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Coluna da Lucilia

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Objeto do desejo

Antes discreto, morango hoje é sedutor

Por Lucilia Diniz 4 jun 2026, 17h10
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No Ocidente, a maçã é o símbolo da tentação. Mas arrisco dizer que, hoje, a fruta que mais se aproxima de ser um objeto universal de desejo é o morango. Basta vê-lo brilhando como um coração vermelho para entender seu poder. Difícil imaginar que esse símbolo contemporâneo do prazer tenha sido na origem apenas um pequeno fruto silvestre, colhido no mato.

Foi assim, meio tímido, que por séculos a fio ele existiu para o mundo. Espécies nativas cresciam espontaneamente em bosques da Europa, da Ásia e da América do Norte, conhecidas desde a Antiguidade. Na Idade Média, o imaginário cristão viu naquela planta rente ao chão um emblema de humildade e pureza. As flores alvas reforçavam a associação, e o morango aparecia em pinturas religiosas como símbolo de virtude.

O século 18 traria a grande virada, unindo, graças à expansão marítima e às missões científicas, espécies até então separadas. Em 1714, a América do Sul, Brasil incluído, foi o destino de uma expedição do engenheiro francês Amédée-François Frézier. Ao retornar, levou do Chile exemplares de uma variedade maior cultivada pelos mapuches. Há quem diga que nome é destino e, nesse caso, parece ter sido. “Frézier” é uma variante de “fraisier”, “morangueiro”.

Nos jardins franceses, a espécie chilena se mesclou a variedades norte-americanas que já haviam atravessado o Atlântico. O resultado desse cruzamento foi o morango mais carnudo, rubro e perfumado que conhecemos hoje.

Com a transformação botânica, veio também uma mudança em sua percepção cultural. O morango passou a sugerir algo mais sensorial. O romantismo do século 19 o aproximou da ideia de delicadeza amorosa; a publicidade do século 20 completou o trajeto, fazendo dele o par ideal para chocolate e champanhe e um complemento dos jantares a dois.

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Se a fruta é lida como sofisticada, isso também tem a ver com sua fragilidade. O morango é suscetível a pragas, e a busca por seu melhoramento é constante. A nossa Embrapa, por exemplo, recentemente criou uma nova variedade, mais resistente, maior e mais doce, a Fênix. O nome é bem adequado para uma fruta que tanto se reinventou.

Em paralelo à consolidação da fruta como um objeto de desejo, surgiu também o “sabor morango”. O gosto original doce, mas ligeiramente azedo, era percebido como “seguro” ao paladar, além de ser relativamente fácil de reproduzir em laboratório. Com isso, dominou iogurtes, balas e gelatinas, entrando como uma nuvem cor-de-rosa para o repertório da infância.

Seja para o paladar infantil ou para o deleite adulto, receitas não faltam. O clássico morango com creme existe há séculos, mas na Inglaterra tornou-se uma tradição do torneio de tênis de Wimbledon. Em toda parte, fazem-se bolos, tortas e geleias da fruta, bem como se encontram preparações menos comuns. No Japão, o morango entra com chantili entre fatias de pão de leite, num sanduíche improvável. Nos Estados Unidos, uma sobremesa excêntrica mistura pretzel, cream cheese e gelatina. Recentemente, a confeitaria nacional contribuiu para esse cardápio com o morango do amor, uma febre entre os que gostam de doces bem doces.

Para mim, o morango dispensa grandes invencionices. Por não ser muito calórico, se combinado com ingredientes “light”, multiplica as possibilidades de terminar a refeição com classe e sabor. Afinal, o morango é sedutor, mas não precisa ser pecaminoso.

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