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De refugiado ao Nobel da Literatura, quem é o autor Abdulrazak Gurnah

Escritor fugiu da Tanzânia aos 18 anos em meio a um golpe de estado que provocou um massacre da minoria árabe no país

Por Amanda Capuano Atualizado em 7 out 2021, 11h10 - Publicado em 7 out 2021, 10h23

A Academia Sueca voltou a surpreender ao eleger o pouco conhecido autor Abdulrazak Gurnah para receber o Nobel de Literatura de 2021. Africano refugiado na Europa, o escritor de 73 anos é especialista em literatura pós-colonial e sua escolha cai como uma luva neste momento histórico em que as feridas da colonização pautam desde protestos contra estátuas de donos de escravos até a devolução de artefatos de arte roubados aos países de origem.

Nascido na ilha de Zanzibar, atual Tanzânia, em 1948, Gurnah deixou o país aos 18 anos de idade em direção à Inglaterra, no final da década de 1960. Na ocasião, sua terra natal, liberada do domínio britânico em 1963, enfrentava um golpe que levou à opressão e massacre de cidadãos de origem árabe. Pertencente à minoria perseguida, o autor foi forçado a deixar a família e se refugiar nas terras de seus colonizadores para seguir com os estudos. Ele só voltaria à Tanzânia anos depois, em 1984, pouco antes da morte do pai. “Ir para Inglaterra com aquela idade, me mudar de um lugar para o outro, ser um estranho lidando com as dificuldades de encontrar o meu próprio caminho, tendo que abandonar o meu lar, esse tipo de coisa me influenciou”, contou em entrevista ao site Afraso.

Radicado na Grã-Bretanha, Gurnah iniciou os estudos na Christ Church College, em Canterbury, mudando-se posteriormente para a Universidade de Kent, onde foi professor de Inglês e Literaturas Pós-coloniais até a sua aposentadoria. O autor também teve uma breve passagem pela Nigéria, onde lecionou na Universidade Kano entre 1980 e 1983. Entre uma aula e outra, se apaixonou pela literatura. A escrita em si despertou aos 21 anos, nos primeiros anos longe de casa. Embora a língua materna fosse o swahili, foi escrevendo inglês que ele conseguiu transmitir para o papel suas ideias, sempre influenciadas pela saudade de casa e pela vivência como nativo de uma antiga colônia inglesa. “Tem a ver com memória, mas não no sentido de lembrar coisas que aconteceram comigo ou com minha família. Eu nunca escrevi uma história baseada em fatos reais, mas pequenos fragmentos fazem referência a situações que aconteceram com alguém”, conta.

Suas principais influências, porém, vieram de território anglófono, como Shakespeare a V.S. Naipaul, já que o acesso à literatura em sua língua nativa era difícil até mesmo quando ainda morava na Tanzânia. As poesias em árabe e em persa, especialmente o clássico As Mil e Uma Noites, assim como o próprio Alcorão, também foram fontes significativas de sua construção como escritor. Ao longo da carreira, Gurnah publicou dez romances e vários contos, sempre contrariando o protagonismo eurocêntrico para dar lugar a histórias e angústias de personagens nativos, com foco na identidade e nos conflitos que se desenrolam a partir de choques culturais. Agora laureado com o prêmio mais importante da literatura, a escrita apresentou-se naturalmente, sem grandes ambições. “Eu não sou como Virginia Wolf, que sabia desde os 10 anos que queria ser uma escritora. Eu apenas me peguei colocando as coisas no papel um certo dia.”

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