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Por Walcyr Carrasco
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Viciado em grifes

A curiosa (e cara) obsessão por produtos de marcas famosas

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
2 jul 2023, 08h00

Uma das bolsas mais icônicas e desejadas do mundo é a Birkin, da Hermès. Segundo o Google, custa cerca de 70 000 reais. Há mais caras. Eu mesmo já vi, toquei, senti uma que valia 700 000, de outra grife. Isso há anos, quando fazia as pesquisas sobre o mundo de luxo para escrever Verdades Secretas. Ainda lembro quando a vendedora colocou luvas e retirou a bolsa. O que eu vi e senti ao tocar esse objeto de desejo? Só o susto de saber que era tão cara. Existe até um mercado de bolsas usadas — não são baratinhas, não. Para muitas mulheres, a vida não tem sentido sem, por exemplo, uma Birkin. Entram na fila e esperam anos pela bolsa artesanal. Que só suas amigas igualmente ricas saberão identificar. Se usarem de pé em um ônibus, parecerá o que realmente é: uma bolsa!

Que fazer? Há pessoas, homens e mulheres, viciadas em grifes. Eu mesmo, não nego, tenho um pé nessa história. Já me fartei de casacos, camisas, calças e tênis que nem cabem mais em meu closet. Tornei-me próximo dos vendedores que me tratam como amigo e oferecem cafezinho e até taças de champanhe. Mas agora, quando me oferecem uma roupa nova, eu digo “não preciso”. E me olham com indignação. Comprar em uma butique de grife é uma sensação especial. Há um sentimento de vitória em se atirar em algo caro e (mais ou menos) exclusivo. Do tipo “puxa, cheguei ao topo”. Meu vício começou a sumir quando descobri que possuía peças com etiqueta, compradas há anos, nunca usadas. Piorou quando emagreci e todo o arsenal ficou acima do tamanho. (Doado!)

“Para muitas, a vida não tem sentido sem uma bolsa de 70 000 reais. Entram na fila e esperam anos”

A gota d’água foi quando uma grande grife, da qual eu era cliente assíduo, fez a festa de inauguração de uma loja, e não me convidou. Chamou famosos, blogueiros, que certamente cobraram pela presença vip, e não compram coisa nenhuma. Ganharam o cachê e apareceram na mídia. E mídia era o que a marca queria. Um amigo explicou: “Chamaram quem tem a cara da marca”. Eu, na terceira ou quarta idade, ofendi-me e não comprei mais lá. Surpresa. Não me fez falta. O vício da grife está muito mais relacionado com o glamour de se sentir especial. Quando perdi essa sensação, perdi o desejo. Grandes grifes acolhem superclientes com carinho. Chegam até a oferecer lugares nos desfiles de Paris.

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Já existem grifes nacionais maravilhosas, e de valor muito abaixo das marcas estrangeiras. Estão ganhando prestígio. Hoje, todo mundo é anônimo e, ao mesmo tempo, quer sobressair da multidão. Roupa de grife tem corte, design, tecido, qualidade. Não nego. Faz a pessoa ser percebida. Mas só entre quem conhece grifes. Esperta, uma famosa atriz compra tudo falsificado, em lojas populares do centro do Rio de Janeiro. Um amigo certa vez assustou-­se: “Mas você, com falsificação?” Ela respondeu: “Quando eu uso, ninguém imagina que a bolsa é falsificada. Eu sou minha própria grife”.

Tem toda a razão. A fake é idêntica, só um especialista perceberia. Mas os viciados em grifes amam todo o universo que os cerca, inclusive o cafezinho da loja. Cafezinho caro, esse.

Publicado em VEJA de 5 de Julho de 2023, edição nº 2848

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