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“Taxistas pagam absurdos locando alvarás. São explorados há décadas, mas se acovardam em vez de protestar”

Em artigo para o blog, ex-taxista explica por que lagou o táxi para trabalhar para o Uber

Por Mariana Barros Atualizado em 30 jul 2020, 23h29 - Publicado em 22 fev 2016, 06h17
Protestos de taxistas contra o Uber realizado em São Paulo, em outubro (Marivaldo Oliveira/Futura Press/Folhapress/ VEJA)

Protestos de taxistas contra o Uber realizado em São Paulo, em outubro (Marivaldo Oliveira/Futura Press/Folhapress/ VEJA)

Um ex-taxista entrou em contato com o blog para contar sua história. Depois de perceber que não conseguiria se sustentar com o táxi, pois tinha de pagar o aluguel do alvará do veículo que dirigia, mudou para o Uber. Diz estar mais satisfeito com os ganhos e o esquema de trabalho, embora tema a violência dos ex-colegas. E questiona por que os taxistas não se voltam conta um sistema que classifica de ruim e corrupto em vez de escolherem o Uber como alvo de suas críticas. Leia abaixo na íntegra:


Chega de opressão

Por Daniel Bezerra*

No início de 2014, decidi deixar meu emprego de desenvolvedor de sistemas e me tornar taxista. Achei que com a proximidade da Copa do Mundo teria uma atividade promissora e bem remunerada conduzindo meu táxi por São Paulo. Eu não tinha alvará, então busquei um que pudesse alugar. Existem duas formas alugar um táxi, pelo menos em São Paulo: de uma pessoa física, que é o mais comum, ou de uma empresa que tem frota de táxi. Há 34 delas operando na capital paulista. Escolhi uma e fechei a locação no valor de 180 reais por dia, que é o que se cobra em média. A despesa com alimentação e combustível eram minhas. Minha esperança era pagar todos esses custos e ainda tirar de 150 a 200 reais por dia para levar para casa. Em pouco tempo, percebi que para realizar essa façanha teria de trabalhar de 18 a 20 horas por dia. A realidade é que eu trabalhava só para pagar o aluguel do alvará. Tinha virado um escravo, sem conseguir levar dinheiro para casa.
Comecei a notar que, enquanto eu quebrava a cabeça para pagar minhas contas, boa parte dos meus colegas só trabalhava de segunda a sexta das 6h às 14h. Fiquei curioso para entender a razão. Alguns me explicavam que esse era o período necessário para baterem a meta diária. Outros, que precisavam deixar o filho trabalhar, pois compartilhavam o mesmo carro. E outros ainda diziam que preferiam receber 180 reais por dia para que terceiros que rodassem em seu lugar. Agora eu pergunto: isso não é economia compartilhada?
 
Taxistas de São Paulo pagam verdadeiros absurdos locando alvarás. São explorados há décadas, mas se acovardam em vez de protestar. No fundo, acho que gostam desse modelo paternalista. Para um taxista poder angariar passageiros em pontos concorridos, como grandes hotéis e centros de exposição, algumas empresas supostamente chamadas de Rádio Táxi cobram de 450 a 500 por mês mais 15% quando as corridas são feitas por boleto.
Há grupos de taxistas que se apoderam de determinado ponto ou clientela e, se outro taxista que não faz parte do grupo tenta buscar um passageiro ali, é ameaçado. Já aconteceu comigo. Quando um cliente antigo tentou entrar no meu carro ao sair de um bar badalado nos Jardins, em São Paulo, foi impedido por um grupo de taxistas. Eles disseram que quebrariam meu carro inteiro caso eu voltasse e me ameaçaram de morte. E os taxistas, de modo geral, são coniventes com isso. Nunca vi nenhuma objeção ou manifestação em pagar essas propinas para que lhe permitissem acessar os lugares mais concorridos.
 
E essa história de que taxistas pagam um monte de taxas também não é bem assim. A única taxa obrigatória é para renovar o Condutax. Custa 270 reais e só é pago a cada cinco anos. Fora isso, taxistas têm descontos de IPI e ICMS na compra de veículos para serem usados como táxis, o que dá um abatimento de cerca de 30% do valor total do carro.
 
Esses motoristas reclamam do Uber, mas se esquecem de olhar para o futuro. A legislação não acompanha o ritmo da tecnologia, mas é questão de tempo até começar a regrar as mudanças trazidas por ela. Hoje, tenho grande prazer em dizer que sou motorista do Uber. Não pago propina para ninguém. Graças a Deus não faço mais parte desse esquema corrupto. Não sou táxi preto, sou Uber. Não pago diária nem aluguel de alvará. Pago apenas um percentual sobre as viagens realizadas e não preciso mais rodar de 18 a 20 horas por dia para levar dinheiro para casa.
 
Por outro lado, vivo com medo de ser espancado na rua. Nós, motoristas do Uber, somos pais de família levando sustento para nossos filhos, pais, maridos e esposas. Somos o que a sociedade pede: um serviço de qualidade com profissionais que não destratam as pessoas nem tentam sempre serem os mais espertos.
*nome fictício usado a pedido do autor, ex-taxista e hoje motorista do Uber em São Paulo, para preservar integridade física
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