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De Dylan a Shakira, o que embala vendas milionárias de direitos musicais

O mercado da compra e venda das canções gera fortunas a grandes artistas

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 29 jan 2021, 19h28 - Publicado em 29 jan 2021, 06h00

Em uma bem-sucedida parceria musical dos anos 80, Michael Jackson e Paul McCartney uniram seus gogós para gravar a música Say, Say, Say no histórico estúdio de Abbey Road, em Londres. Daí nasceu uma amizade, e Jackson passou a frequentar a casa do ex-­beatle. Certa noite, após o jantar, McCartney mostrou um catálogo de canções cujos direitos lhe pertenciam, e gabou-se: “É assim que se ganha dinheiro de verdade. Cada vez que uma dessas músicas tocar, eu vou faturar”. O autor de Thriller jamais havia pensado nisso como um negócio, e ficou boquiaberto com a renda — coisa de 40 milhões de dólares anuais — que McCartney obtinha com composições que não eram dele. O anfitrião lamentou que as joias da coroa — as canções de sua banda, os Beatles — não pertencessem a ele, e sim à empresa ATV Music. “Quem sabe um dia eu não compro suas músicas”, disse Jackson. McCartney riu, mas o rapaz falava a sério: de volta aos Estados Unidos, ele comprou a ATV por 47,5 milhões de dólares, e os direitos sobre o repertório dos Beatles se tornariam um de seus bens mais valiosos. O que começou como bonita amizade entre dois ídolos da música virou uma rixa célebre.

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Aquele mundo pop em que Michael Jackson deu sua tacada marota, de quatro décadas atrás, era muito diferente do atual. Mas o excêntrico astro americano, morto em 2009, se revelou um visionário: hoje, os direitos das músicas de grandes artistas estão em franco viés de alta. A lógica, contudo, se inverteu. Se no passado os artistas batalhavam para manter os direitos, nos últimos meses muitos venderam suas composições por valores milionários. O caso mais emblemático ocorreu no fim do ano passado, quando Bob Dylan transferiu cerca de 600 canções para a Universal, em uma negociação estimada entre 300 e 400 milhões de dólares. Logo surgiram novos tubarões especializados na área, como a empresa de investimentos britânica Hipgnosis, de Merck Mercuriadis, ex-empresário de Elton John e Guns N’ Roses. A Hipgnosis desembolsou cerca de 1 bilhão de dólares na compra dos direitos de artistas como Beyoncé, Blondie e Shakira. Nesse mercado também atuam a One Media IP Group, que adquiriu há duas semanas o catálogo do grupo pop inglês Take That, a Primary Wave Music, agora detentora das canções de Stevie Nicks e Olivia Newton-John, e a Eldridge Industries, que recentemente comprou todas as músicas do The Killers.

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Se o negócio é tão lucrativo, por que os artistas abririam mão do controle de suas próprias músicas? Há boas razões de curto prazo para os movimentos de venda. As incertezas da pandemia eliminaram a última grande fonte de renda dos artistas, os shows ao vivo. Para os veteranos, passar mais de um ano sem esse faturamento (e ainda longe de ver a luz no fim do túnel) implica perdas irreparáveis. Tome-se o caso de Bob Dylan. Aos 79 anos e sem a disposição da juventude, é compreensível que ele tenha balançado com a chance de embolsar centenas de milhões de dólares de uma vez. “Dylan e Neil Young estão fazendo um bom negócio porque vão ganhar imediatamente um dinheiro que levariam anos para conseguir”, diz o produtor João Marcello Bôscoli. Em 1997, David Bowie já ensinava como explorar os ativos musicais para fazer caixa rápido: lançou no mercado títulos que tinham como garantia os direitos de 25 de seus álbuns, amealhando da noite para o dia 55 milhões de dólares.

VISIONÁRIOS - Direitos, acima de tudo: Bowie (à esq.) vendeu títulos lastreados a seus discos; McCartney deu a dica — e Jackson comprou catálogo dos Beatles -
VISIONÁRIOS - Direitos, acima de tudo: Bowie (à esq.) vendeu títulos lastreados a seus discos; McCartney deu a dica — e Jackson comprou catálogo dos Beatles – Nigel Wright/Mirrorpix/Getty Images; Reprodução/.

As recentes vendas de direitos também são embaladas por cálculos de longo prazo. Na era do consumo de música por streaming, em serviços tão pulverizados, administrar o patrimônio musical tornou-se mais desafiador. Ao repassar a tarefa a terceiros, o artista não só se livra da responsabilidade: garante a vida futura de seus herdeiros, reduzindo o risco de que seu legado seja prejudicado por barracos judiciais.

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Para as empresas que estão comprando direitos musicais, as vantagens convivem com incógnitas. Algumas dizem que a valorização pode sinalizar uma bolha de mercado, que um dia deve estourar e acabar com a festa. Mas, no geral, prevalece o senso de que as obras de grandes artistas são como ações que não oscilam com os humores do mercado. Por maiores que sejam as flutuações, elas darão retorno consistente ao longo dos anos. Afinal, o consumo de música por streaming nivelou a facilidade de acesso às faixas, não importando se foram lançadas nos anos 60 ou em 2021. Está tudo disponível a um clique. Há largas avenidas, por fim, para fazer dinheiro com o licenciamento das canções em campanhas publicitárias e trilhas sonoras de filmes e séries.

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O canto da sereia é tão sedutor que encantou até Neil Young, notório por vetar o uso de suas canções em propagandas — e que, até recentemente, não permitia nem que elas fossem disponibilizadas no streaming. Como o contrato de Young é sigiloso, não se sabe se ele proíbe a utilização publicitária. Mas que ninguém estranhe se algum dia ouvir suas músicas em um comercial da Coca-Cola. A música é boa, mas a carne é fraca.

Publicado em VEJA de 3 de fevereiro de 2021, edição nº 2723

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