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. Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

Exclusivo: Os EUA querem uma trégua com Bolsonaro

Em busca de aliados contra Putin no continente, a Casa Branca reabriu negociações com a Venezuela. Brasil deve ser próxima tentativa

Por Thomas Traumann Atualizado em 8 mar 2022, 09h07 - Publicado em 7 mar 2022, 08h56

A viagem no sábado (05/03) de diplomatas americanos para a Venezuela, reabrindo as conversas diretas entre os dois países depois de quase seis anos, abre a possibilidade de uma mudança nas relações dos governos Biden e Bolsonaro. De acordo com a apuração do jornal The New York Times, a viagem tem a ambição de tirar o governo Maduro do apoio explícito à Rússia na guerra da Ucrânia. Junto com a diplomacia, os EUA buscam fornecimento de petróleo alternativo à Rússia e a reabertura de negócios para as companhias americanas.

Algo semelhante pode acontecer com o Brasil, segundo fontes do Departamento de Estado. A invasão da Ucrânia já fez com que o secretario de Estado Antony Blinken telefonasse três vezes em 50 dias para o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Carlos França. Só na crise da espionagem sobre o governo Dilma Rousseff houve tanto esforço americano em falar com o Brasil. Não por acaso, o Brasil ocupa até 2023 uma das cadeiras no Conselho de Segurança da ONU.

Embora Bolsonaro tenha visitado a Rússia em janeiro, proclamado a sua solidariedade pessoal com Vladimir Putin e declarado a neutralidade no conflito, a postura do Itamaraty nas votações nas Nações Unidas tem sido pró-EUA, com nuances consideradas normais para a tradição brasileira.

No domingo (06/03), o secretario adjunto para assuntos do hemisfério ocidental, Brian Nichols, postou no Twitter um inusitado elogio à postura brasileira. “Todo voto no Conselho de Segurança para responsabilizar o Kremlin pelas suas horríveis ações na Ucrânia importam, Os EUA estão orgulhosos de estar ao lado do Brasil para defender os direitos humanos de todos na Ucrânia”. Nunca antes um voto brasileiro havia sido saudado dessa forma.

Priorizar a guerra da Ucrânia sobre outros temas pode implicar em uma mudança real nas relações americanas no continente. Em 2019, os EUA romperam relações diplomáticas com a Venezuela alegando fraudes nas eleições e iniciou sanções comerciais contra o país e autoridades do governo Maduro. Um ano depois, o governo Trump incentivou a tentativa fracassada de golpe contra Maduro.

Em entrevista a Brian Winter, da revista Americas Quarterly, o principal assessor do governo Biden para América Latina, Juan Gonzalez, disse que os EUA seguiriam reconhecendo o líder oposicionista Juan Guaidó como o presidente de direito da Venezuela, mas apontou para uma mudança real na postura americana. “Enquanto a teoria da administração anterior (Trump) era apostar no colapso do regime, a nossa é de que apenas uma negociação pode levar a mudanças concretas e sustentáveis da Venezuela para a ordem democrática”, disse Gonzales. Tirando a retórica, a declaração é um sinal de trégua.

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Na mesma entrevista, Gonzalez faz uma avaliação benigna dos supostos esforços do Ministério do Meio Ambiente brasileiro em tentar controlar o desmatamento da Amazônia, ressaltando as dificuldades políticas em combater as ações ilegais. “Os desafios políticos em torno da Amazônia são enormes. Mesmo num governo do PT, os interesses políticos e econômicos envolvidos em torno da questão serão enormes. Não vamos minimizar as dificuldades políticas (do governo brasileiro) em torno da questão amazônica”, disse Gonzalez.

É um tom muito mais compreensivo do que geralmente adotado pelos americanos. Ainda candidato, Biden havia citado a Amazônia como um exemplo de como sua política externa seria diferente da de Trump, num aviso de que pressionaria o governo Bolsonaro a combater o desmatamento ilegal. Trumpista até a medula, Bolsonaro afirmou que a vitória de Biden foi fraudada, enquanto a Casa Branca aposentou o seu embaixador em Brasília depois de ele ter se deixado fotografar em um churrasco com a família Bolsonaro. Os dois presidentes nunca conversaram, nem por telefone. Parte importante da decisão de Bolsonaro em ir a Rússia em janeiro foi para irritar a Casa Branca.

Em discurso na sexta-feira (04/03), Bolsonaro parecia confortável com a sua neutralidade. Hoje temos um problema a 10 mil quilômetros daqui, e a nossa responsabilidade em primeiro lugar é com o bem-estar do nosso povo. O Brasil não mergulhará numa aventura”, disse.

Mesmo se o governo Biden abrir uma bandeira branca é duvidoso que ela seja aceita pelo Palácio do Planalto. A corrente pró-EUA, majoritária na era Trump, foi escanteada. A versão dominante é a da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que tem ressaltado ao presidente a dependência brasileira com a importação de fertilizantes da Rússia. Segundo a ministra, o Brasil tem estoques até outubro e que pode obter novas importações do Canadá e do Marrocos.

Dois episódios mostram a dimensão do esforço do Planalto em não desagradar ao Kremlin. Na quinta-feira (03/03), o primeiro-ministro britânico Boris Johnson telefonou para Bolsonaro para discutir a Ucrânia. Segundo o porta-voz britânico, Johnson disse que “o Brasil foi um aliado vital na Segunda Guerra Mundial, que sua voz era novamente crucial neste momento de crise, e que, juntos, o Reino Unido e o Brasil precisam pedir o fim da violência”. O Planalto só confirmou o telefonema depois da divulgação britânica e se recusou a dar informações sobre a conversa.

No dia seguinte, o embaixador russo na Organização das Nações Unidas (ONU), Gennady Gatilov, afirmou que o Brasil “explicou sua postura” ao votar contra a Rússia no Conselho de Segurança. “Cabe a cada país tomar posições. Mas, para nós, os brasileiros entenderam os objetivos de nossa operação e as razões pelas quais fazemos isso”, disse o embaixador.

Será interessante observar até quando o Brasil conseguirá declarações simpáticas de diplomatas americanos e russos.

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