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Por Diogo Sponchiato
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“As Herdeiras”: um panteão das angústias de uma geração de mulheres

Novo livro da espanhola Aixa de la Cruz esmiúça sofrimentos gestados por trabalhos penosos, criação dos filhos, uso de drogas e relações familiares

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 13 Maio 2024, 21h11 - Publicado em 13 set 2023, 08h27

A literatura de Aixa de la Cruz, escritora espanhola natural do País Basco, é daquelas que expõem feridas, mas também ajudam a cicatrizá-las. Se nem sempre podemos consertar o mundo e os outros, pelo menos a narrativa e a linguagem nos servem de ferramentas para ressignificar histórias, memórias e dilemas e percorrer melhor essa tal de realidade.

Depois do premiado Mudar de Ideia, em que traz um relato autoficcional do seu turbulento período de estudos acadêmicos, o romance As Herdeiras (DBA Editora) tira um retrato dos sofrimentos mentais de uma geração de mulheres de classe média que, nas redondezas dos 30 aos 40 anos, pena com trabalhos ingratos, filhos, drogas (lícitas ou não) e conflitos familiares.

Uma avó se suicida. Quatro netas, já adultas, decidem rever e arrumar sua casa (e tantas lembranças embutidas nela) em uma pequena aldeia espanhola. Eis o cenário de um livro em que o enredo perambula a todo momento entre a cabeça das personagens e o ambiente que as envolve – e no qual a imaginação, toldada ou não por traumas e narcóticos, insiste em penetrar as frestas do real.

É no poço que separa um mundo de idealizações (emprego dos sonhos, família feliz, reconhecimento…) da vida tal qual ela é que se alojam os desafios emocionais dessas quatro herdeiras. Herdeiras também de confrontos íntimos que brotam em uma sociedade que preza a produtividade e o consumo a qualquer preço e, em troca, tenta oferecer algum tipo de anestesia mental como recompensa.

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No encalço das protagonistas, que se revezam como a voz de cada capítulo, também somos chamados a encarar os fantasmas do passado e do presente.

Com a palavra, a autora.

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As Herdeiras expõe um panteão dos males mentais vividos por uma geração de mulheres hoje. Qual o sofrimento psíquico abordado no livro que mais angustia ou preocupa você?

Eu diria que tudo o que, em certa medida, está vinculado com a ideia de trabalho. Isso fica mais claro no caso de Nora, uma das protagonistas, que caiu em padrões de dependência por drogas porque, sem a ajuda delas, não era capaz de produzir na velocidade exigida pelo mercado para ter um salário que nem sequer era digno.

Mas essa é também a problemática de Lis [outra personagem], que se encontra em tratamento psiquiátrico desde que sofreu uma crise após o nascimento de seu primeiro filho. Essa crise também tem a ver com trabalho, com o trabalho reprodutivo, que, em muitos casos, segue recaindo de forma exclusiva sobre as mulheres.

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Trabalhos mal remunerados, que são cada vez mais “trabalhos escravos”, com salários que não permitem levar uma vida emancipada e com planos de futuro. Eu diria que essas variáveis, junto com outras, como a solidão que sucede a quebra dos vínculos comunitários, estão por trás de grande parte do sofrimento psíquico que nos afeta hoje – e por isso quis capturá-las no romance.

E há outro elemento fundamental, que é a família, que aparece como um fator que pode nos adoecer, mas, ao mesmo tempo, é o primeiro vínculo coletivo ao qual temos acesso e, portanto, ao abrir e ressignificar o que nos é familiar, também podemos encontrar remédios para os males sistêmicos que nos fazem adoecer.

A obra é também um retrato da nossa dependência, consciente ou não, por drogas, legais ou ilegais, e seus poderes de alterar estados mentais. Acredita que esse esse é um fenômeno inseparável dos nossos tempos? Já não se pode viver sem elas?

Bem, as drogas estão presentes em todos os momentos da nossa história. O problema é o modo e as finalidades com que são usadas hoje em dia. Nós desligamos a droga do rito e deixamos que o capitalismo se encarregasse de nos dizer o quê, como e para que consumir certos narcóticos. Não considero que a droga, ou que qualquer droga, tenha de ser algo nocivo. Se elas funcionam como uma tecnologia de acesso ao sagrado, permitindo experiências que aliviam o medo da morte e aumentam nossa consciência, são bem-vindas.

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(Foto: Isabel Wagemann//)

O problema é que cada vez mais são utilizadas para fins produtivos, como na própria psiquiatria, por exemplo, em que não se cura nenhuma condição de base, mas apenas se busca aliviar sintomas. Sintomas que sempre são informações, um guia que nos permite chegar à origem da ferida. Então esse uso das drogas não nos ajuda a sarar, apenas serve para que possamos levantar da cama e ir trabalhar.

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A literatura pode exercer um efeito terapêutico diante dessa “epidemia” de sofrimento mental?

Boa pergunta. Não sou capaz de falar por outras ou por outros, mas, para mim, a literatura foi um refúgio e um bálsamo durante as crises mais duras da vida. Muitas vezes porque ela mostra a complexidade de vidas que não são a sua e, assim, permite que você relativize as coisas, e outras vezes porque mostra vidas que são iguais à sua e fazem você sentir que não está sozinha.

Acredito que a boa literatura é como a boa filosofia. Nos ajuda a entender com maior complexidade o que nos cerca, a ser mais críticos e a não nos sentir tão indefesos e vulneráveis diante dos estragos causados pelo “real”.

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