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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Os miseráveis não podem acreditar em tudo o que leem no Facebook e no Twitter!!! Ou: Cai o vício em Deus; aumenta o vício no estado

Se também o humor brasileiro não estivesse contaminado pelo engajamento — no Brasil, até os palhaços querem ter a “marca social”; em breve, haverá o Bolsa Palhaço… —, haveria fartíssimo material para que, por meio do riso, se moralizassem os costumes: “ridendo castigat mores”. Mas quê… Também os que fazem graça agora decidiram ser professores […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 06h12 - Publicado em 21 Maio 2013, 17h25

Se também o humor brasileiro não estivesse contaminado pelo engajamento — no Brasil, até os palhaços querem ter a “marca social”; em breve, haverá o Bolsa Palhaço… —, haveria fartíssimo material para que, por meio do riso, se moralizassem os costumes: “ridendo castigat mores”. Mas quê… Também os que fazem graça agora decidiram ser professores de educação moral e cívica do politicamente correto. Há gente talentosa que começou a se perder: está mobilizando na Internet, já dá para perceber, a militância política, não os que estão em busca do riso. Quem só vê graça em desconstruir as fantasias de um lado do espectro ideológico já não faz mais humor, mas política. A turma do Casseta & Planeta, que já vinha de longe, ficou no ar 20 anos porque seu humor lidava com os preconceitos de todos os lados — tanto os “progressistas” como os “conservadores”. Não tinha agenda, e nisso estava a sua força. Tá bom, leitor! Fiz aqui um pequeno nariz de cera. O tema central é outro, mas continua no universo da piada. O governo anuncia agora que vai passar informações aos beneficiários do Bolsa Família por celular e que vai incrementar as informações nas redes sociais…

Ah, bom ! Então tá certo! Como os engajados do jornalismo e do humor não veem nisso nada de, digamos assim, contraditório, resta para um “reacionário”, um “conservador” e “direitista” como este escriba exclamar: “Que país do balacobaco este!”. O governo dá um dinheirinho às famílias muito pobres, com renda per capita entre R$ 70 e R$ 140, para, acho eu, evitar a exclusão social, essas coisas. Mas, pelo visto, admite que uma parcela dos beneficiários já não é composta de excluídos digitais, né? A média do benefício do Bolsa Família é de R$ 155 — supunha eu que fosse um dinheiro essencial para o sujeito suprir suas necessidades básicas.

Pelo visto, isso é “menas verdade”, como dizia o gramático Lula até outro dia. Nota: ninguém vai dar bolsa no Brasil para exclusão gramatical porque se decidiu que, nestepaiz, o que interessa é que “nós pega os peixe”… Já temos os “excluídos sociais” incluídos no Facebook e no Twitter, com o seu celular e coisa e tal. As telefônicas, suponho, apoiariam a ideia de cada miserável ter direito a um crédito mensal de, sei lá, R$ 20… O que lhes parece?

“Ontem [20] nós iniciamos um serviço também de mensagem para os beneficiários do Bolsa Família que têm telefone. Estamos avaliando a possibilidade de termos esse serviço para que a gente chegue rapidamente, com informações precisas, ao beneficiário do Bolsa Família. Hoje muita gente tem celular (…) A família tem telefone [celular]? Nos passe essa informação. Ontem nós mandamos informação para as famílias, dando a informação sobre o calendário [de pagamento], tranquilizando as famílias.” A fala é de Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social, segundo leio na Folha.

Bolsa BNDES
Sim, dá para debater — tanto os políticos como os humoristas poderiam fazê-lo; no jornalismo, as minhas esperanças já são menores… — se o governo não gasta muito mais com o Bolsa BNDES para os amigos do regime do que gasta com o Bolsa Família. O tema é bom. É claro que gasta! Vai se consolidando uma cultura em que pobre só aprende a ser pobre no Brasil com a ajuda do estado; e o rico só sabe ser rico com a ajuda desse mesmo estado. A única que não recebe prebenda nenhuma e ainda paga a conta é a classe média, aquela gente que Marilena Chaui “odeia”, entenderam? A classe média, coitada!, não tem nem Bolsa Juros Subsidiados nem Bolsa Facebook. E ainda é chamada de “fascista” pela Descabelada Engajada.

Num poema de 1970, “Prece do Brasileiro”, reproduzindo uma suposta fala de Jesus, que dava uma bronquinha no sujeito que, ao rezar, pedia a intervenção divina para acabar com a seca no Nordeste, escreveu Carlos Drummond de Andrade:
“(…)
Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
(…)”

O Nordeste continua seco — apesar das antevisões de Luiz Inácio Antonio Conselheiro Lula da Silva. Talvez o mar vire sertão, sei lá eu, mas o fato é que o sertão não virou um mar de água doce. O Brasil mudou. Já não existe o vício de esperar tudo da oração. Que bom! Agora se tem o vício de esperar tudo do Deus Estado. Esse estado precisa ensinar o brasileiro até a ser pobre — sim, ele sempre foi um excelente professor para indicar a alguns espertalhões o caminho da riqueza.

Na VEJA desta semana, leio que o PSDB fez uma pesquisa de opinião e decidiu que vai, parece, disputar com o PT a paternidade dos programas sociais. Já deveria tê-lo feito há muito tempo, acho eu. Mas será esse o busílis? O que há de mais notável no país, de estupefaciente mesmo, o que torna o Brasil um caso único nas democracias de todo o mundo, é não haver um partido que converse com quem paga a conta, com aqueles que Marilena Chaui, a Descabelada, considera “reacionários”, “fascistas” e “ignorantes” — sim, eles pagam também o salário de… Marilena Chaui.

Então… Parcela dos pobres que recebem o Bolsa Família (suponho que seja significativa, já que a ministra resolveu tratar do assunto) precisa, caro leitor, fazer aquilo que nós todos recomendamos a nossos filhos, sobrinhos, netos, alunos: deixar um pouco o Facebook e o Twitter de lado, né? Vão dizer que não há nisso algo de tragicamente engraçado — para voltar ao humor, de onde parti.

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