Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Com hora certa: o que explica o recorde histórico de cesarianas no Brasil

Fenômeno é impulsionado por ansiedade e medo e alimentado por uma engrenagem pró-partos cirúrgicos

Por Sofia Cerqueira, Mafê Firpo
Atualizado em 24 fev 2023, 10h09 - Publicado em 24 fev 2023, 06h00

Na Antiguidade, manuscritos persas e assírios já mencionavam a retirada de bebês pela via abdominal. As primeiras evidências de que o procedimento havia sido assimilado por lei, então com o único propósito de salvar fetos, estão registradas em documentos da Babilônia (1795-1750 a.C.). Sabe-­se ainda que, um milênio mais tarde, os romanos até proibiam funerais de gestantes sem que antes se retirasse a criança do ventre. Os pequenos sobreviventes eram chamados de césares, de onde se acredita ter originado o termo cesariana — que viria a se aproximar da cirurgia tal qual a conhecemos apenas no século XVI. A pioneiríssima operação, realizada na Suíça, foi executada pelo próprio marido, acompanhado de uma dezena de parteiras, com o objetivo de aliviar o sofrimento da mulher, que penava para dar à luz. No Brasil, a primeira intervenção do gênero data de 1822 e, daí em diante, o método criado como exceção, para casos de flagrante risco à mãe e ao bebê, foi sendo absorvido no caldo de cultura local. Hoje, a opção pela cesariana tomou, segundo especialistas, a forma de “uma epidemia”.

arte cesariana

Os mais recentes dados do Ministério da Saúde revelam um recorde histórico de cesáreas no país: do total de partos em 2022, 57,7% seguiram o caminho do bisturi, fatia que vem subindo ao longo dos anos (quando no mundo ideal deveria encolher). Ela é quase quatro vezes o que recomenda a OMS (15%), um rol no qual, de acordo com a organização, deveriam constar apenas mulheres que realmente necessitam da intervenção. Com tão elevado patamar, o Brasil é vice-campeão nessas operações — são mais de 1 milhão delas por ano —, só perdendo para a República Dominicana, que crava 58% dos partos feitos à base de cirurgia (veja o quadro).

NADA DE DOR - A fisioterapeuta Camila Freitas, 35, decidiu desde o início que Maria nasceria de cesariana. “Não quis nem esperar as contrações”, conta -
NADA DE DOR – A fisioterapeuta Camila Freitas, 35, decidiu desde o início que Maria nasceria de cesariana. “Não quis nem esperar as contrações”, conta – (./Arquivo pessoal)

Cutucar o assunto sempre acende as labaredas de uma discussão que é para lá de polêmica, já que toca em uma das mais íntimas escolhas individuais de cada mulher. Mas, sendo uma questão essencial à saúde feminina, cabe pôr à mesa relevantes ponderações médicas, fruto do conhecimento científico. “A cesariana não pode ser demonizada, pois salva vidas, mas é preciso ressaltar que é um tipo de parto que contém mais riscos e, portanto, deve ser realizado em situações nas quais os minimize, e não os faça crescer”, alerta o médico Ricardo Tedesco, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

Muitos fatores pesam para que tantas brasileiras evitem o parto normal. Entre os mais mencionados está o conforto proporcionado pela previsibilidade — marcar dia e hora para o nascimento ajuda a aplacar a ansiedade. Uma parcela das mulheres nem cogita esperar os sinais de estar na hora de o bebê nascer. Pesquisas também mostram que uma ala da turma que prefere a cesárea cultiva a ideia de que a cirurgia é a alternativa mais segura em qualquer situação e ainda manifesta preocupação com a vida sexual após ter o filho pela via natural. Nenhuma justificativa, porém, supera o medo, às vezes pavor, da dor. “Desde que planejei ser mãe, sabia que queria a cesariana. Sentir dor não é para mim”, assume a fisioterapeuta Camila Freitas, 35 anos, mãe de Maria, 1 ano e 8 meses. Nem sempre a escolha é bem digerida pelo mundo em volta, e as críticas aparecem, como as que pesaram sobre os ombros da publicitária Gabriela Cordeiro, 35. Ela conta não ter sequer avaliado a hipótese de entrar em trabalho de parto. “Sabia que a recuperação poderia ser mais incômoda. Sou uma pessoa prática”, justifica a mãe de Bella, 8 meses.

