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Matheus Leitão

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Cientista Politica a Manuela D’Ávila: ‘Como podemos abdicar de você?’

Em carta endereçada à ex-deputada, Débora Thomé comenta as dificuldades da mulher na política, hoje com apenas 15% das cadeiras no Congresso

Por Débora Thomé
Atualizado em 7 jun 2022, 18h36 - Publicado em 2 jun 2022, 13h00

Cara Manuela D’Ávila (gostaria de chamá-la querida, dado o afeto, mas comecemos formalmente),

Tenho pensado muito em você nos últimos dias, desde que soube de sua desistência a concorrer a uma vaga ao senado. Principalmente, dias após a anúncio semelhante ter sido feito pela deputada Áurea Carolina. Há alguns anos, como cientista política, venho acompanhando mulheres candidatas e suas agruras neste processo: partido, família, lideranças, tudo parece dificultar. Converso, discuto, as escuto e reconheço: a vida de vocês não tem sido nada fácil. 

Infelizmente, não tive ainda a possibilidade de conhecê-la, mas a vi de longe num debate com as vice-presidentes, em 2018, em São Paulo. Junto de grandes mulheres da política, era você que todas as jovens queriam ouvir, era a você que jornalistas faziam as perguntas. Nas andanças com as candidatas, não raros foram os momentos – ao contrário – em que muitas delas, com as quais dialogo, do interior do Rio Grande do Sul ao Amazonas, mencionaram categoricamente: meu sonho é ser como a Manuela D’Avila. 

Na pesquisa, tenho enfatizado que não é a dupla jornada que afasta as mulheres da política, mas, sim, as instituições, que são incapazes de garantir a participação em igualdade. Por conta disso, você sabe, este será um ano duríssimo para que consigamos manter os 15% no Congresso Federal. Em geral, as mulheres desistem antes mesmo de concorrer, pois os partidos não repassam o dinheiro do financiamento da campanha, ou o fazem muito em cima da hora. Outras desistem porque suas famílias são ameaçadas. Lembro-me que, de acordo com o levantamento feito pela Revista AzMina, mais de 95% das ameaças online eram dirigidas justamente a você e à deputada Joice Hasselmann. Reconheço: sua vida deve estar muito, muito, difícil.  

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Envergonho-me por um país que não tem conseguido garantir uma disputa livre de medo e ameaças e o quanto isso tem demovido mulheres tão incríveis como você de participar do processo eleitoral. A violência política neste grau afasta quem já se elegeu e desencoraja aquelas que sonhavam em trilhar uma carreira política. Sem regras e seu respectivo cumprimento para permitir que haja candidatas competitivas, seguimos como o pior país latino-americano em percentual de mulheres na política. Os homens, da velha política, os conservadores, eles saem vencedores.

Voltei a pensar em você ontem quando tinha que deixar meus filhos e enfrentar o medo de voar (olha que era só isso!), de ficar longe, para ir trabalhar em Brasília. Juro, nessas horas, para me dar coragem, sempre me lembro das mulheres da política, de pessoas como você, como Dilma, que fizeram a carreira rodando o Brasil, deixando criança longe ou carregando debaixo do braço, escutando todo tipo de impropério e ameaça. Sempre penso: se elas puderam aguentar tudo isso, eu devo conseguir fazer um pouco também. Meu compromisso com o país não é tão honroso como o seu, mas deve fazer lá alguma diferença. Assim me pergunto: como podemos abdicar de uma mulher da política admirada e com uma carreira sólida como a sua?

Acredite: eu entendo perfeitamente a sua decisão, ao mesmo tempo em que a lamento profundamente. Não na esfera individual, pois o mais importante é garantir a vida de sua família, mas naquilo que o Brasil perde sem você por se recusar a consertar as falhas do seu sistema. Tenho certeza: sua saída evidenciou que a democracia está encolhendo. 

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Deixo um abraço, minha admiração e solidariedade, 

Conte conosco, as outras mulheres, 

Débora Thomé, cientista política e mãe.

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