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A arte de amar os livros: o papel pouco conhecido (e crucial) de um editor

Lenda da editora italiana Adelphi, Roberto Calasso narra em saboroso volume de memórias como o trabalho de bastidores é capaz de tornar uma obra única

Por Eduardo Wolf Atualizado em 13 ago 2020, 13h48 - Publicado em 12 ago 2020, 17h00

Quando a obra memorialística do poderoso e perturbador escritor austríaco Thomas Bernhard estava para ser publicada na Itália pela já mítica editora Adelphi, uma escolha difícil se apresentou a Roberto Calasso, encarregado da tarefa: que imagem seria capaz de comunicar apropriadamente toda a intensidade vertiginosa e precisa da prosa de Bernhard, especialmente em um livro como Origem? A escolha recaiu em uma tela do visionário e pouco celebrado artista belga Léon Spilliaert, “um muro baixo e comprido atrás do qual se expande um céu amarelo-avermelhado e, de lado, se perfila uma árvore de densos galhos secos” – e as demais obras de Bernhard tiveram o mesmo destino gráfico na Adelphi. Em A Marca do Editor, publicado no Brasil pela Âiyné, o ensaísta, escritor e editor italiano Roberto Calasso recorda, a certa altura, ter dado em mãos a Bernhard precisamente essa edição. Nada de mais – aliás, recorda Calasso, as conversas entre ambos, raramente versavam sobre livros.

Anos mais tarde, pouco depois da morte de Bernhard, em 1989, Calasso recebeu da editora alemã que publicava as obras do autor um volume que lhe provocou a sensação de um déja-vu: uma capa fosca, como as da Adelphi; a disposição tipográfica idêntica à da coleção italiana dirigida por Calasso; e, principalmente, a ilustração remetia ao mesmo estilo da pintura de Spilliaert, como na coleção italiana – até os galhos secos estavam ali, naquela capa alemã. Calasso ficou surpreso com a mudança tão acentuada por parte da editora alemã. Foi informado, então, que se tratara de desejo expresso do próprio Bernhard, que impusera como condição de publicação que o livro saísse daquela maneira. Comentando o episódio, Calasso arremata: “Considerei aquilo como uma despedida”.

Uma despedida e uma vitória – a vitória do mais profundo amor aos livros. Em última instância, o que Roberto Calasso escreve em suas memórias como editor da prestigiosa e cult casa editorial Adelphi é uma profissão de fé na qualidade, no bom gosto e no cuidado atencioso e responsável que somente aqueles que verdadeiramente amam os livros – os objetos e a cultura que eles representam – podem compreender, como Thomas Bernhard o fez em seu gesto final com sua editora alemã.

Calasso tinha 21 anos quando se envolveu com o projeto da inovadora Adelphi, em 1962, uma iniciativa de Roberto Balzen, que morreria apenas três anos depois. A marca editorial por ele deixada, no entanto, vai muito além dos cuidados gráficos, como pode parecer numa leitura superficial do episódio de Bernhardt. Na verdade, na cativante e convincente visão de Balzen, que serviu de legado para o jovem Calasso, o trabalho editorial consistia em procurar os livros únicos: livros que não teriam boa receptividade em editoras convencionais e comerciais; livros marcados por uma qualidade que os distinga dos demais; livros, enfim, que são como um acontecimento. Foi assim que a ação de Balzen e de Calasso, em editoras como a célebre Einaudi ou a ousada Adelphi, tornou livros como os de Robert Musil (O Homem sem Qualidades) e de Joseph Roth (A Cripta dos Capuchinhos) parte integral da cultura literária – além de fazer deles sucessos comerciais surpreendentes.

O livro “A Marca do Editor”, de Roberto Calasso //Divulgação

Transposto para o amor ao objeto, o livro único também reivindicava a prática de uma arte singular para encontrar-lhe a capa. Afinal, desde a Ilíada de Homero, em que se lê a descrição do escudo de Aquiles, o leitor está habituado à écfrase – o termo retórico que os gregos utilizavam para descrever objetos de arte com as palavras. A singularidade do trabalho editorial ao encontrar a imagem certa para uma obra é o que Roberto Calasso chama de “o avesso da écfrase”: a arte de traduzir em uma imagem – a capa – aquele fluxo de palavras que é o livro. Na prática dessa arte, assim como na escolha de cada obra que deverá compor um catálogo, vai uma imensa parcela da tarefa do editor, que Calasso apresenta com elegância e firmeza únicas, e em nenhum momento do livro com mais intensidade do que quando analisa, em algumas poucas e magistrais páginas, o exato oposto do ideal do livro único: o projeto da digitalização da totalidade dos livros – e de todo o conhecimento humano – que a Google pretende realizar, construindo a Biblioteca Universal. Discutindo um artigo de Kevin Kelly, da revista Wired, Calasso é implacável com as novas roupagens argumentativas que os velhos discursos catastrofistas que decretavam o “fim do livro” julgaram por bem vestir: o processo de digitalizar a totalidade não apenas dos livros já produzidos pela humanidade, mas de todas as imagens e sons, de cada página e de cada palavra produzida na Rede (de computadores), que muitos saudariam como generoso e democrático, é para Calasso o exato oposto disso: “Trata-se, talvez, da forma mais avançada de perseguição já descrita: a vida assediada por uma vida onde nada se perde e tudo é condenado a subsistir, sempre disponível, sufocante.” Em vez do livro único, da singularidade, triunfa, nesse delírio massificado tecnológico, a homogeneidade filistina.

O que essa avalanche amorfa de palavreado, memes e sons representa não é a “morte do livro”; não é um desafio de mercado, ou a superação de um suporte tecnológico (o livro) por outro (o mundo digital). Nas palavras de Calasso, o que essa visão celebratória do filistinismo tecnológico traz consigo é “uma hostilidade para um modo de conhecimento — e apenas em um segundo momento para o objeto que o encarna: o livro.” A cultura do livro é um modo de conhecimento porque supõe uma relação individual, refletida e intensificada com os livros e com os saberes que nele se depositam – o exato oposto da massificação digital. O atordoante depósito da totalidade das palavras, sons e imagens produzidos é a antítese do livro único – é a imposição autoritária de um único livro ininterrupto e inescapável. É a derrota de Jorge Luis Borges, que sonhou bibliotecas muitas, e a vitória do troll de internet, que agora é indiscernível daquela página singular, ímpar, de um autor raro e amado por leitores verdadeiros e incomuns.

Felizmente, ainda há livros únicos, e este A Marca do Editor é inequivocamente um deles. Somente um editor singular como Calasso para percorrer a história das edições renascentistas italianas, passar pelo relato pessoal de sua experiência à frente da Adelphi e evocar gigantes como o já mencionado Giulio Einaudi, Peter Suhrkamp e Roger Strauss, conquistando o leitor como um ficcionista ou um ensaísta de primeira – e provando que a própria tarefa de editar é um “gênero da literatura”.

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