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As lições de sobrevivente de Auschwitz para enfrentar o luto na pandemia

Em livro, Edith Eva Eger elenca com notável leveza seu processo de superação dos traumas do Holocausto — e aplica o aprendizado às dores do momento atual

Por Raquel Carneiro Atualizado em 30 abr 2021, 13h03 - Publicado em 30 abr 2021, 06h00

Quando a Covid-19 impôs uma mudança drástica em sua rotina, a psicóloga Edith Eva Eger, de 93 anos, sentiu o mesmo que tantos outros idosos: raiva. A “prisão domiciliar” trouxe o sentimento de que um precioso tempo de vida lhe era tomado. “Não valorizamos a liberdade e as pessoas como deveríamos. Só percebemos sua importância quando as perdemos”, disse Edith a VEJA. É com a experiência de quem passou por uma provação inominável que ela reflete sobre o tema: em 1944, aos 16 anos, Edith e sua família foram levadas ao hediondo campo de concentração de Auschwitz. “Sobreviver nos faz pensar: o que quero fazer com meus dias de vida?”

Judia nascida na Eslováquia quando essa pertencia ao Império Austro­-Húngaro, Edith é uma das últimas testemunhas vivas do terror em um dos piores palcos do Holocausto, onde 1,3 milhão de vidas foram ceifadas pelo nazismo. Entre elas estavam os pais de Edith, assassinados na câmara de gás. Então uma bailarina e ginasta que sonhava com as Olimpíadas, ela sobreviveu ao lado da irmã — em estado de inanição, ambas foram encontradas por soldados americanos em uma pilha de corpos. A dor incomparável foi mantida em segredo ao longo de décadas, enquanto Edith recomeçava a vida nos Estados Unidos, onde se formou em psicologia e se especializou em atendimento a militares com stress pós-traumático. A paulatina conquista de coragem para encarar o passado resultou na biografia A Bailarina de Auschwitz, publicada por ela em 2017, aos 90 anos. Agora, em seu recém-lançado segundo livro, A Liberdade É uma Escolha, Edith revela como encontrou no próprio e indizível sofrimento uma forma de guiar as pessoas na busca pela superação de situações extremas — um aprendizado que ganha dimensão especial nestes trágicos tempos de pandemia.

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A quem perdeu familiares pela Covid-19, aconselha, é fundamental a jornada do luto: “Sofra, tenha raiva, mas não domestique esses sentimentos e nem faça da dor algo crônico”. Edith optou por um ajuste no modo como observa a morte: ela prefere celebrar o tempo de vida com a pessoa a ressaltar a perda: “Tive dezesseis anos com meus pais, e foi maravilhoso”. A psicóloga elenca no livro seu penoso processo de superação e faz um alerta. Em vez de achar que seu sofrimento não é nada perto do dela, o leitor deve pensar: “Se ela consegue, eu também consigo”.

SUPERAÇÃO - Reencontro de parentes na pandemia: não se deve fazer da dor algo crônico, diz Edith -
SUPERAÇÃO - Reencontro de parentes na pandemia: não se deve fazer da dor algo crônico, diz Edith – Mads Nissen/EPA/EFE

Sorridente e com leveza no olhar, Edith usa o humor como tática de resistência. Em Auschwitz, chegou a organizar um concurso de beleza entre as prisioneiras, depois que a autoestima de todas levou um último golpe ao terem seus cabelos raspados. O ensinamento da mãe sobre como a mente era um refúgio onde ninguém poderia aprisioná-la foi crucial para que Edith se sentisse livre apesar do cativeiro. A técnica do otimismo a levou a ser chamada de “a Anne Frank que sobreviveu”. Mas, acometida por sintomas de stress pós-traumático, a psicóloga ainda tem pesadelos com o passado e se assusta com barulhos altos, como os de sirenes. Ela se emociona ao falar sobre sua contundente recusa ao vitimismo. “Eu não sou uma vítima. Não é minha identidade, mas sim o que fizeram comigo”, diz. Para coroar esse posicionamento, ela retornou a Auschwitz nos anos 90. “Eu precisava ir até lá, encarar aquele lugar e retomar minha inocência de volta.” Ali, notou o que parecia óbvio: ela não era mais uma prisioneira. Mas tinha as mãos atadas pela culpa de ter sobrevivido e pelo ódio aos nazistas. Edith, então, fez uma declaração perturbadora: assegurou ter perdoado Adolf Hitler. “Perdão é a libertação do ódio que nos mantém prisioneiros. Não queria dar a Hitler a vitória póstuma de me manter presa a vida toda”, diz.

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Falar sobre sua experiência se revelou não só um passaporte para uma vida mais leve, mas também um posicionamento político. Quando o Capitólio foi invadido por apoiadores de Donald Trump, em janeiro passado, Edith ficou estarrecida ao ver um homem com uma camiseta antissemita que exaltava Auschwitz com a estampa de uma caveira: “O fascismo e o supremacismo voltaram a crescer. Conto minha história para combatê-los”.

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Na pandemia, Edith se adaptou à tecnologia para manter seus atendimentos, palestras e entrevistas. Foi por meio do Zoom que ela falou a VEJA, e riu ao dizer que a parte boa das videoconferências é não ter mais de se importar com o que usa da cintura para baixo. “Só me arrumo na parte visível da câmera”, brinca, ao destacar as borboletas de sua echarpe, símbolo da liberdade que tanto preza. “Tenho 93 anos, vivo o presente e agradeço cada manhã que chega.” Vale a pena absorver as lições de otimismo dessa sobrevivente.

Publicado em VEJA de 5 de maio de 2021, edição nº 2736

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