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E se fosse Trump? Como seria tratada a derrocada no Afeganistão?

O ex-presidente provavelmente estaria sofrendo um novo processo de impeachment e ataques sem comparações com os feitos a Joe Biden

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 26 ago 2021, 08h43 - Publicado em 26 ago 2021, 08h24

O general Jim Mattis, descrito como o mais reverenciado dos marines, escreveu palavras eloquentes ao apresentar sua renúncia como secretário da Defesa, em dezembro de 2018.

“Nossa força como nação está inextricavelmente ligada à força de nosso abrangente e peculiar sistema de alianças e parcerias”.

“Não podemos proteger nossos interesses sem manter alianças fortes e mostrar respeito por estes aliados”.

Mattis, conhecido na época da guerra no Iraque como “Cachorro Louco”, estava revoltado com a decisão de Donald Trump de retirar as tropas americanas do enclave na Síria onde haviam lutado lado a lado com guerrilheiros curdos para combater o Estado Islâmico.

Foi uma luta tão bem sucedida que Trump decidiu que estava na hora de mandar os americanos para casa, causando um enorme escândalo: com a saída deles, os curdos, um “povo sem nação” que se espalha por vários países do Oriente Médio, ficariam expostos ao avanço do pior de seus muitos inimigos, os turcos.

Trump não deu ouvidos às críticas – numa repetição, em escala infinitamente menor, do que acontece hoje com a desastrosa retirada americana do Afeganistão.

Mas deu um aviso bem claro e em termos tipicamente trumpianos, à Turquia, caso houvesse o prognosticado massacre de curdos na faixa fronteiriça entre o país e a Síria.

“Como já declarei cabalmente antes, e só para reiterar, se a Turquia fizer alguma coisa que eu, na minha grande e incomparável sabedoria, considerar que passou dos limites, vou destruir completamente e obliterar a economia da Turquia”.

Resultado: não houve massacre nenhum; os curdos da região tiveram que fazer deslocamentos populacionais que são, infelizmente, parte de sua história e no dia seguinte seus líderes estavam em Damasco fazendo um acordo com Bashar Assad, o ex-inimigo que passou a aliado, como é praxe na região.

Mais importante ainda, o Estado Islâmico não conseguiu se recompor na faixa entre a Síria e o Iraque, onde havia emergido para horror do mundo com suas práticas hediondas.

Agora, é no Afeganistão que o braço do Estado Islâmico pode se manifestar, sob proteção do Talibã. Os dois não se bicam muito, mas têm uma identidade doutrinária indiscutível, almejando um califado teocrático que abranja todos os países muçulmanos e, eventualmente, o mundo. O estranho encontro do diretor da CIA, William Burns, com o líder talibã Abdul Ghani Baradar, foi justamente para tratar da questão do Estado Islâmico. Não deve ter sido muito promissor.

A “traição” de Trump aos curdos é apenas remotamente comparável à de Joe Biden aos afegãos que não serão resgatados no prazo que vai apenas até terça-feira para a retirada de todos os americanos e de seus colaboradores totais.

Pior ainda, nem existe certeza plena de que todos os americanos estarão fora do país até dia 31.

O que estão dizendo os generais, mesmo que já vestiram o pijama, sobre a gravíssima traição aos colaboradores que eles cooptaram ao longo dos últimos vinte anos? O secretário da Defesa, general Lloyd Austin, cogitou renunciar? O chefe do Estado-Maior, general Mark Milley, protestou e tentou fazer o presidente mudar de ideia? Alguma carta cheia de louváveis princípios morais pousou sobre a mesa de Biden?

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Nada disso. Estão todos fazendo o papelão de acatar obedientemente a traição. O presidente é, obviamente, o comandante-chefe, mas sempre resta a saída honrosa da renúncia, como fez Jim Mattis. Mas, em vez de cachorros loucos, a cúpula militar americana está cheia de poodles procurando proteger as próprias partes traseiras.

Não é impossível que a lista de traídos inclua até mesmo cidadãos americanos que não conseguirem chegar ao aeroporto de Cabul, a única – e caótica – porta de saída.

Joe Biden não está apenas abandonando seus próprios cidadãos e àqueles a quem os Estados Unidos deveriam estender sua proteção, como rejeitando os apelos de aliados para não largar os afegãos à própria sorte.

Lembram-se do tempo em que Trump era repudiado por prejudicar os tradicionais aliados da OTAN e acusado de solapar a mais importante aliança político-militar dos Estados Unidos?

Hoje é Biden quem não dá ouvidos aos apelos de países importantes como a Grã-Bretanha e a França, que imploraram por uma prorrogação do prazo da saída final, para que possam resgatar mais colaboradores.

Joe Biden foi eleito, acima de tudo, por não ser Donald Trump. Todo o establishment e a maioria da opinião pública, embora por pouca diferença, desenvolveu uma profunda ojeriza a Trump, creditando a ele a diminuição da estatura dos Estados Unidos no mundo, insensibilidade no tratamento dos aliados mais tradicionais e divergências com as posições dominantes em relação a acordos como o da mudança climática.

Foi Trump quem decidiu que estava na hora de tirar todos os americanos do Afeganistão, onde já haviam encolhido para operações apenas de cobertura aérea ao exército local – cuja inutilidade ficou agora sobejamente demonstrada.

Ele aceitaria a suprema humilhação e desastrosa execução da retirada americana? Isso é para os praticantes da história contrafactual.

Mas as críticas a Joe Biden, num caso grave como o atual, sequer se aproximam das rajadas incessantes dirigidas contra Trump em circunstâncias muito menos deletérias.

Isso dá ao atual presidente uma vantagem: se o desastre afegão não piorar, não houver um atentado de última hora e remanescentes americanos puderem deixar o país posteriormente ao dia 31, o trauma será progressivamente absorvido e ele terá até a chance de recuperar a taxa de popularidade – agora, pela primeira vez, abaixo de 50%. 

Segundo a pesquisa mais negativa, 41% dos americanos aprovam o presidente e 55% desaprovam. Em relação ao Afeganistão, o desastre é enorme: 25% de aprovação, contra 60% de opiniões negativas.

Para um político profissional como Biden, as pesquisas de opinião são o norte de qualquer decisão. O fato de que pareça ter perdido a bússola no desastre do Afeganistão é motivo de grave preocupação. 

Quando políticos experientes como Biden, não novatos disruptivos e anárquicos como Trump, agem contra seus próprios interesses, dá um arrepio na espinha. O que teriam a dizer os psiquiatras que fizeram fila para diagnosticar Trump com transtornos narcisistas e outros distúrbios psíquicos?

Um político conservador britânico, Bob Seeley, já deu seu diagnóstico: ”Tal como era preciso questionar a aptidão moral de Trump para o cargo e é preciso questionar a aptidão intelectual e física de Biden”.

“Sinto muito, mas ele ficou gagá”.

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