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Como os fãs tomaram o poder em Lost

Por The New York Times 23 Maio 2010, 12h12

Como o final de Lost se aproxima (o último episódio vai ar nos Estados Unidos neste domingo), o impulso natural é de participar do frenesi de especulação. Quem vai sobreviver, quem vai morrer, o que significou tudo isso? Nos últimos meses, Lost foi considerado menos uma série de televisão do que um gigantesco jogo de salão internacional, no qual o objetivo é encontrar respostas a perguntas que muitas vezes não têm nenhuma ligação com o que acontece na tela. Você precisa dar um passo para trás, ou cinco ou dez, e olhar além desse exercício supérfluo para avaliar a série e seu legado.

Uma vez que a própria série favorece oráculos, aqui vai mais um: Lost teve uma boa temporada, a primeira. Foi muito, muito bom, melhor que qualquer coisa na televisão, naquele momento. Mas nenhuma das temporadas seguintes alcançou o mesmo nível, e a atual, curta, confusa e maçante, foi a mais fraca.

É uma trajetória típica na televisão, especialmente para histórias configuradas como mistérios fechados. A diferença agora é que, como Lost atingiu uma nova baixa em criatividade, a atenção dedicada a ele está em alta. Faz sentido: há uma ligação intrínseca entre a queda do programa e o interesse obsessivo que ele inspira.

Quando voltamos à primeira temporada, em que os sobreviventes do voo 815 exploravam a ilha, Lost era uma bela máquina em funcionamento. O mistério era intrigante e tinha lógica interna (as perguntas foram inteligentes o suficiente, tanto que as respostas não foram imediatamente importantes), a ação foi bem conduzida, os atores eram atraentes, o local, magnífico e os custos de produção, elevados. No entanto, aquele não era um modelo sustentável. O elaborado mistério, do qual o programa dependia, não poderia ser mantido no mesmo patamar, e os personagens e seus relacionamentos haviam sido concebidos completamente em torno do tal mistério: eles tinham seu passado em vez de vidas. (A história da televisão traz algumas lições: The Prisoner provocou seu próprio fim depois de 17 episódios; Twin Peaks estava essencialmente encerrada após uma temporada. Arquivo-X em seus primeiros anos enfatizou o desenvolvimento do caráter em vários episódios independentes, mas só produziu quatro ou cinco boas temporadas em nove anos.)

Para que a história continuasse, os produtores de Lost recorreram à inflação, acrescentando elementos e personagens à trama, à custa de coerência. O conto assustador sobre um acidente de avião e seus sobreviventes em uma ilha estranha tornou-se mais uma alegoria elaborada sobre livre arbítrio e destino, individualismo e solidariedade. O mistério começou a dar lugar à mitologia.

Lost se atolou e seu público diminuiu (sua audiência nas últimas semanas têm sido de cerca de dois terços do que era em suas temporadas anteriores), mas algo interessante aconteceu: um núcleo de espectadores emergiu, fazendo com que as infinitas complicações, desastrosas em qualquer sentido dramático tradicional, se tornassem a base de um novo tipo de adoração.

No tal universo paralelo, entender a série tornou-se uma responsabilidade, até mesmo privilégio, dos telespectadores e não dos produtores. Os compromissos e os lapsos de continuidade, o suporte e sustentação da narrativa, que caracterizam todas as séries da rede de televisão, tornaram-se alimento para um tipo de comentário bíblico populista, e um exercício lógico (realizado para decifrar a intenção dos autores, em cada palavra, imagem e piadas internas) começou a parecer algo de natureza religiosa. Cada questão sobre a série tinha que ter uma resposta verdadeira, e compreendê-la, ou afirmar sua versão como correta, não era conversa fiada, mas um esporte sanguinário.

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A obsessão cresceu em simbiose com coisas como os blogs de entretenimento (e suas seções de comentários) e com o Twitter. Há um grande volume de comentários compartilhados e especulações que muitas vezes parecem ofuscar o seriado em si. Por que se preocupar em escrever quando você pode se sentir como se estivesse com a mão na massa da coisa em si?

É claro que o encantamento dos nerds por Lost encorajou fãs e críticos a celebrar a mitologia, o elemento menos importante da série do ponto de vista dramático, enquanto disfarçavam coisas como ritmo, trabalho de câmera e atuação. (Com algumas exceções, notadamente Terry O’Quinn, como Locke, e Henry Ian Cusick, como Desmond, os desempenhos têm sido medíocres desde a primeira temporada, que podem ter tanto a ver com a concepção dos personagens, como com os próprios atores.)

Enquanto não podemos saber o que se passa na cabeça dos produtores executivos Carlton Cuse e Damon Lindelof, eles já dedicaram muito tempo de tela na sexta temporada em fornecer respostas aos fãs. Alguns, no entanto, poderiam ter se contentado mais com menos respostas se isso significasse ter uma temporada final mais simples, mais fácil e mais emocionante de se acompanhar.

De fato, as cenas gravadas em Los Angeles em uma linha do tempo alternada que Cuse e Lindelof inventaram para esta temporada foram mais elegantes e interessantes de se ver do que as cenas na ilha, que estavam focadas em resolver questões pendentes na trama.

Entre as evidências de que algo novo está acontecendo em Lost, uma é o fato de que muitas pessoas, se os comentários on-line forem verdadeiros, estão dispostas a mudar a avaliação sobre toda a série baseada exclusivamente em quanto o episódio final de duas e meia horas será capaz de satisfazer suas necessidades por respostas. Esqueça as primeiras 119 horas: se você não me disser o que aconteceu com Walt, nada disso terá importância.

Igualmente reveladora é a crítica sobre o quanto Cuse e Lindelof sabiam desde o princípio acerca do desenrolar de sua trama. É uma questão sem sentido no que diz respeito à avaliação do espetáculo. O importante é o que realmente colocaram na tela. Mas isso significaria prestar atenção à série em si e não à suas opiniões sobre o seriado.

O contrato entre o autor e o público está sendo reescrito por toda nossa cultura. Certamente sempre esperamos a satisfação de alguma resolução e revelação em nossas histórias de ficção, mas tínhamos que deixar produtores fornecê-las segundo seus próprios termos e, então, julgar o resultado geral. Lost é um sinal de que isso não é mais tão verdadeiro, ao menos no que concerne à televisão. Agora que a conversa pública sobre como uma obra deve ser conduzida parece ganhar valor e ter maior impacto que o trabalho em si, isto começará a dar forma às produções de maneira que os produtores antigos de televisão ou, digamos, Charles Dickens, nunca tiveram que levar em conta.

Lost transformou fãs em críticos e críticos, este aqui inclusive, em fãs semiprofissionais. O clima entre muitos dos seguidores da série, enquanto se confrontam com o final no domingo, parece ser uma mistura de pesar e alívio. Aconteça o que acontecer com Jack, Kate e Sawyer na noite de domingo, estaremos todos fora da ilha.

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