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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

ENTRE A SEVERIDADE VAIDOSA E A BONDADE CONCUPISCENTE

Marcelo Coelho busca uma área de escape para o que escreveu na Folha (ver posts de ontem). O caminho da autocrítica, quando não é debaixo de porrete (na tradição dos comunas), costuma ser uma boa saída — verdadeiramente cristã, eu diria. Corresponde a um mea-culpa — que, preciso ver, deve continuar com o hífen ligando […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 18h17 - Publicado em 23 jan 2009, 06h51
Marcelo Coelho busca uma área de escape para o que escreveu na Folha (ver posts de ontem). O caminho da autocrítica, quando não é debaixo de porrete (na tradição dos comunas), costuma ser uma boa saída — verdadeiramente cristã, eu diria. Corresponde a um mea-culpa — que, preciso ver, deve continuar com o hífen ligando (em vez de separar) o pronome possessivo ao substantivo, como a indicar a sinceridade do arrependimento…

Sei que a questão pode parecer irrelevante, mero joguinho de vaidades. Acho mais importante do que isso. Acreditem: na década de 80, antes ainda da primeira eleição direta (1989), com a democracia ainda carente de institucionalização, seria impensável a suposição de que certo tipo de pensamento devesse ser banido da imprensa. Ao contrário: havia, com efeito, uma aposta na pluralidade — às vezes, um tanto irresponsável, mas que, lá vou eu com a minha interpretação de Tocqueville, buscava corrigir os males da liberdade com mais liberdade.

A onda do politicamente correto, que chegou tardiamente ao Brasil, mas com força, criou, para citar uma palavra que vai se popularizar por causa da novela, a categoria dos articulistas “intocáveis”: a turma da direita. Basta que se lhe pespegue tal pecha, e nada mais precisa ser discutido. Se somos de direita, então somos essencialmente desprezíveis. Como já escrevi aqui, até se chegou a inventar um passado de ouro dos direitistas — aquele em que havia José Guilherme Merquior. Os de hoje? “Ah, esses caras? Não merecem nem ser contestados”. Basta que se lhes cole nas costas, como moleques malcriados no recreio, a inscrição: “ direitistas”. Foi o que Coelho fez.

Num post em seu blog — que reproduzo aqui porque tem de ser tornado público —, ele ensaia um mea-culpa. Comento em novo vermelho-e-azul. É interessante. Acompanhem.

Ainda os doutores da malvadeza
Vejo dois problemas no artigo que escrevi para a Ilustrada desta quarta-feira. Foram, entretanto, voluntariamente produzidos.
O primeiro é que há óbvias diferenças entre as figuras que citei. Luiz Felipe Pondé não é Reinaldo Azevedo, e Demétrio Magnoli não é Pereira Coutinho. Meu respeito pessoal difere conforme o caso, assim como minha segurança no tipo de argumentação que defendo contra um ou outro.
Não quis, entretanto, eleger um adversário em especial numa polêmica que, a meu ver, se dirige contra uma tendência generalizada do articulismo, e que poderia incluir, por exemplo, Denis Rosenfield ou Diogo Mainardi.
Que somos diferentes, ele já havia escrito no artigo original. “Tendência do articulismo?” Ele citou quatro nomes inicialmente. Agora, inclui mais dois. Já somos seis? Já formamos uma “tendência”? Convido o leitor a fazer ele mesmo a lista, em ordem alfabética, dos articulistas de esquerda da imprensa brasileira — nos seus variados graus de esquerdismo (já que eles também não são iguais). E falo de “colunismo” em sentido amplo, valendo também os comentaristas de TV, rádio e âncoras de programa.
Problema “voluntariamente criado”? Ofende a verdade — e certamente as convicções de um e de outro — inferir que eu e Demétrio, por exemplo, pensamos a mesma coisa sobre o Oriente Médio ou Barack Obama. Não é só um problema, Coelho. É também uma mentira!

O segundo problema é que, nos parágrafos finais do meu artigo, parece existir a intenção de silenciar esses meus adversários. Pensei bastante sobre isso. Eis o que escrevi.
“Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos “durões”. Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.”
De um certo ponto de vista, é como se eu dissesse que os artigos dessa turma devessem ser banidos da face da terra. Não acho isso. O fato de serem supérfluos não os torna, para mim, indesejáveis.
Coelho, acredite num especialista: nem todo mundo deve produzir de madrugada. Ah, sim: sou especialista em madrugadas, não em textos. Algumas pessoas, nesse período, estão com as idéias turvas e contraditórias. Volte ao início. Você diz ter criado “voluntariamente” os problemas. Agora escreve: “De um certo ponto de vista, é como se eu dissesse que os artigos dessa turma devessem ser banidos da face da terra. Não acho isso.” QUER DIZER QUE, VOLUNTARIAMENTE, VOCÊ ESCREVEU O QUE NÃO QUERIA ESCREVER? De resto, não há relativismo, não há “ponto de vista”. Você escreveu o que lá está.
Quanto à superfluidade, ler o que segue.

