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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

Tudo virou recomeço

Como lidar com a ansiedade amorosa na vida pós-pandemia

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 22 abr 2022, 18h37 - Publicado em 24 abr 2022, 08h00

É um período propÍcio para novos amores. O Carnaval está aí, e uma multidão parece disposta a se rasgar. Na pandemia houve um recesso, em que aplicativos como o Tinder tiveram sua glória. Mas nada melhor que carne e osso, não é? De um tempo para cá, mais seguras, muitas pessoas procuram um par, antes que surja uma nova cepa. O movimento já vem de tempos, mas tornou-se mais intenso que nunca. Até surpreendentemente. Uma amiga me procurou assustada: a mãe de 84 está namorando. Um safado, segundo diz. A mãe, no processo de conquista, mentiu para mais o valor da aposentadoria que ganha. Foi o suficiente para receber declarações apaixonadas. Minha amiga não sabe o que fazer. E eu pergunto: fazer o quê? Não é o primeiro caso. Uma idosa começou a se relacionar. Toda parentada achava lindo, porque era com um senhor mais velho, simpático. Até que começaram a receber ameaças de sequestro da netinha e pedidos de dinheiro. Investigaram. O ancião estava por trás do golpe. A vovó foi proibida de vê-lo. Passou a encontrá-lo às escondidas.

“O Carnaval está aí, e uma multidão parece disposta a se rasgar. Após um recesso, nada melhor que carne e osso, não é?”

A pandemia talvez tenha tornado as pessoas mais ingênuas. Um conhecido, de classe média, já passou por dois casamentos. Pensava que nunca mais… Mas conheceu uma moça. Ela já tinha um filho e ele se dispôs a ser um novo pai. Convidou a eleita para ir ao Rio de Janeiro. Comprou anel. Após um lindo jantar, fez o pedido. Aceito. Na manhã seguinte, ao vir embora, ela mudou de ideia. Separou-se. Arrasado, ele descobriu que o garoto não gostava dele, e a mãe foi na onda do filho. Ele acreditou que a paixão era para sempre. Também acho que a pandemia tornou parte de nós mais românticos. A outra parte, porém, foi bem mais prática, porque ela não devolveu o anel — que ele ainda paga em prestações.

A sensação de que a vida poderia ter acabado assim, de repente, cria urgência em resolver as mágoas do passado. Um amigo, de origem pobre, hoje rico, passou a adolescência apaixonado pela mais bela do colégio. Rica, também. Hoje, ela é uma intelectual, professora universitária. Mas continua linda. Quarenta anos depois, já separado duas vezes e com quatro filhos, ele resolveu superar o trauma da rejeição. E a convidou para jantar, algo perfeitamente comum no grupo de amigos… Mas a levou diretamente de São Paulo para o Rio, em um voo fretado de jatinho. Hotel cinco estrelas. Como nos filmes, havia um vestido de grife para ela se trocar. Um jantar fantástico, champanhe… Ela também divorciada, solitária no pós-pandemia… Se apaixonou. Voltaram em clima de sonho. Dois dias depois, ele sumiu. Logo veio a descoberta. Tinha outra, mais nova. A pandemia o fez querer livrar-se do trauma da rejeição, e conseguiu. Ela, que estava de bem com a vida, ficou péssima. Ser alvo do trauma alheio dói demais.

Não se falam mais.

Publicado em VEJA de 27 de abril de 2022, edição nº 2786

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