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Coluna da Lucília Por Lucília Diniz Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Vantagens do autoengano

Imitar um comportamento confiante nos leva a adquirir confiança

Por Lucilia Diniz Atualizado em 30 abr 2022, 13h27 - Publicado em 29 abr 2022, 06h00

Mais do que uma atitude, a autoconfiança é um estado de espírito. Quem a tem é capaz de se arriscar, se reinventar. Estudos científicos demonstram que a autoconfiança pode ser induzida por crenças que temos sobre nós mesmos. Elas existem em nosso inconsciente e não dependem de fatores externos, como a opinião alheia. Essas crenças ativam mecanismos de efeito placebo, uma reação psicológica positiva ao que é apenas uma expectativa favorável. Muito conhecido na medicina, o efeito placebo também pode ser aproveitado para melhorar nossa vida cotidiana.

O placebo funciona até quando sabemos que se trata de um placebo. É o fenômeno do autoengano controlado, que nos leva a acreditar em nossas próprias capacidades. A autoconfiança nos impulsiona para a frente. Como dizem os americanos, “fake till you make it” (“finja até você conseguir”). Imitando um comportamento confiante, acabamos por adquirir confiança de verdade.

“O poder reside onde a pessoa acredita que ele reside”, diz Lord Varys, da série Game of Thrones”

Fernando Pessoa não nos deixa mentir: o poeta “finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Mas ninguém precisa saber lidar com as palavras como o modernista português para fingir o que sente. Às vezes, acontece de um chorinho dissimulado se transformar num choro de verdade, nem que seja só porque aquele que reclama por atenção sabe, mesmo que intuitivamente, que a autenticidade é mais convincente. A diferença entre os resultados obtidos com os dois tipos de choro pode ser constatada por qualquer um, mesmo leigos em psicologia. É esse processo — de recobrir um fingimento com uma camada de sinceridade — que chamamos de autoengano, um truque da mente, uma mentirinha que nos dá autoconfiança.

No fundo, somos uma versão mais sofisticada, e talvez menos lírica, do poeta. É mais importante convencermos a nós mesmos do que aos outros. Crença, portanto, é a palavra-chave. Eu, por exemplo, sempre acreditei que poderia emagrecer sem deixar de comer de tudo — e consegui. É como diz Lord Varys, o genial manipulador de Game of Thrones: “O poder reside onde a pessoa acredita que ele reside”.

É o que acontece com os penetras em festas. Aqueles que se comportam de modo convincente muitas vezes se dão bem. Esbanjam simpatia, conversam com todo mundo, cheios de si. A ausência de hesitação também é a marca de algumas pessoas de sucesso, que exibem autoconfiança, às vezes até de maneira exagerada. Mas tudo tem limites, como mostra a série Inventando Anna, que conta a história real de Anna Sorokin, uma jovem russa que aplicou vários golpes no jet set de Nova York em 2017, mais ou menos como Beto Rockfeller fazia naquela novela divertida dos anos 60. Com sua autoconfiança inata, Anna se fazia passar por uma rica herdeira. Durante meses levou uma vida de luxo: jantava nos melhores restaurantes, hospedava-se em hotéis estrelados, participava de festas exclusivas — tudo isso sem ter um tostão. Pedia dinheiro emprestado e ficava devendo. Acabou desmascarada e presa.

O autoengano pode ter suas vantagens, sim, mas — não se engane — não pode ser encarado como um passaporte com o condão de alterar nossa verdadeira identidade.

Publicado em VEJA de 4 de maio de 2022, edição nº 2787

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