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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

AS FARC E UM VERMELHO E AZUL COM ELIANE CANTANHÊDE

Eliane Cantanhêde, colunista da Folha, resolveu escrever o que nem os próprios petistas que aparecem nos e-mails das Farc tiveram coragem: segundo ela, os documentos não têm a menor importância. Compreendo. Os petistas não se queimam, e Cantanhêde fica parecendo uma analista corajosa, daquelas que enfrentam as lanças do óbvio. Sua coluna deste domingo se […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 19h10 - Publicado em 3 ago 2008, 09h25
Eliane Cantanhêde, colunista da Folha, resolveu escrever o que nem os próprios petistas que aparecem nos e-mails das Farc tiveram coragem: segundo ela, os documentos não têm a menor importância. Compreendo. Os petistas não se queimam, e Cantanhêde fica parecendo uma analista corajosa, daquelas que enfrentam as lanças do óbvio. Sua coluna deste domingo se chama “Fantasmas”. Faz sentido. Comento trecho a trecho — ela em vermelho, eu em azul:

Se você espremer o que vem sendo publicado sobre os e-mails do “embaixador” das Farc no Brasil, Olivério Medina, ao seu “chanceler”, Raúl Reyes, morto pelo Exército da Colômbia em março, não sobra muita coisa.
Eu realmente tenho dúvidas se Eliane tenta nos aplicar um truque ou se está sendo sincera. Temo que seja a segunda hipótese. Eu não sou Virgílio, mas ela também não é Dante. Pegarei metaforicamente na sua mão para conduzi-la pela selva escura.
1) quando Olivério Medina, este que ela chama “embaixador” das Farc, escrevia e-mails, estava em prisão domiciliar no Brasil. Aguardava decisão da Justiça sobre uma possível extradição. Seus defensores queriam evitá-la porque diziam que ele corria risco de morte na Colômbia. E também sustentavam que havia abandonado as Farc. Estou certo de que Eliane está acompanhando.
2) Os e-mails demonstram que não, ele não havia deixado a organização terrorista. E nem poderia, como deixarei claro abaixo. E possível que a Eliane e a muitos outros pareça irrelevante que uma organização terrorista — que trafica drogas e mantém campos de concentração na selva — tenha um “embaixador” no Brasil com uma impressionante lista de contatos no governo e no partido que está no poder. Mas sigamos.

Medina, que mora em Brasília, cita nas mensagens deputados do PT e integrantes do governo Lula, como Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia. Sim, e daí? Poderia citar A, B ou C, assim como qualquer um pode me citar ou citar você.
Epa! Não é uma citação qualquer, não. Alguns petistas graúdos são lembrados na condição de aliados. E muitos fizeram parte dos esforços para manter Medina no Brasil. Rejeito a hipótese da colunista: as Farc jamais me citariam, por exemplo, como referência positiva. Poderiam citá-la entre seus encômios? Depois da coluna deste domingo, é até um dever.

Não há referência a gestos, ações ou movimentos concretos que caracterizem uma aliança com a guerrilha.
Até prova em contrário, os e-mails não têm conteúdo prático, mas um forte componente político: alguém do governo Álvaro Uribe está vazando textos e nomes no mínimo para constranger o Brasil.
Bem, agora já estamos lidando com uma mentira. E chamo de mentira aquilo que nega os fatos. A ministra Dilma Rousseff pediu, pessoalmente, ex officio — se me permitem o latinório —, a transferência de Angela Maria Slongo, mulher de Medina, para a então Secretaria de Pesca, agora ministério, conforme revelou Diogo Mainardi, colunista de VEJA. O governo se justificou sustentando que se tratava de uma ação regular, de mero cunho burocrático. Eliane diz que inexistem “movimentos concretos que caracterizem aliança com a guerrilha” — notem que ela chama narcoterroristas de “guerrilheiros”… O que ela entende por “aliança”? Voltarei a este ponto mais adiante.
Eliane quer esconder do leitor o e-mail abaixo, enviado por Medina (Cura Camilo) a Raúl Reyes, em que fica evidente uma ação coordenada — do governo brasileiro com as Farc — para “proteger” a mulher do terrorista:

17 de enero de 2007
De: ‘Cura Camilo’
A: ‘Raúl Reyes’
“El lunes 15 inició ‘la Mona’ su empleo nuevo y para asegurarla o cerrarle el paso a la derecha por si en algún momento les da por molestar, entonces la dejaron en la Secretaría de Pesca desempeñándose en lo que aquí llaman un cargo de confianza ligado a la Presidencia de la República”.
Traduzindo:
“Na segunda-feira, dia 15, a “Mona” começou em seu novo emprego e para garanti-la ou impedir que a direita em algum momento a hostilize, a colocaram na Secretaria da Pesca, trabalhando no que chamam aqui de cargo de confiança ligado à Presidência da República.”

É só isso? Não! Um outro e-mail deixa claro que Medina atua, digamos, estrategicamente, para conseguir o passaporte brasileiro e, como ele próprio revela, continuar com o seu trabalho. E qual é o seu trabalho? Ele é um terrorista. Leiam outra mensagem a Reyes:
“Devo atuar com cautela para não facultar ao inimigo argumentos que levem a questionar o refúgio. Nesse sentido, ter conseguido a transferência de “La Mona” e “La Timbica” para a capital do país foi importante. Manterei essa discrição até a neutralização. Obtida esta, terei passaporte brasileiro, e a primeira coisa que devo pensar é ir vê-los”

Eliane ignora tudo isso para levantar a hipótese, vejam só, de que o governo Álvaro Uribe faz um duplo movimento de conspiração: a) age contra o governo Lula; b) age para endurecer a política interna. Adiante.

