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Jornalista, cientista político e consultor de comunicação e política. Escreve sobre políticas públicas em áreas como educação, segurança pública, economia, direitos humanos e meio ambiente, entre outras
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No debate Hamas x Israel, polarização é justificativa moral para a morte

Não há relativização que explique moralmente as mortes de inocentes civis, mas o debate polarizado acaba impedindo a construção de pontes

Por Rodrigo de Almeida
Atualizado em 10 Maio 2024, 08h40 - Publicado em 11 out 2023, 12h58

Os gatilhos da polarização foram acionados mais uma vez, mesmo diante da banalidade do mal exposta na Faixa de Gaza. Não é preciso ser especialista em Oriente Médio ou entender mínima ou profundamente um conflito que já dura sete décadas para chorar, sentir a dor de judeus e palestinos e indignar-se com a desumanização escancarada desde o último sábado.

Não é questão de ser pró-palestinos ou pró-israelenses (ou de ambos), ser crítico do Hamas ou do governo de Benjamin Netanyahu (ou de ambos), questionar ou defender a classificação do Hamas como grupo terrorista, apontar ou não o governo israelense como genocida ou apartheid, o fato é que existem elementos para os quais não há relativização, nem atenuante, tampouco análise ou jornalismo adversativo – aquele que acrescenta um mas, porém, todavia, contudo a toda notícia, desde que sustente a defesa inquestionável de seu viés. A polarização alimenta a relativização de um lado e inflama o desejo por aniquilação de outro. Reforça maniqueísmos morais, interdita o diálogo e justifica a guerra, o sangue, a morte.

A derrota imediata é da humanidade, no geral, e dos inocentes dos dois lados, em particular – inocentes vítimas dos senhores da guerra do Hamas e do governo israelense. A desumanização para a qual não existe relativização é evidente: aparece nos civis mortos, nos corpos de crianças e famílias inteiras, nos garotos em fuga desesperada, nas mulheres exibidas como troféu de guerra, na brutalidade infinita protagonizada pelos dois lados. Surge também nas cenas de euforia e comemoração nas redes sociais, nas generalizações dos ataques e na criminalização mútua, na busca de justificações morais para a ação de um ou reação de outro (conforme seu lado na polarização poderá enxergar nos ataques do Hamas uma reação a uma colonização desmedida e cruel promovida por um governo que namora o extremismo, ou verá os ataques de Israel como uma resposta ao terrorismo).

Assim funcionam os gatilhos da polarização. Com ela despersonalizamos e desumanizamos o outro. Numa espécie de neurobiologia da ameaça, nosso cérebro tribal transforma o diferente em monstruoso, uma ameaça que deve ser exterminada para que sejamos capazes de proteger nossa identidade e deixar de sentir medo. A polarização é amiga do medo, irmã da radicalização, prima do fanatismo. Apoia-se em crenças, identidades e valores enraizados monoliticamente e exige compromisso total e absoluto. Sim, a polarização é monogâmica: alimenta certas regras morais para as quais não se admite outra coisa que não a concordância completa. Ou é isto ou aquilo.

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A radicalização acaba por também eliminar as divisas que separam a atividade intelectual e a militância política. Basta ver o exemplo do que ocorreu ontem no Rio, durante debate sobre os confrontos Hamas x Israel organizado pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI), da PUC-Rio. Numa mesa moderada pela professora Mônica Herz, um dos professores debatedores, Michel Gherman (UFRJ), cometeu o pecado, aos olhos de uma parcela de estudantes judeus, de reconhecer a brutalidade do Hamas – responsável, segundo ele, pelo “pior dia do povo judeu desde o final do Holocausto” – e ao mesmo tempo criticar o governo israelense.

Alguns estudantes discordaram da fala do pesquisador e, pior, agrediram, ofenderam e desrespeitaram Gherman, um respeitadíssimo acadêmico – e judeu. Trataram um sionista como um antissemita. Uma aluna, judia, chegou a dizer que não se via representada por ele, no que a mediadora, com firmeza e competência, limitou as perguntas da plateia e lembrou o óbvio: não se tratava ali de representatividade de qualquer espécie, mas de um debate acadêmico e intelectual, e não uma discussão política. (Não custa lembrar que até o Haaretz, principal jornal de Israel, publicou um editorial no qual afirma que o próprio Netanyahu é diretamente responsável pelo desastre, tendo ignorado as potenciais consequências da escalada da agressão contra os palestinos.)

À dor se reage com solidariedade e compaixão. Mas o campo acadêmico, assim como o jornalismo analítico e o debate público em geral, necessariamente precisa conciliar o retrato puro, trágico e simples com a análise do contexto, histórico e presente, de modo a compreender os fatos, analisar papéis, mostrar consensos e dissensos, interpretar ações e reações, propósitos e artimanhas do poder civil e militar, entender as regras do jogo. Inclusive as regras não respeitadas, como aliás analisou a jornalista e escritora Anne Applebaum num ótimo artigo publicado na revista The Atlantic, onde mostra, a partir dos exemplos na Faixa de Gaza e na Ucrânia, uma nova ordem mundial baseada no uso da violência extrema e desinibida contra populações civis – uma ordem “sem regras” protagonizada por Estados e quase-Estados. Isso muitas vezes implica avaliar criticamente um oprimido que enxergamos como opressor (ou vice-versa), gerando o que especialistas chamam de dissonância cognitiva, o desconforto que sentimos quando nossas crenças, valores e atitudes entram em contradição.

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Se eu disse que a humanidade é derrotada, também posso dizer que radicais e extremistas são vitoriosos quando a polarização prevalece. Neste caso, o risco é maior do que num debate político qualquer (como esquerda x direita, progressistas x conservadores, lulistas x bolsonaristas, wokes x não-wokes,), porque ali radicais extremistas privilegiam a ideia de que a existência de dois Estados para os dois povos é algo excludente – a sobrevivência de um povo depende da eliminação do outro. Essa não é a visão majoritária entre palestinos e israelenses, mas é a mais eficaz política e militarmente no momento.

Numa crise como essa, como afirma o professor Oliver Stuenkel, da FGV-SP, ideias mais radicais gritam mais alto, e aqueles que buscam soluções negociadas podem ser facilmente ser chamados de traidores. Impera assim o espírito da identidade movida pela ameaça. Desconsidera-se que posso ser contrário às tendências autoritárias do primeiro-ministro israelense, criticando sua política de expansão territorial nos assentamentos na Faixa de Gaza, ao mesmo tempo em que posso criticar os ataques flagrantemente terroristas por parte do Hamas. Mas quem gosta da polarização, e se dá bem com ela, vai desejar preservar apenas duas categorias. De novo: ou isto ou aquilo.

Enquanto isso, moderados à direita, ao centro e à esquerda, aqueles mais abertos a negociações de paz, encontram dificuldade de formular uma agenda que ponha fim ao ciclo infernal da violência. E no debate público, perdemos a possibilidade de traduzir nossas diferenças individuais “no milagre das pontes construídas por palavras”, para usar a bonita e mais do que nunca necessária expressão do escritor israelense Amós Oz.

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