma, ignoradas”, diz um trecho da letra. “As notícias funcionam hoje com a mesma lógica da publicidade”, lamenta. Seja no amor, na política ou mesmo nos jornais, Costello comprova que o tempo é mesmo o senhor da razão.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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