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Cuidar de si, cuidar do mundo: como sobreviver a tempos de calor infernal

Uma reflexão sobre o nosso papel diante dos principais males que se abatem sobre o planeta e a humanidade

Por Alexandre Valverde*
Atualizado em 9 Maio 2024, 20h03 - Publicado em 17 nov 2023, 07h30

Julho de 2023 foi o mais quente registrado no Brasil desde 1961, quando começaram os registros oficiais pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Bateu o recorde até então vigente, o de 2022.

A bacia hidrográfica Amazônica, maior sistema de água doce do mundo, apresenta uma seca jamais vista. Está aí, ao alcance dos olhos de quem ainda ousa negar que estamos vivendo um colapso climático.

Ao mesmo tempo, o Sul do país sofre enchentes e formação de ciclones extratropicais que causam inundações, com o registro no começo deste mês de novembro de uma vazão recorde do Rio Paraná, em Foz do Iguaçu, de 8.152 metros cúbicos de água por segundo, seis vezes seu número habitual. A água, que deveria estar lá no norte, esparrama-se na outra ponta de nosso país continental.

Não bastassem as notícias sobre o clima revolto, a Ucrânia ainda continua em guerra e o mundo assiste, estupefato, às atrocidades que se produzem na região de Palestina-Israel.

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Nestes tempos, em que nossa agonia diante de cenários apocalípticos já ganha a alcunha de ecoansiedade, o que fazer para mantermos nossa sanidade mental? Como não sucumbir a um discurso fatalista e à paralisia, alimentada pela sensação de impotência? Vamos assistir ao fim do mundo, solitários, pelas telas de nossos celulares, como se se tratasse de um filme distópico produzido por uma inteligência artificial mal-humorada?

O termo ecoansiedade é traiçoeiro pois parece apontar mais para a pessoa do que para o fenômeno que o desencadeia, como se fosse algo de “dentro da cabeça”, um excesso de quem o vive, uma doença a ser curada, um sintoma a ser atenuado. Não! A ecoansiedade tem de ser vista como fenômeno social. As pessoas que a manifestam (há muito mais tempo do que o termo que ganhou notoriedade ultimamente) devem ser vistas como a escala de um termômetro que não soube ser lido.

Hoje, esse paciente maior, o planeta que nos abriga e do qual somos originários, padece de um transtorno de comportamento. Afinal o que é o clima senão o comportamento do planeta?

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Permitam-me continuar com a analogia: o planeta está bipolar. Intercalando fases de secas, incêndios, tempestades de areia com inundações, enxurradas, deslizamentos de terra, ciclones e vendavais. Deixando um rastro de devastação que agrava ainda mais a situação que tem sido produzida por nós mesmos.

Nosso comportamento sobre a Terra influencia seu destino. A voracidade, a ganância, o desrespeito consomem água, madeira, animais, minérios e terras.

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À semelhança do córtex cerebral humano, verdadeiras florestas neuronais, a crosta terrestre é revestida de árvores, plantas, animais e fungos, toda uma miríade de vida que atua equilibrando o clima. A substituição da cobertura florestal do planeta por capinzais e plantações monótonas gera lesões planetárias que, assim como a perda de tecido neuronal, ou o prejuízo nas conexões entres as sinapses de nossas células cerebrais, também mudam nosso comportamento.

Essas devastações sinápticas podem ser produzidas nas pessoas por negligências, abusos e violências: podas, cortes e substituição do tecido vivificante e prolífico, por um cenário monótono, reduzido, mensurado, controlado: colonizado. A devastação do mundo, signo da colonização, da imposição de uma norma que desrespeita nuances e diversidades que não foram observadas e apreciadas pelo dominador, segue a mesma dinâmica que ocorre numa relação abusiva entre duas pessoas.

Estar atento e sensível a esses males, responder com angústia a essas violências deve ser entendido como um problema psiquiátrico, como se isso fosse originado internamente por exagero de nossas percepções? Vamos dissolver antidepressivos e estabilizadores do humor na água que distribuímos às pessoas para que elas se acalmem deste mal? Certamente não.

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Por uma terapia

Cuidar de uma pessoa em sofrimento demanda que consideremos cada uma das razões que a fez incorrer nesse adoecimento. Olhar para o passado e todo o jogo de forças que produziu a situação em que ela se encontra. Mas isso não é suficiente. É preciso recuperar a capacidade que a pessoa tem de se vivificar, se fortalecer, se regenerar, sonhar.

Da mesma maneira, as respostas que temos de encontrar às ansiedades dos nossos tempos estão, sem dúvida, no reconhecimento de cada erro que cometemos, de como fomos (e ainda somos) vorazes, gananciosos, inconsequentes e violentos com o outro e com o mundo. Mas a explicação dessa culpa virá com a responsabilidade de assumirmos, cada um de nós, a parcela de participação na revivificação, no fortalecimento, na regeneração, na capacidade de sonharmos um mundo. Esse sonho não se sonha sozinho.

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Podemos, e devemos, plantar, cada um de nós, 50 árvores por ano, para equilibrarmos nossas pegadas de carbono. Mas isso não basta. É preciso eleger políticos comprometidos com a regeneração ambiental, urbana e rural. Em cidades mais verdes, observamos menos violência e sofrimento mental.

Recusarmos o discurso negacionista é mais um caminho. Mudarmos nossos hábitos alimentares é outro. Rever o consumo, também. Assim como sermos mais solidários e atentos às nossas necessidades afetivas e às dos outros.

O sofrimento se abate sobre cada um de nossos corpos e podemos nos enganar acreditando que estamos sós. Como também podemos nos enganar acreditando que não há nada a ser feito. Toda ação sobre nós mesmos tem repercussão no mundo. Toda ação sobre o mundo tem repercussão em nós mesmos. Cuidar de si é cuidar do mundo. Cuidar do mundo é cuidar de si.

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* Alexandre Valverde é psiquiatra, mestre em filosofia contemporânea, autor do livro Ruptura, Solidão e Desordem (FAP-Unifesp) e apresentador do podcast Fractais, sobre temas da neurodivergência

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