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Uma batalha histórica na qual vale até comprar briga com o papa

Foi o que fez a governadora Isabel Díaz Ayuso ao defender o legado espanhol nas Américas - e, como é do estilo dela, sem meias palavras

Por Vilma Gryzinski 1 out 2021, 07h53

A colonização das Américas foi boa ou ruim?  A pergunta, obviamente, não tem resposta. Acontecimentos históricos de dimensões astronômicas não podem ser enquadrados em categorias tão simplistas.

Na prática, porém, é o que todo mundo gosta de fazer. A tradição esquerdista, profundamente entranhada no mundo acadêmico, ainda considera rebelde ou desafiador comparar a conquista – predominantemente espanhola, com Portugal ocupando um espaço na discussão quase que só no Brasil – a uma hecatombe civilizacional.

A direita, habitualmente, enfia a viola no saco e não compra uma briga na qual acha que não tem muito a ganhar.

Exceto se a direita for representada por uma briguenta daquelas como Isabel Díaz Ayuso, consagrada no cargo equivalente ao de governadora da região de Madri justamente por comprar brigas.

A última delas foi com o papa Francisco. Em visita aos Estados Unidos, ela disse achar “surpreendente” que o papa argentino tenha exortado o clero mexicano a pedir perdão pelos “pecados pessoais e sociais” da Igreja na colonização do México.

A questão é cheia de arestas: aproveitando as comemorações dos 200 anos de independência mexicana, Andrés Manuel López Obrador, o presidente populista, escreveu  em março ao rei Felipe instando-o a pedir perdão oficial em nome da Espanha pelos abusos cometidos durante a conquista e a colonização (sobre o papel da Igreja católica, não é novidade: João Paulo II e Bento XVI já haviam feito o meu culpa, mas Francisco achou que tinha que repetir o ato de contrição).

Díaz Ayuso pisou fundo:

“Fico surpresa que um católico que fala espanhol fale assim de um legado como o nosso, que foi exatamente levar o espanhol e, através das missões, o catolicismo e, portanto, e a civilização e a liberdade, ao continente americano”.

Provavelmente não existe nada mais politicamente incorreto no planeta do que dizer que o descobrimento, a conquista e a colonização das Américas trouxeram a civilização para os bárbaros, uma visão perfeitamente natural na época, hoje execrada justamente pelo excesso de simplicação.

Na Espanha, ainda marcada pela Guerra Civil e as divisões radicais entre direita e esquerda, a questão é mais complicada ainda. Do ponto de vista conservador, o país e seu riquíssimo legado histórico foram arrastados na lama pela Lenda Negra, a campanha de desmoralização – e fake news, embora muitas fossem baseadas em fatos verdadeiros – promovida pela Inglaterra quando os dois impérios começaram a disputar espaços.

Quando falam do passado, os espanhóis – como todo mundo – estão falando do presente, inclusive das disputas ideológicas.

O ex-primeiro-ministro José María Aznar, do mesmo Partido Popular que Isabel Díaz Ayuso, foi na mesma linha da governadora.

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“Nesta época em que se pede perdão por tudo, eu não vou engrossar a fileira dos que pedem perdão. Por defender a importância histórica da nação espanhola, a história da Espanha – com seus claros e seus escuros, com seus acertos e com seus erros -, estou disposto a me sentir muito orgulhoso, não a pedir perdão”.

Aznar ironizou as próprias contradições mexicanas, como a de um presidente mestiço que quer tomar satisfações com a antiga matriz colonial, como se fosse um legítimo representante do nativismo. “Como se chama ele?”, perguntou. “Andrés pelos astecas, Manuel por parte dos maias; López é uma mistura”.

Isabel Díaz Ayuso está nos Estados Unidos a convite de uma instituição conservadora para levantar argumentos contra o indigenismo, a corrente que condena in totum a colonização. Fortemente influenciado pela imigração mexicana, o indigenismo é hoje dominante.

Uma de suas manifestações é a eliminação em massa das comemorações do descobrimento da América, lembrado no Dia de Colombo, hoje riscado do calendário de muitas das cidades mais importantes do país. As estátuas derrubadas ou removidas do descobridor genovês atestam as vitórias ideológicas do indigenismo.

Os exageros da visão revisionista da história acabam provocando efeitos opostos como os defendidos pelo cientista social argentino Marcelo Gullo, um estudioso do assunto que escreveu o livro  Mãe Pátria.

Em entrevista ao El Mundo, ele fez o papel de provocador profissional. Alguns trechos:

“A Espanha não conquistou a América, a Espanha liberou a América. Para isso, Hernán Cortés aglutinou 110 nações mexicanas que viviam oprimidas pela tirana antropófaga dos astecas e que lutaram com ele. A batalha de Tenochtitlán foi cruenta, mas a batalha de Berlim também foi”.

E depois da conquista?

“Houve outro imperialismo”, reconhece Gullo. “Mas não foi embrutecedor. A Espanha encheu a América de milhares de hospitais gratuitos e de 410 universidades e, fundamentalmente, fundiu seu sangue. O filho de Cortés foi à corte. Onde está o racismo aqui, as políticas de extermínio?”.

Claro que esta é uma visão simplificada de propósito, para causar. Seus excessos deveriam servir de lição aos acadêmicos brasileiros que ainda acham moderninho menosprezar e ridicularizar a complexa história da formação do Brasil, com seus múltiplos e tantas vezes contraditórios atores.

Enaltecer a tentativa de incêndio do bonecão de Borba Gato não torna ninguém mais justiceiro – apenas mais tolo.

Menos bombásticos do que os mexicanos, com sua história tão cheia de revoluções, guerras e massacres (inclusive ou principalmente antes da conquista espanhola), os brasileiros podiam aproveitar e entender melhor a si mesmos sem os arroubos que obscurecem o bom senso e o bom entendimento.

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