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Ditadura e genocídio pautam 2º dia do Festival de Veneza

Opressão é tema central tanto dos filmes iranianos 'The President' e 'Tales' quanto do documentário 'The Look of Silence'

Por Mariane Morisawa, de Veneza 28 ago 2014, 19h40

O 71º Festival de Veneza, que começou “leve” com a comédia de humor negro Birdman, de Alejandro González Iñárritu, ganhou contornos mais graves nos filmes apresentados a seguir. A seleção deste segundo dia do evento pode ser considerada um estudo sobre a opressão. O diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf, bastante conhecido dos frequentadores da Mostra de Cinema de São Paulo, exibiu The President, sobre um ditador que precisa escapar do povo que oprimiu após uma revolta, na abertura da seção Horizontes. Sua compatriota Rakhshan Banietemad mostrou Tales, filme sobre homens e mulheres procurando seus direitos no Irã de hoje que integra a competição. E o americano Joshua Oppenheimer, diretor de O Ato de Matar, indicado ao Oscar na categoria documentário, volta à Indonésia para agora focar, em The Look of Silence, nas vítimas do assassinato em massa de 1 milhão de pessoas na década de 1960.

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Iranianos – Sentindo as dificuldades crescentes de filmar no Irã, Makhmalbaf, diretor de Gabbeh (1996) e Kandahar (2001), deixou o país logo depois da eleição do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2005. As restrições cada vez maiores à produção de filmes fizeram várias vítimas: o cineasta Jafar Panahi foi banido e condenado à prisão, enquanto outros, como Abbas Kiarostami e Asghar Farhadi, têm filmado fora do Irã. Makhmalbaf apoiou a Revolução Verde, que protestou por reformas no país.

The President é uma reflexão sobre a chamada Primavera Árabe, que derrubou ditaduras no Oriente Médio e Norte da África. O diretor rodou na Geórgia, mas preferiu criar um país fictício. Nele, um ditador (Misha Gomiashvili) consegue despachar a família às vésperas da revolução que vai tirá-lo do poder, mas fica para trás com o neto (Dachi Orvelashvili), símbolo da inocência. Disfarçados de músicos de rua, os dois entram em contato com o povo maltratado pelo governo antidemocrático e corrupto.

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“Essa história poderia se passar no Afeganistão, no Irã, no Iraque, em muitos lugares, por isso não quis focar num só país”, explicou em entrevista ao site da VEJA. Makhmalbaf quer examinar como a violência criada por um regime assim acaba perpetuada mesmo quando os opositores tomam o governo. “Isso só vai acabar pela cultura, quando aprendermos a não ver os outros como inimigos só porque são diferentes.” The President muitas vezes cai no didatismo excessivo, mas há cenas belíssimas, como a da abertura, em que o Presidente manda acender e apagar todas as luzes da cidade para demonstrar seu poder ao neto.

Já a diretora Rakhshan Banietemad ficou oito anos sem filmar, em um banimento auto-imposto por causa das dificuldades de conseguir aprovação para realizar um longa-metragem. Resolveu fazer Tales sem licença e sem orçamento mesmo, mas com a ajuda de uma equipe e de um elenco profissionais. O longa recupera personagens de obras antigas da cineasta, costurando histórias de pessoas comuns no Irã nos dias de hoje, em geral gente que está lutando contra a burocracia, brigando por seus direitos constantemente desprezados e tentando sobreviver apesar do desemprego. Mas a verdade é que, como em todo filme episódico, há irregularidades.

Documentário – Em The Look of Silence, o americano radicado na Dinamarca Joshua Oppenheimer volta aos mesmos eventos do seu documentário anterior, O Ato de Matar. Naquele filme, os homens a serviço dos militares liderados pelo General Suharto, que mataram 1 milhão de pessoas sob pretexto de serem comunistas, reencenam os assassinatos. Agora o foco é nas vítimas. O protagonista é Adi, que nasceu depois do assassinato de seu irmão e agora reencontra os responsáveis, seus vizinhos.

Seu desejo de entender o passado esbarra na vontade dos perpetradores de deixar o assunto para lá, apesar de serem beneficiados até hoje pelo regime. Adi pode ser incisivo, mas jamais indelicado. Só que incomoda, claro, mesmo que os próprios membros das milícias paramilitares contem vantagem ao descrever como matavam as pessoas em imagens captadas por Oppenheimer em 2003. Nas falas de então e de hoje aparecem o discurso unificado e cruel típico de governos de opressão, como relatos inacreditáveis de que alguns assassinos bebiam o sangue das vítimas para não ficarem loucos.

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