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Mundialista

Por Vilma Gryzinski
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Até quando viram mulheres, homens continuam a ser figuras dominantes

O debate desencadeado pelas publicidades importantes feitas pela trans Dylan Mulvaney mostra como a discussão de gênero tem domínio masculino

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 13 abr 2023, 07h20 - Publicado em 13 abr 2023, 06h36

Já viram manifestantes gritando “homens trans são homens”? Já viram mulheres biológicas que viram homens trans brigando para participar de categorias esportivas masculinas? Aliás, já viram a repetição constante do adjetivo ”biológico” para descrever alguém com cromossomas XY, tendo este acréscimo se tornado quase obrigatório para a turma do XX?

Outra prova de que, mesmo se declarando mulheres, os XY dominam o debate da identidade de gênero e a polêmica desencadeada pela contratação da trans Dylan Mulvaney para fazer publicidade de roupas esportivas femininas da Nike e da cerveja Bud Light, marca da Anheuser Busch InBev, controlada pelo conhecido trio de brasileiros atualmente lidando com os múltiplos problemas das Lojas Americanas.

Dylan começou como ator gay, tem uma bela voz de musical americano — justificadamente, trabalhou no Livro dos Mórmons — e explodiu no TikTok. Não era bonito como homem e assim continuou como mulher, apesar de cirurgias plásticas feitas para feminilizar o rosto. 

Mas não usa implantes para imitar seios e não amputou os genitais masculinos, o que provocou críticas à Nike. Como pode anunciar tops de ginástica se não tem o que acomodar dentro deles, uma questão que tem várias implicações para esportistas mulheres? E as leggings usadas por quem não precisa lidar com menstruação e seus acessórios?

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Também houve críticas ao modo como Dylan Mulroney satiriza mulheres fazendo ginástica. Não é exatamente uma novidade: drag queens e outras figuras desse universo habitualmente encarnam mulheres superexageradas, com atributos femininos ampliados ao ponto do absurdo. Mas as espetaculosas drags costumam ser focadas num público específico, que se diverte com as paródias e piadas, e não para a audiência geral de uma publicidade de um gigante como a Nike.

Por causa da repercussão, a trajetória dos “365 dias de mulherice” feita por Dylan — com direito a parabéns da vice-presidente Kamala Harris, querendo pegar carona na popularidade alheia — também passou a ser examinada retrospectivamente.

No seu “primeiro dia como menina”, Dylan anotou: “Já chorei três vezes. Escrevi um e-mail malcriado que não mandei. Comprei vestidos pela internet que não posso pagar. E quando alguém me perguntou ‘Como vai?’, respondi ‘Tudo bem’, quando não estava bem”.

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É uma paródia, obviamente, das inconstâncias do comportamento feminino. Pode ser visto como piada. Ou do ângulo do colunista Dan Wootton, do Daily Mail: “Vinte e quatro horas depois de passar um batom, Dylan decidiu que as qualidades essenciais da feminilidade são ser um desastre emocional passivo-agressivo que gasta dinheiro irresponsavelmente em roupas”.

Fica pior, escreveu o colunista. Dylan usou as redes sociais para proclamar que “mulheres podem ter ‘volume’” — referência aos genitais masculinos intactos —, “pessoas de todos os gêneros usam tampão” menstrual e “meninas de verdade não usam sutiã”.

Ou seja, tornou-se um oráculo especialista em dizer o que são as mulheres.

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“Como homem gay, acho que tenho o dever de denunciar a homofobia intrinsecamente conectada à ideologia de gênero extremista que Dylan está ajudando a propagar”, escreveu Wootton. “Sair do armário como gay ou lésbica já é suficientemente difícil sem ter que  declarar no ato que você acredita ser do sexo errado”.

Sem contar todo o processo complexo e doloroso da mudança de gênero, com anos de tratamentos hormonais, cirúrgicos e psicológicos que afetam o corpo em aspectos fundamentais, incluindo a fertilidade.

Dylan Mulvaney criou um personagem e reduziu tudo a uma alegre e descompromissada trajetória no TikTok? Vida longa e prosperidade — aliás, Dylan nasceu numa família rica e, tendo em volta profissionais competentes, está fazendo sua própria fortuna como influencer, com proventos calculados em um milhão de dólares.

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Mas por que grandes empresas cujos produtos são destinados ao público feminino, como as roupas esportivas da Nike, ou masculino, no caso da cerveja, o contratam para peças publicitárias?

Pelo mesmo motivo que estamos falando de Dylan aqui: virou um assunto. E, claro, o desejo de lacrar com o público jovem. A Bud Light “estava em declínio há muito tempo”, chegou a dizer a vice-presidente da marca, Alissa Heinershneid. “Se não atrairmos jovens para beber esta marca, a Bud Light não tem futuro”.

Colocar o rosto de Dylan Mulroney numa lata comemorativa foi um jeito certo de fazer isso? A primeira reação, negativa, veio dos rincões da América profunda. “Se você tomar essa cerveja é porque é gay e todos seus amigos vão dizer isso”, resumiu um leitor num site conservador. As distribuidoras também sentiram a reação e a empresa perdeu 5 bilhões em valor de mercado. A marca tem uma fatia gordíssima de 10,6% do mercado americano.

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As conclamações ao boicote podem ser de curto prazo. Mudar de marca de cerveja é uma decisão séria na vida de qualquer pessoa — para não falar em mudar de marca de tênis, uma verdadeira tragédia. E o público mais jovem procurado por marcas tradicionais pode realmente não ligar a mínima e até achar graça na discussão.

O que não elimina o fato de que homens biológicos que decidem mudar de gênero agora definem o que é ser mulher, uma questão que heterossexuais na esfera pública têm o maior cuidado para não responder ou à qual dão respostas absurdas, com medo de serem tachados de transfóbicos.

Perguntada na sabatina no Senado se poderia definir o que era uma mulher, Ketanji Brown Jackson, agora juíza da Suprema Corte americana, respondeu: “Não posso. Não sou bióloga”. Repetindo, ela está na Suprema Corte dos Estados Unidos.

O líder trabalhista Keir Starmer, dado por todas as pesquisas como o próximo primeiro-ministro britânico, tentou contemporizar, diante da polêmica de mulheres trans muito bem dotadas colocadas para cumprir pena em penitenciárias femininas: ”99,9% das mulheres não têm pênis”.

Ufa. Só faltou checar com Dylan Mulvaney se havia acertado.

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