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. Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Improviso e desespero no Planalto

Desencontro no time governista mostra falta de estratégia para virar jogo contra Lula

Por Thomas Traumann Atualizado em 15 jun 2022, 09h04 - Publicado em 13 jun 2022, 11h30

Você não precisa confiar em pesquisas eleitorais para saber que, sob as atuais circunstâncias, Jair Bolsonaro perderá as eleições de outubro. Basta acompanhar as ações no Palácio do Planalto e nos ministérios da Economia, Energia e Defesa. A improvisação, a falta de estratégia e a insensatez das propostas para tentar reverter a tendência eleitoral são demonstrações de desespero. Como um piloto que não sabe o que fazer para evitar a queda de um avião, o governo parece bater em todas as teclas de uma vez só torcendo para que alguma funcione. Faltam 16 semanas para o primeiro turno e o governo Bolsonaro está no modo crise.

Na segunda-feira, dia 6, o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou um projeto sem base financeira ou política pelo qual os Estados renunciariam aos impostos sobre combustíveis até o fim do ano em troca da promessa de que seriam ajudados pela União. Qual o valor dessa compensação? “Entre R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões”, disse Guedes. Para comparar o absurdo da falta de engenharia financeira da proposta: R$ 25 bilhões equivale a todo o valor de investimento da União em 2022. R$ 50 bilhões é o valor de quanto a União espera arrecadar com a venda do controle da Eletrobras.

A proposta não foi conversada previamente com os governadores, não tem aval no Senado e só saiu do Ministério da Economia pela sensação de Paulo Guedes de que seu emprego está sob risco. A inação do ministro em apresentar medidas que ajudem a controlar a inflação é considerada pelos assessores políticos do presidente como o principal motivo do atual favoritismo de Lula.

Na terça-feira, em reveladora entrevista ao SBT, o presidente disse que a hipótese de decretar o Estado de Calamidade Pública, manobra que lhe permitiria gastar sem limites orçamentários, não está enterrada. “É um botão que você pode apertar quando bem entender”, disse.

À repórter Débora Bergamasco, Bolsonaro anunciou que seus apoiadores farão novas manifestações contra o STF e o STF no feriado de Sete de Setembro para mostrar que ele tem mais apoio que Lula, “que não consegue juntar ninguém”. “Mas não apenas ir às ruas. Ir às ruas não sensibilizam um Alexandre de Moraes, um Fachin, um Barroso (numa referência aos ministros do STF), que estão num propósito de pôr a esquerda no poder”, disse. No meu tempo ganhava eleições quem tinha voto dentro da urna. Agora parece que quer que ganhe eleições quem tem um amigo pra contar esses votos dentro da sala-cofre”. Um Sete de Setembro massivo é a chave da contestação a um eventual resultado negativo em outubro.

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Na quinta-feira, dia 9, Paulo Guedes defendeu o congelamento de preços em evento na Associação Brasileira de Supermercados (Abras). “Agora é hora de dar um freio nessa alta de preços. É voluntário, é para o bem do Brasil. Nova tabela de preços só em 2023. Trava os preços. Vamos parar de aumentar os preços por 2 ou 3 meses. Estamos em uma hora decisiva para o Brasil”, disse o ministro, que depois ressaltou que era um pedido “voluntário” aos donos de supermercados. No mesmo evento, falando por vídeo dos EUA, Bolsonaro pediu que os empresários reduzissem “nem que fosse 1%” os preços da cesta básica. O tom eleitoreiro das falas é evidente.

Na mesma noite, o Ministério das Minas e Energia divulgou a lista de dez novos indicados para o Conselho de Administração da Petrobras, mudança que apressar a substituição do atual presidente da companhia, o químico José Mauro Ferreira Coelho, pelo jornalista e administrador Caio Mario Paes de Andrade, cuja maior proximidade com o setor de petróleo é encher o tanque do carro. Quanto assumir, talvez ainda neste mês, a gestão de Paes de Andrade será fazer da Petrobras um comitê eleitoral de Bolsonaro.

Na sexta-feira, o ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira, tentou enquadrar o presidente do TSE reclamando que suas sugestões de alteração das normas eleitorais não foram aceitas. Nunca antes da gestão Bolsonaro o Exército havia se preocupado com a eficácia das urnas eletrônicas, mas agora, escreveu o general Nogueira “nós não interessa (sic) concluir o pleito eleitoral sob a sombra da desconfiança dos eleitores. Eleições transparentes são questões de soberania nacional e de respeito aos eleitores”. Na resposta, o TSE respondeu que “preza pelo diálogo que prestigie os valores republicanos e a legalidade constitucional”.

No sábado, depois de participar de uma caravana de motociclistas em entrevista em Orlando (EUA), Bolsonaro revelou o temor de ser preso: “A turma da ex-presidente da Bolívia perdeu (as eleições), voltou a turma do Evo Morales. O que aconteceu um ano atrás? Ela foi presa preventivamente. E agora foram confirmados 10 anos de cadeia para ela. Qual a acusação? Atos antidemocráticos. Alguém faz alguma correlação com Alexandre de Moraes e os inquéritos por atos antidemocráticos? Ou seja, é uma ameaça para mim quando deixar o governo?”, disse., Depois, ele chamou Moraes de “psicopata: e Roberto Barroso de “mau caráter” e “mentiroso”.

A campanha Bolsonaro está girando em torno de si mesma. É uma forma de não sair do lugar.

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