Incômodo de Lula com Toffoli resvala em interferência no Judiciário
Lula deixou vazar o impulso de chamar Toffoli, seu antigo colaborador, para sugerir que se afaste do caso; se licencie; se aposente; ou, renuncie
Eleitor não é bobo, mostram pesquisas deste início de ano como as da Quaest/Genial e da AtlasIntel/Bloomberg.
Um exemplo: sete em cada dez brasileiros aptos a votar em outubro estão prevendo um grande escândalo em Brasília.
Outro exemplo: para dois terços do eleitorado, a corrupção voltou ao topo dos maiores problemas nacionais, assim como a violência urbana e as deficiências no serviço público de saúde.
Esse tipo de percepção, certamente, está relacionado ao volume crescente de casos policiais na política. Entre os mais recentes se destacam: fraudes do INSS; venda de títulos falsos do Banco Master; e, lavagem de dinheiro da máfia paulista (PCC) em fundos de investimento da corretora Reag.
Um dos aspectos comuns nessas falcatruas é que as maracutaias ficaram encobertas pelas conexões no Congresso, no governo e no Judiciário.
O Banco Master, sabe-se agora, mantinha uma rede privilegiada de contatos com personagens influentes em partidos à direita e à esquerda (Progressistas, União Brasil, Republicanos e Partido dos Trabalhadores, entre outros).
A habilidade no manejo dessa rede levou Daniel Vorcaro e Augusto Lima, sócios no Master, à sala de Lula no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024. A reunião foi obra de um dos consultores do banco, Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda nos governo Lula e Dilma.
Lá estava o chefe da Casa Civil, Rui Costa, ex-governador da Bahia que permitiu a Augusto Lima o controle de um sistema de crédito ao funcionalismo baiano. Estava, também, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Lula ainda chamou Gabriel Galípolo, diretor do Banco Central por ele indicado à presidência.
Àquela altura, a ruína do Master já era assunto vencido no mercado financeiro. O Itaú, maior banco privado, proibira o repasse de títulos do Master cuja remuneração era atrativa para corretores.
Um ano depois, Lula antevê crise na praça dos Três Poderes e ensaia defesa preventiva. “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado, enquanto um cidadão, como esse do Banco Master, que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões” — disse num comício em Maceió no fim de semana. “Então, companheiros, e tem gente que defende (o banqueiro) porque também está cheio de gente… que falta um pouco de vergonha na cara nesse país.”
Preocupados com o impacto da crise no governo, em plena temporada eleitoral, assessores de Lula relataram à repórter Catia Seabra seus comentários raivosos sobre o juiz José Antônio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Toffoli já era relator do caso Master quando, no mês passado, Lula o chamou para ouvir e ser ouvido sobre a fraude bancária.
Aparentemente, o presidente e o juiz se entenderam no almoço, mas se desentenderam depois da sobremesa. Nesta segunda-feira (26/1), Lula deixou vazar o impulso de chamar Toffoli, seu antigo colaborador, para sugerir que se afaste do caso; se licencie do tribunal; se aposente; ou, renuncie à toga do STF.
É uma situação esquisita, sob qualquer ângulo. Porque o incômodo de Lula com Toffoli, nessa hipótese, poderia resvalar para interferência indevida — ou seja, inconstitucional — de um presidente da República num outro poder republicano, o Judiciário.
A resposta do STF foi dada a Lula, de forma indireta, pelo juiz Gilmar Mendes. Ele divulgou um lembrete com duas dúzias de palavras, via rede social: “A preservação da independência judicial e o respeito às instâncias institucionais são condições indispensáveis para o diálogo republicano e para a confiança da sociedade nas instituições.”





