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O triste caso da Igreja Anglicana: fiéis vão sumindo e templos, fechando

O fenômeno é comum ao cristianismo em geral, mas o declínio da igreja que nasceu da briga de um rei com um papa parece mais acentuado

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 jan 2022, 07h27 - Publicado em 5 jan 2022, 07h26

“Melhor uma fé fraca do que uma heresia forte”, disse Tomás Morus, o ex-protegido que o rei Henrique VIII mandou decapitar por não aceitar sua ruptura com Roma.

Henrique VIII entrou para a história como o rei que criou, literalmente, uma igreja. Morus, como um santo e mártir disposto ao sacrifício final em nome da fé.

No inferno ou no paraíso, os dois formidáveis rivais poderiam hoje juntos assistir a decadência das ideias pelas quais arriscaram tudo. A fé é fraca na Inglaterra que Henrique VIII arrancou de Roma para tentar ter um herdeiro homem e se casar com a mulher (depois mulheres) que cobiçava.

Em seu lugar, não há heresias fortes, como a de recusar a autoridade papal e assumir nada menos que seu lugar como poder supremo, mas a indiferença, a descrença, o esgarçamento de identidade com a espiritualidade cristã e sua substituição por ideologias como o ambientalismo – ou por simplesmente nada.

O enfraquecimento da religião, um fenômeno comum na Europa desenvolvida, se reflete no fechamento literal de igrejas. Um levantamento feito pelo jornal Telegraph mostrou que mais de 400 igrejas fecharam nos últimos dez anos na Inglaterra. Em trinta anos, foram 970.

Além dos fiéis que encolhem e não se renovam, o fenômeno também é produto do despovoamento das pequenas cidades, com menos oportunidades e atrativos para os mais jovens. Igrejas abandonadas e pubs fechados refletem essa realidade. No interior da Espanha, da Itália e da França, onde predominou o catolicismo, a paisagem não é muito diferente. Não existe patrimônio artístico que dê conta de substituir a falta de gente.

A Igreja Anglicana que Henrique VIII criou – com direito a maiúsculas – é uma das peculiaridades que fazem o excepcionalismo da Inglaterra, tão cultivado como um dos fatores de identidade nacional. Tirou todo o seu ritual da Igreja Católica, emprestou uma fatia da reforma protestante que já se desenhava na época, fez pequenas adaptações teológicas e instaurou uma religião de estado que dá ao monarca a posição de chefe supremo.

É tão anacrônico que só pode continuar funcionando na Inglaterra. Os bispos anglicanos, por exemplo, têm cadeiras na Câmara dos Lordes – parece o Conselho da Revolução do Irã, com a diferença que a democracia orgânica impede os abusos.

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Não que tenha havido falta deles. O cisma promovido por Henrique VIII e endossado pelo parlamento entre 1532 e 1534 alimentou a rivalidade entre católicos e protestantes, incentivando atrocidades dos dois lados. Guerras civis se sucederam e pretendentes ao trono enfrentaram-se em confrontos que duraram séculos. Os católicos – “papistas”, na definição dos adversários – perderam, sofreram perseguições e discriminação. Somente em 2013 foi substituída a lei datada de 1701 que proibia o monarca ou herdeiro de se casar com alguém da fé católica.

Tudo isso pertence a uma história, cheia de som, fúria e sangue. A Igreja Anglicana hoje é repleta do que no Brasil seriam os padres petistas. Justin Welby, autoridade espiritual maior como arcebispo da Cantuária, vive fazendo insinuações contra o governo, nominalmente conservador, de Boris Johnson. Incorre em bobagens de psicologia de botequim do tipo “muitas pessoas rejeitam a ideia de Deus como pai se tiveram um relacionamento ruim com seus pais”.

“Deus é a favor de impostos mais altos, da proteção aos sindicatos, da proibição dos empregos temporários e do salário mínimo de 8,75 libras a hora”, ironizou no Guardian o colunista Simon Jenkins, reproduzindo um discurso de Welby na central sindical TUC. Os esquerdismos de manual do arcebispo esbarram no ateísmo da esquerda de raiz.

As causas politicamente corretas foram plenamente incorporadas. Não só as mulheres passaram a receber a ordenação sacerdotal desde 1992 como existe uma mulher trans, Sarah Jones, no comando de uma paróquia. Ela fez a transição antes de ser ordenada e já declarou que Deus não é ele nem ela, “mas magnificamente não-binário”.

O papa Bento XVI criou um “ordinariato pessoal”, um organismo dirigido especificamente a acolher os sacerdotes anglicanos que não aceitam mudanças desse teor e resolvem fazer outro tipo de transição, em direção da Igreja Católica. Através disso, padres casados que se convertem são aceitos na Igreja. Jonathan Goodall, bispo de Ebbsfleet, foi um dos casos mais recentes. Desde os anos noventa, doze bispos se converteram.

É claro que tudo o que acontece com os anglicanos é uma espécie de prévia do que vai se passar, ou já está se passando, com a Igreja Católica, cuja força vem, segundo um termo caro ao papa Francisco, das “periferias”, elas próprias palco do impressionante avanço das novas igrejas evangélicas.

Uma igreja que não tem mais certezas férreas e vai atrás do espírito do tempo é, concorde-se ou não com isso, uma igreja enfraquecida.

Segundo o censo de 2019, a Inglaterra está a 1% de se tornar um país sem maioria cristã. Apenas 51% declararam-se cristãos. Sem religião foram 38%. Os “cristãos culturais”, que ainda têm ligações emocionais com todo o legado da igreja – seja de que confissão for – divisam nisso tudo um dos sinais de declínio da civilização ocidental, a prodigiosa construção que, com todos os desvios, erros e brutalidades, mais conhecimento e liberdade trouxe para a humanidade.

Em Utopia, uma sátira que publicou em 1516, Tomás Morus coloca seu interlocutor fictício como integrante de uma viagem de Américo Vespúcio ao Brasil. A ilha utópica fica depois do Brasil, um lugar sem propriedade privada nem trancas nas portas, com hospitais grátis, refeições comunitárias e várias religiões, todas mutuamente toleradas. O tipo de lugar em que Justin Welby gostaria de morar, conformado com seu jardim religioso cada vez mais desimportante.

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