Um artigo radical de Reinaldo Azevedo tem a utilidade de um norte numa bússola.
Ô, Coelho, que é isso? Também não precisa me elogiar assim. Nunca ninguém me disse que tenho a “utilidade de um norte numa bússola”. Se é assim, saltei da superfluidade para a essencialidade, né? Afinal, uma bússola sem um norte não serve pra nada… Com o norte devidamente indicado, pode ser a salvação. Sou o Virgílio da Selva Escura. Mas ele segue me elogiando.

No momento em que “até ele” defender a opinião X, por exemplo, a opinião pública terá um indicativo suficiente da gravidade dos fatos e da emergência de determinada situação.
Ah, vai… Cê acha mesmo? Quer dizer que sou agora a prova dos noves para certas situações-limite? Nunca um sujeito que escreve textos supérfluos foi tão útil, então, ao debate e à “opinião pública”. Notem, a propósito, que jamais me tomei como bússola ou termômetro da opinião pública. Só escrevo o que acho que devo. E há alguns milhares que me lêem porque gostam ou porque detestam. Acredito que não tenha muitos leitores, digamos, morninhos.

Um Brasil sem Reinaldo Azevedo seria mais pobre.
Quer casar comigo?
Infelizmente, ele acha que um Brasil sem meus artigos seria mais inteligente e menos hipócrita.
Coelho, será que devemos agora fazer como Rick e Louis no fim de Casablanca? Sairemos os dois andando na névoa, a combinar safadezas, no que será, então, o início de uma “bela amizade”?
Já discordei de Coelho muitas vezes, muitas mesmo! Os motivos sempre foram claríssimos. Ele tem certo apreço pela, como escreverei?, transgressão criativa, coisa que repudio. Para usar uma imagem de Chesterton, Coelho é do tipo que acha útil trocar os postes velhos por postes novos. Eu acho que o bom mundo é o que conserva os postes antigos, pintando-os e fazendo a manutenção constante. Em suma, ele é um “progressista”. Eu sou um “conservador”. Mas ele não achará um só texto meu — e, se achar, eu me penitencio — em que sugira, ainda que lateralmente, que ele deva ser silenciado.
Posso até achar um texto seu pouco inteligente ou hipócrita — como ele deve achar os meus —, mas jamais escrevi ou escreveria que o mundo seria melhor sem eles. E a razão é simples: o meu mundo comporta a diversidade de idéias. E, confesso, até ontem, achava que o de Coelho também — apesar das diferenças, algumas verdadeiramente aze(ve)das.
Coloquemos o mundo de A a Z, agora com k, w e y, e certamente discordaremos sobre quase tudo. Mas não imaginei que Coelho pudesse pedir, por meio do que ele chamou de “problema voluntariamente produzido”, a cassação de algumas vozes — inclusive do jornal em que ele trabalha, onde é membro do Conselho Editorial. E Coelho conclui:

Desconfio que, em situações extremas, eu o defenderia mais do que ele a mim.
Como saber sem a situação extrema, né? Mas creio que você esteja errado, Marcelo Coelho. E direi por quê. Quando a jornalista Elvira Lobato, do seu jornal, foi vítima (ainda é) de uma estratégia sórdida de uma seita religiosa, eu me solidarizei com ela aqui de maneira inequívoca, clara, sem zonas de ambigüidade.
Quando Andréa Michael, outra repórter do seu jornal, foi feita vilã de setores destrambelhados da Polícia Federal, eu a apoiei aqui — e você, lamento lembrar, piscou o olho para grampeadores da PF num texto que já comentei.
Quantos foram, no entanto, os articulistas da chamada grande imprensa que saíram em defesa de Diogo Mainardi quando ação idêntica à armada contra Elvira também o colheu?

Sua desconfiança em relação a mim está errada — e talvez você devesse investigar mais o próprio quintal.
Nunca, de modo nenhum, flertei com qualquer forma de censura. Ao contrário. Meu princípio é outro: tudo pode ser publicado — desde que as pessoas arquem com as conseqüências legais de seus atos (refiro-me, claro, a sociedades democráticas).
De todo modo, Coelho, dou-lhe um conselho: NÃO ESPERE AS SITUAÇÕES EXTREMAS PARA DEFENDER A LIBERDADE E A PLURALIDADE. Eu o defenderia em situações extremas e nas não-extremas. Devemos treinar os nossos sensores (contra os… censores) para que zelem pelas liberdades públicas também enquanto as liberdades públicas existem.
Mas você continua, é certo, a ter o direito de se achar mais generoso do que eu. No meu cristianismo um tanto sofrido — talvez venha daí o meu “pessimismo sombrio” —, aprendi a não ter a severidade vaidosa. Mas também rejeito a concupiscência da bondade.
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