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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Negros e equidade racial nas empresas: hora de acelerar

Os negros apresentaram rendimento menor do que os brancos no mercado de trabalho em todas as quatro faixas avaliadas pelo IBGE

Por José Vicente Atualizado em 3 dez 2021, 18h03 - Publicado em 3 dez 2021, 18h02

Para todos os negacionistas voluntários e involuntários, a verdade da ciência mais uma vez traz uma oportunidade única de reformular as convicções e conhecer de maneira esclarecedora a profundidade e amplitude das desigualdades raciais e a força e contundência dos vieses conscientes e inconscientes, materiais e imateriais, subjetivos ou objetivos que confrontam nosso propósito de igualdade e meritocracia: na pobreza ou na riqueza, a cor da pele separa e desigualiza.

Conforme noticiou a Síntese de Indicadores Sociais de 2020, divulgada pelo IBGE e que avalia, entre outros, resultados nas áreas da economia, educação, habitação e saúde, os negros apresentaram rendimento menor do que os brancos no mercado de trabalho em todas as quatro faixas avaliadas. Ou seja, o negro sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, ou o negro com ensino superior, recebem em média 40% menos que o branco nas mesmas comparações. Da mesma forma, a pesquisa afirma que na média a população ocupada branca tem rendimento médio real do trabalho principal de 3.056 contra 1.764 dos negros. Isto é incrível:73%, a maior.

Como pode se ver, tanto quanto para criar as condições para inclusão e manutenção dos negros na escola tradicional e ensino superior quanto para habilitar os recursos humanos negros para competirem de forma igualitária e democrática no mercado de trabalho existe um longo e complexo caminho para desarmar as mais diversas armadilhas que, ao final, entregam para toda a sociedade desigualdade econômica, social e de oportunidades que distinguem pela cor e pela raça.

Racismo estrutural, viés inconsciente, racismo multidimensional, discriminação social, preconceito cultural, cultura dos iguais. Seja lá o que for, quem afinal poderá nos salvar? O presidente das grandes empresas brasileiras. Isto porque estamos todos embebidos por esse dióxido de carbono racial lançado na nossa atmosfera social e imobilizado pela camisa de força da geringonça política e econômica brasileira que consegue  operar e manter um tipo de democracia, igualdade e justiça que entrega ao final justamente o seu contrário. Pensamos igualdade sem distinção e entregamos desigualdade geral, ampla, irrestrita e preordenada.

Junto com a força da lei e a reprovação ética e social, é indispensável combater a discriminação na sua origem e na sua materializão. Para isso é indispensável que primeiramente se conheça o problema na sua origem e desenvolvimento e, depois, construa-se os remédios e as soluções. Mas nada disso é possível se não houver crença, utopia e visão ampliada de futuro e propósito. O presidente é o cara que reúne esses atributos e só ele pode conduzir um transatlântico na neblina e na escuridão. Não porque as pessoas acreditem que saberá desviar de todos os icebergs, mas simplesmente porque as pessoas acreditam e seguem o líder.

Se a máxima for verdadeira, apesar dos pesares, todo esse estado de coisas irracional e desconstituído de fundamento pode estar com os dias contados. Os presidentes das setenta maiores empresas do país reunidos que congregam a Inciativa Empresarial pela Igualdade Racial acabaram de realizar seu sétimo encontro anual. E, depois de terem construído e implementado coletivamente o primeiro Índice Empresarial de Equidade Racial das Américas, o primeiro programa trainee para negros da história do país, o orçamento de compras para empresas de negros, e construídoo Fundo Unilever para inclusão, treinamento, apoio a educação e empoderamentos de negros, estão mais otimistas, estimulados, seguros e encorajados. Querem mais. Na palavra de Henrique Braun, presidente da Coca Cola América Latina, um dos fundadores do movimento, depois do reconhecimento e diagnóstico do problema, arregimentação dos insumos, construção de estratégias e formulação do mapa da estrada, agora é hora de acelerar. Até aqui rodamos bem e chegamos unidos, criativos, propositivos, rápidos e assertivos. Agora vamos para o teste da aceleração.

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