Por quê? Ninguém sabe, nem mesmo os interessados. A suspeita é que o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, candidato à sucessão de Uribe, queira endurecer ainda mais a política interna.
O resultado é que ninguém fala mais em Daniel Dantas, e o novo foco de investigação é se as Farc financiaram campanhas no Brasil e se há vínculos entre o governo e o PT com um grupo que seqüestra e mata às centenas, ou milhares.
Huuummm… Vai ver existe um braço colombiano de Daniel Dantas… Vai ver o banqueiro, que é mau como um pica-pau, mexeu os pauzinhos na revista Cambio para desviar a atenção da tigrada brasileira. E que história é essa de que “ninguém fala mais em Daniel Dantas”? O caso continua em todos os jornais e revistas. Se havia alguém querendo que o assunto morresse, convenham, eram os petistas…
Ademais, os e-mails que vieram a público fazem parte da caixa de Pandora arquivada nos computadores de Reyes, já certificados como autênticos pela Interpol. Eliane, como se vê, faz agora a mesma reclamação que Hugo Chavez e Rafael Correa fizeram antes: a divulgação das informações é só uma tramóia dos… colombianos!!! Também ela resolveu que a culpa é das vítimas.

Por coincidência (sem ironia), a revista colombiana “Câmbio” circulou com os e-mails e nomes justamente no dia da audiência pública promovida pelo Ministério da Justiça sobre a reabertura da anistia, para processar torturadores.
E isso quer dizer que…

Do outro lado desse Muro de Berlim à brasileira, militares reagiram com sarcasmo. “O pessoal das Farc está todo lá [na reunião]”, disse um oficial. Segundo ele, exagerando, os que querem processar militares são os mesmos que pagam fortunas em indenizações para quem seqüestrou, assaltou bancos e explodiu bombas -como as Farc…
Que Muro de Berlim? O muro fazia uma separação ideológica numa cidade: comunistas de um lado, capitalistas de outro — e nunca ninguém de Berlim Ocidental quis fugir para Berlim Oriental… O muro de agora, se existe, é outro e separa a civilização da barbárie; distingue os que consideram aceitáveis os métodos do terror e os que os abominam.
De resto, com efeito, naquele dia, cobrava a revisão da Lei da Anistia gente que seqüestrou, que matou, que explodiu bombas, que assaltou bancos… É mentira? E não consta que lutassem em nome da democracia. A menos que Eliane descubra algum documento que desminta o óbvio.

Enfim, os e-mails da guerrilha não provam nada, a não ser que setores do governo Uribe estão doidos para constranger o governo brasileiro. E estão conseguindo.
É verdade. O governo Lula deveria agir à moda do texto de Eliane: não se deixar constranger nem pelos fatos. Mas isso é conversa mole. Vamos ao que interessa. Os e-mails provam, sim, muita coisa: demonstram que o governo Lula estava e está contaminado por uma rede de simpatizantes de um grupo que, nos termos da própria Eliane, “seqüestra e mata às centenas, ou milhares”. Os dois e-mails de Medina que transcrevo acima o evidenciam de maneira cabal. A transferência da mulher do terrorista, pedida por Dilma, deixou até um ato de ofício.

Mas eles são apenas emblemas a demonstrar o que todos já sabíamos e já havia ficado claro ao longo dos anos, especialmente depois do episódio da tal “invasão” do território equatoriano pelo Exército da Colômbia: as simpatias do Brasil estavam com os narcoterroristas. Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim demonizaram o quanto puderam o governo Uribe, que se defendia da ação de facínoras. Isso está evidenciado em entrevistas e em propostas indecorosas. Quem não se lembra de Lula oferecendo o Brasil como território “neutro” para Bogotá negociar com as Farc? Neutro??? Isto mesmo: entre um bando que trafica drogas, seqüestra e mata e um governo constitucional, eleito democraticamente, os petistas preferiam não escolher — ou melhor, eles escolheram: os bandidos.

Observo finalmente que o terrorista Medina é um dos dirigentes da Coordinadora Continental Bolivariana (CCB), que é hoje o braço legal — e internacional — das Farc, com representantes em vários países. Uma das táticas do CCB é justamente conseguir para seus representantes o status de refugiados.

Os documentos da guerrilha apreendidos pelo governo colombiano demonstram que a CCB conta com cerca de 400 grupos de apoiadores e simpatizantes das Farc espalhados em sete países da América Latina. Cada país tem a sua função. O Peru e o Brasil — onde Medina circula livremente e tem a mulher empregada no governo federal a pedido de Dilma Rousseff — servem para o recrutamento de pessoas que se dedicam ao tráfico de armas e à venda de cocaína. O Equador abriga o braço financeiro da organização e dá refugio a terroristas; a Venezuela, a Costa Rica e o México lavam os narcodólares.

Não creio que Eliane seja uma simpatizante das Farc. Acho que ela foi apenas frívola ao tentar limpar a barra dos petistas. Os fatos a desmentem. Espero que não termine dançando cancã.

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