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Thomas Traumann

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Thomas Traumann é jornalista e consultor de risco político. Foi ministro de Comunicação Social e autor dos livros 'O Pior Emprego do Mundo' (sobre ministros da Fazenda) e 'Biografia do Abismo' (sobre polarização política, em parceria com Felipe Nunes)
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Como Lula decide (e como deixa de decidir)

É do estilo do presidente deixar as brigas internas correrem

Por Thomas Traumann Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 13 Maio 2024, 20h56 - Publicado em 26 set 2023, 12h49

Haddad briga com Rui Costa, que tenta desestabilizar Jean-Paul Prates, que se sente ameaçado por Alexandre Silveira, que quer atropelar Marina Silva, que menospreza Jorge Messias, que ataca Flavio Dino, que vê defeitos na gestão de José Múcio, que quer ir embora e deixar o cargo para Geraldo Alckmin, que imaginava ser mais ouvido por Lula da Silva. Lula da Silva? Ele acha natural ter uma equipe tão dividida.

Mesmo no Palácio do Alvorada não há paz. Derrotada tanto na redução do número de ministras e como na escolha de um homem para o STF, Janja da Silva tem opiniões fortes sobre a gestão do marido. Critica pesadamente os ministros Rui Costa e Alexandre Padilha pelo que considera descoordenação na gestão e na relação com o Congresso.

Presidentes convivem bem com as divergências internas. É uma forma de pairar acima dos assessores, garantir para si a palavra final na mediação dos conflitos. Fernando Henrique estimulava as diferenças entre Pedro Malan e Gustavo Franco de um lado e quase todos os demais assessores do outro – José Serra, Pérsio Arida, André Lara Resende, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Clóvis Carvalho. Lula jogava com as disputas entre Antonio Palocci e José Dirceu, Dilma Rousseff e Marina Silva e entre Guido Mantega e Henrique Meirelles. Mesmo Bolsonaro acreditava ter mais poder quando assistia às querelas de Paulo Guedes com Paulo Marinho.

Em seu livro de memórias “Sobre Cigarras e Formigas”, Palocci escreve sobre como Lula atuava nas suas divergências com Dirceu. “Lula acompanhava as divergências e arbitrava quando julgava necessário. Mas nunca fez questão de pacificar as posições antagônicas dos assessores _ o que, por sinal, é uma das características marcantes da sua liderança. O presidente permite que divergências internas existam e sigam o seu curso natural, com fluidez necessária. Ele observa e acompanha cada uma delas com atenção, se alimenta delas e ajuda o processo a amadurecer até complementar seu ciclo natural. Lula só interfere quando as diferenças saem daquilo que pode ser chamado de razoável _ fora disso, esse tipo de coisa jamais foi motivo de qualquer ansiedade por parte dele”.

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Outro personagem fundamental em Lula 1, José Dirceu, conta em seu livro de memórias outra característica do presidente, o lulocentrismo.

Em “Zé Dirceu: Memórias”, o ex-ministro da Casa Civil relata como Lula se irritara com a fama de que ele seria o número 2 do governo e, talvez para demonstrar quem mandava, havia desautorizado um acordo com o PMDB. Quando Dirceu foi tragado pelo escândalo do Mensalão e deixou a Casa Civil, “Lula não me pediu para ficar, não me propôs nenhuma outra tarefa, simplesmente me demitiu. Foi melancólico e simbólico, como se tudo já tivesse decidido, poucas palavras monossílabas, uma cena um tanto derrotista e pequena para os protagonistas, para nossa história de vida e luta”.

Lula mudou muitos nos últimos anos, especialmente com a experiência na prisão e o casamento com Janja da Silva. Conselheiros de 2003-2010, como Gilberto Carvalho e Luiz Dulci, foram descartados do terceiro mandato em parte pela influência da primeira-dama. É ingenuidade, no entanto, achar que Janja tem a palavra final. Lula a escuta muito, mas como mostrou a escolha para o Supremo é dele a decisão.

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Algumas características de como Lula comanda equipes seguem as mesmas dos primeiros mandatos. O conflito atual sobre o déficit zero _ que opõe Fernando Haddad com quase todos os ministros _ deve ser tocado sem que o presidente interfira, a não ser se houver sabotagem de um ministro contra o outro.

O governo Lula 3 é um paradoxo. Na superfície, é um sucesso. O PIB está acima de qualquer expectativa, a inflação está sob controle, o emprego resiliente, a confiança dos consumidores aumentou e, ao contrário do resto do mundo, o país vive o início de um ciclo de queda nos juros. A democracia resistiu a uma tentativa de golpe, os primeiros envolvidos no vandalismo de 8 de janeiro estão sendo condenados e as investigações sugerem que em breve os líderes do movimento serão processados. O presidente é popular, o maior adversário está inelegível e até os partidos bolsonaristas querem entrar na base do governo.

Nas profundezas, no entanto, é um governo com ministros com agendas conflitantes, que muitas vezes se ocupam mais em fazer o outro tropeçar do que em avançar suas próprias pautas. Lula é o único elemento que cola interesses tão diversos.

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