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Aos 95, Tony Bennett desafia Alzheimer em novo disco com Lady Gaga

Cantor se despede dos palcos dando ao mundo uma inspiradora lição

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 8 out 2021, 17h06 - Publicado em 9 out 2021, 08h00
DUETOS - Lady Gaga e Tony Bennett: ele só lembrou o nome da parceira nos últimos shows -
DUETOS – Lady Gaga e Tony Bennett: ele só lembrou o nome da parceira nos últimos shows – @ladygaga/Instagram

Em roupa de gala, Tony Bennett e Lady Gaga encontraram-se meses atrás no lendário Electric Lady Studios, em Nova York, para gravar um vídeo promocional de seu novo disco em parceria, Love for Sale, produzido entre 2018 e 2020 e lançado na semana passada. O cantor de 95 anos e a estrela pop de 35 trocavam olhares carinhosos, como se fossem avô e neta. Mas a comunicação já não era fácil. Diagnosticado com Alzheimer em 2016, pouco depois do primeiro trabalho em conjunto da dupla, Cheek to Cheek (2014), Bennett passava a maior parte do tempo calado e com o olhar vazio, parecendo flanar em outra dimensão. Gaga tinha de repetir as frases várias vezes, lentamente, para que ele conseguisse entender. “Se eu dissesse: ‘Tony, você gostaria de cantar Love for Sale, ele diria: ‘Sim’. Mas se eu dissesse: ‘Tony, você gostaria de cantar Love for Sale ou It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing)?’, ele não saberia responder”, revelou ela recentemente a um canal de TV americano. Bastava, no entanto, o pianista tocar algumas notas para que os olhos de Bennett, antes confusos e apagados, ganhassem vida. Como num passe de mágica, sua fisionomia mudava, e as letras dos dez clássicos de Cole Porter registrados no disco vinham com facilidade: ele cantava como se estivesse no auge, era o velho e irresistível Tony Bennett de sempre.

Love Is Here To Stay

O cantor é o último representante vivo de uma escola de grandes crooners, como Frank Sinatra, Gene Austin, Nat King Cole, Bing Crosby e Dick Haymes. Nessa constelação de vozes notáveis, notabilizou-se por interpretações de standards americanos com apreço inconfundível pelo jazz. Nascido em 1926, no subúrbio nova-iorquino do Queens, Anthony Dominick Benedetto é neto de imigrantes italianos da empobrecida Calábria, e aos 10 anos já trabalhava para ajudar a família. Aos 18, em 1944, foi convocado para lutar na Alemanha durante a II Guerra — e sofreu preconceito nas fileiras do Exército americano por sua ascendência italiana. Ao voltar para casa, em 1946, começou a cantar em clubes de jazz do Greenwich Village, onde foi descoberto por uma gravadora. Em sua carreira de mais de setenta anos, vendeu 50 milhões de discos e apresentou-se para multidões ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Love For Sale

No início de agosto, logo após completar seu 95º aniversário, Bennett subiu ao palco para duas apresentações que reuniram 6 000 pessoas no Radio City Music Hall, em Nova York. Sua esposa, Susan Benedetto, de 55 anos, e o filho e empresário Danny, de 66, angustiaram-se com a dúvida: ele conseguiria cantar? De repente, quando as cortinas subiram, o lendário showman estava de volta. Ele entoou as primeiras faixas sozinho, mas logo depois Lady Gaga entrou e, pela primeira vez desde que começou a gravar o novo disco com ela, em 2018, Bennett se lembrou do nome da cantora. “Uau! Lady Gaga! Eu gosto disso”, disse ele, para consternação da artista. “Ele me chamava de ‘querida’ nos ensaios. Mas ao vivo, diante do público, ele se lembrou”, disse a cantora. “Cantar é tudo para ele. Isso salvou sua vida muitas vezes”, resumiria depois a esposa em entrevista ao tradicional 60 Minutes, da rede CBS — revelando, no entanto, que o artista ignora sua condição clínica e hoje é incapaz de tomar decisões por si só.

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Se Tony Bennett se reinventou na velhice e desafiou o Alzheimer de forma tão impressionante, foi graças aos esforços não só de Lady Gaga, mas, sobretudo, do filho. No anos 90, Danny comandou uma bem-sucedida guinada pop na carreira do pai, com o álbum MTV Unplugged e a gravação de uma série de duetos com artistas como John Mayer, k.d. lang, James Taylor, Sting, Diana Krall, Amy Winehouse e até as brasileiras Ana Carolina e Maria Gadú. A parceria com Gaga marcou o auge desse resgate. Em Love for Sale, eles fazem voos-solo, mas é nos graciosos duetos que a magia acontece. Gravando de maneira tradicional, resgatam clássicos como as deliciosas Let’s Do It, I’ve Got You Under My Skin e You’re the Top. Embora soe como um trabalho de despedida, nem de longe o disco é melancólico. “Se ele quiser cantar, deixe. Não há nada mais estimulante”, já disse a médica do cantor, Gayatri Devi.

Ao final de seu segundo show no Radio City Music Hall, Bennett recebeu palmas por dez minutos. Em seguida, Gaga lhe deu a mão e disse: “O senhor me daria a honra de acompanhá-­lo até os bastidores?”. Para a cantora, o gesto ganhou contornos emotivos. Logo após o espetáculo, as datas da próxima turnê de Bennett foram canceladas. Ao que tudo indica, a histórica apresentação foi sua última. A grande voz pode sair de cena, mas sua batalha inspiradora será inesquecível.

Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2021, edição nº 2759

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