Continua após a publicidade
SOB CRÍTICAS - A opção da publicitária Gabriela Cordeiro, 35, pela cesárea desagradou a amigas, mas ela seguiu firme. “Marquei dia e hora, sou prática”, diz -
SOB CRÍTICAS – A opção da publicitária Gabriela Cordeiro, 35, pela cesárea desagradou a amigas, mas ela seguiu firme. “Marquei dia e hora, sou prática”, diz – (./Arquivo pessoal)

Diante da avalanche de cesarianas, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), ligada ao ministério, acaba de lançar uma campanha para difundir boas práticas no cuidado com as grávidas e reduzir as cirurgias quando elas não se justificam medicamente. “A mulher tem total direito sobre seu corpo, mas faltam informações que podem ser esclarecedoras no momento da escolha”, avalia a obstetriz Ana Cristina Duarte, coordenadora do Coletivo Nascer, que apoia o parto normal. Estudos apontam que o risco de óbito materno é duas vezes maior entre mulheres que optam pelo bisturi, sem falar na ocorrência de hemorragias e infecções. Os bebês, por sua vez, têm mais chances de problemas respiratórios e de desenvolver diabetes, hipertensão e obesidade.

BATEU ARREPENDIMENTO - Após o parto de Maitê, Stephanie Ventura, 36, mudou sua visão sobre a cirurgia. “Ela nasceu pequenininha e eu me senti egoísta”, admite -
BATEU ARREPENDIMENTO – Após o parto de Maitê, Stephanie Ventura, 36, mudou sua visão sobre a cirurgia. “Ela nasceu pequenininha e eu me senti egoísta”, admite – (./Arquivo pessoal)

Como em todo dilema, uma parcela das que enveredam pela trilha cirúrgica acaba por se arrepender. “Não precisava ter feito. Quase desmaiei de dor no pós-operatório, minha filha nasceu pequenininha, e eu me senti egoísta”, relata Stephanie Ventura, 36, mãe de Maitê, 1 ano. À frente do estudo “Nascer no Brasil”, a pesquisadora da Fiocruz Maria do Carmo Leal observa a banalização das cesáreas. “Ao longo do tempo, as brasileiras deixaram de enxergar o recurso como uma cirurgia de médio porte para enca­rá-lo como uma simples opção ao parto normal”, diz. Desde a década de 70, quando as cesarianas correspondiam a 15% dos partos no Brasil, a taxa cresce. Nos anos 2000, ela cruzou uma fronteira simbólica, chegando a mais da metade dos nascimentos no país (veja o quadro).

arte cesariana

Continua após a publicidade

Os grandes números espelham a força de uma engrenagem que favorece a explosão de cesarianas. É quase impossível nos dias de hoje encontrar um obstetra de plano de saúde que aceite fazer parto normal sem cobrar uma “taxa de disponibilidade” pela espera — algo entre 10 000 e 25 000 reais. Para eles, que atualmente recebem das operadoras de saúde quantia semelhante nos dois tipos de parto, é mais vantajoso operar três, quatro mulheres em sequência do que passar doze horas às voltas com um nascimento. “Alguns profissionais, como é bem sabido, influenciam suas pacientes a encarar a cirurgia, alimentando a indústria da cesárea”, afirma Ana Cristina Duarte. Na rede pública, onde a mulher a partir da 39ª semana de gestação pode escolher entre um e outro procedimento, é uma questão de cunho cultural que as faz pender para a cirurgia. “A experiência do parto vaginal no Brasil é marcada por intervenções desnecessárias e violentas, o que sedimentou uma ideia negativa sobre ele”, explica Simone Diniz, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

OUTRO MUNDO - Suécia: a imensa maioria das crianças nasce de parto normal -
OUTRO MUNDO - Suécia: a imensa maioria das crianças nasce de parto normal – (Johner Images/Getty Images)

A porção desenvolvida do planeta é a que se situa mais próxima da faixa ideal da OMS, como a Suécia, que tem índice de cesarianas de 16,6%, enquanto nos Estados Unidos são 32%. A praxe nesses países é que o nascimento fique a cargo dos profissionais de plantão e nem se indague a gestante sobre sua preferência — o entendimento unânime é de que o parto seja normal, a menos que se apresente complicação que lance risco sobre a mãe ou o bebê. Isso desonera o sistema público de saúde e diminui as curvas de indesejadas ocorrências nesse momento tão tocante e delicado na vida de uma mulher. Que a opção de cada uma leve em conta a voz da ciência.

Colaborou Duda Monteiro de Barros

Publicado em VEJA de 1º de março de 2023, edição nº 2830

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.