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Boataria absurda de internet diz que Brigitte Macron nasceu homem

Virou tendência na França e a mulher do presidente manda dizer que vai processar. Será melhor ou pior para ela?

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 22 dez 2021, 09h07 - Publicado em 22 dez 2021, 07h12

Sempre foi assim: quando alguém tem raiva de uma mulher, seja por um incidente de trânsito ou uma discussão no Parlamento, os primeiros xingamentos são vinculados à sexualidade. Ou ela é profissional do ramo ou gosta do mesmo sexo.

Agora, surgiu uma terceira forma de tentar derrubar uma mulher visada: dizer que ela é, na verdade, homem. Ou foi, sendo agora mulher trans.

Isso está acontecendo com Brigitte Macron, a mulher do presidente francês cuja intimidade sempre despertou muita curiosidade porque ela é 24 anos mais velha do que o marido, a quem conheceu quando ele assistia suas aulas de teatro quando tinha 15 anos, num colégio jesuíta.

A infâmia se tornou a hashtag #JeanMichelTrogneux e virou trend no Twitter durante dias seguidos. Trogneux é o nome de família de Brigitte e o “Jean Michel” seria seu nome original.

Ter que passar por isso aos 67 anos, três filhos (do primeiro casamento) e sete netos, é talvez mais do que se possa exigir de alguém levada, indiretamente, à exposição da vida pública.

Através de seu advogado, Brigitte disse que vai abrir processo. Quem? A história parecer ter seu original em Natacha Rey, que se diz jornalista independente e praticante de “outras atividades artísticas”. Numa entrevista via YouTube, ela afirmou que passou três anos levantando o caso, ao qual foi levada, em primeiro lugar, pela “estranheza física” de Brigitte. Um jornal obscuro de extrema-direita, Faits e Documents, abriu a porteira.

A mulher do presidente está certa em apelar à justiça ou vai acabar chamando mais atenção ainda para um caso de virar o estômago?

Brigitte desenvolveu um couro bem grosso depois que se apaixonou por um adolescente da mesma classe que sua filha, largou o marido por causa dele e desafiou uma montanha de convenções para construir com o jovem “Manu” uma parceria dada por inevitavelmente condenada.

Pode ser admirada por isso, principalmente por mulheres mais velhas que acham a história de amor o máximo, ou condenada por um relacionamento que hoje seria considerado abusivo e daria até cadeia.

Mas todos têm que concordar que a sórdida boataria que a dá por mulher trans visa, acima de tudo, Emmanuel Macron.

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A sexualidade do presidente também é objeto de muitas especulações e contestar a natureza feminina de sua esposa casa com esse tipo de boato. O movimento chegou ao ápice à véspera da eleição de 2017, que Macron ganhou espetacularmente com 66% dos votos. Ele chegou a abordar o assunto, dizendo que passa o dia inteiro, “de manhã até a noite”, com Brigitte. Se tivesse uma vida paralela, como diziam os fofoqueiros, só se fosse via um holograma.

Macron disputa a reeleição agora em 2022 e nem a mais ingênua das almas acha que os boatos sobre Brigitte não estão ligados a isso. Em 2017, muitas das fofocas foram explicitamente espalhadas pelo aparelho de desinformação da Rússia – Vladimir Putin tem especial predileção por Marine Le Pen, o que talvez seja uma decepção para as almas ingênuas que o admiram e aplaudem no campo esquerdista.

Brigitte Macron não é a primeira a sofrer uma tentativa de “roubo” de sexualidade por estar numa posição de alta visibilidade política. Há anos, o mesmo tipo de boataria circula em comentários de sites conservadores sobre Michelle Obama.

O rei de todos os conspiracionismos, Alex Jones, chegou a fazer uma sequência de dez minutos de cenas com Michelle, uma mulher imponente de 1,80 metro e braços torneados, “mostrando” insinuações de um pênis por baixo de suas roupas. De novo, é de vomitar e, de novo, obviamente, o alvo é o marido, Barack Obama.

Na Nova Zelândia, pelo menos, o objeto da mesma sordidez é a primeira-ministra Jacinda Ardem. Nem o fato de que ela levou o filhinho recém-nascido para uma sessão do Parlamento dissuade os mal intencionados.

Hillary Clinton teve um tratamento mais clássico. Adversários conservadores davam como “certo” que ela tinha um caso com a assessora Huma Abedin. Não arredaram pé nem quando a vida real se mostrou mais interessante: Anthony Weiner, o marido judeu de Huma, muçulmana de origem paquistanesa, teve que renunciar à candidatura a prefeito de Nova York depois de cair na armadilha montada por um tabloide inglês e trocar textos picantes com uma menor de idade.

Nome fantasia: Carlos Danger.

Dizer que um líder político é casado com uma mulher trans é uma “evolução” da era contemporânea da maledicência mais convencional, que dá os dirigentes por maridos traídos, outra intriga recorrente e incontrolável.

Políticos brasileiros que já fizeram comentários nada cavalheirescos sobre a aparência de Brigitte Macron deveriam saber como este é um campo desconfortável.

Como Macron está subindo nas pesquisas – 26%, contra 17% para Valérie Pécresse e 16% para Marine Le Pen -, a usina de infâmias não vai fechar tão cedo.

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