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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Martina Navratilova e uma raquetada no politicamente insano

É hora de zelarmos pelo legado deixado por mulheres incríveis no passado que batalharam muito pelo nosso presente e pelo esporte honesto

Por Ana Paula Henkel Atualizado em 30 jul 2020, 19h56 - Publicado em 28 fev 2019, 07h16

Ana Paula Henkel (publicado no Estadão)

A maior jogadora de tênis de todos os tempos, Martina Navratilova, deu uma raquetada no politicamente insano e deixou os ativistas desnorteados ao se juntar a outros atletas de ponta, analistas e médicos que desafiam as patrulhas ideológicas ao se colocar publicamente contra a entrada de homens biológicos em esportes femininos. Ponto para ela e para o bom senso.

Homossexual assumida desde quando não era moda, 62 anos, recordista de vitórias com 167 títulos, tem no currículo 18 Grand Slams como jogadora individual, 31 Grand Slams de duplas e 10 Grand Slams de duplas mistas. Até outro dia, era considerada um dos grandes “ícones gays” de todos os tempos. Agora é chamada de “transfóbica” por defender o óbvio. Tempos sombrios que ainda serão lembrados com espanto pelas futuras gerações, quando a influência nefasta dos baby boomers e millennials na cultura pop não passar mais de uma lembrança constrangedora.

Como meus queridos leitores sabem, em janeiro de 2018 escrevi uma carta aberta ao Comitê Olímpico Internacional (COI), estendida aos dirigentes do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) e da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), em defesa das modalidades femininas dos esportes profissionais e amadores. Mostrei didaticamente, da maneira mais respeitosa e solidária com todos os envolvidos, os principais problemas envolvidos na aceitação de homens biológicos nestas modalidades e as possíveis consequências nefastas para as mulheres que já começam a aparecer. Não é mais surpresa quase toda semana nos depararmos com notícias sobre algum evento esportivo feminino pelo mundo onde agora vemos no pódio homens biológicos, às vezes recebendo ouro e prata como aconteceu no encontro escolar de atletismo para meninas de 15 a 18 anos em Connecticut. Bronze is the new gold para as mulheres.

Depois da carta aberta ao COI, estava preparada para os ataques pessoais da turba desprovida de argumentos melhores que os meus, que são puramente embasados na ciência e na biologia humana, e apesar de alguns comentários com apenas xingamentos vazios e de nunca ter tido dúvidas de que esta atitude poderia contribuir para uma discussão mais madura e menos histérica ou politicamente engajada sobre o tema, fiquei muito surpresa com a enorme receptividade positiva da comunidade esportiva internacional. Quando vi até intelectuais do porte de Jordan Peterson participando ativamente do debate nas redes sociais e citando minha carta, confesso que a sensação de dever cumprido era inevitável, mas a verdade é que a vitória do bom senso contra a histeria nesta quadra ainda está em jogo.

Sei que é uma batalha longa, que envolve emoções afloradas e muitas vezes interesses inconfessáveis por parte daqueles que olham para o esporte apenas como mais uma ferramenta político-ideológica, mas não vejo como ser omissa num momento tão grave para o esporte feminino. É hora de zelarmos pelo legado deixado por mulheres incríveis no passado que batalharam muito pelo nosso presente e pelo esporte honesto. É hora de protegermos uma nova geração de jovens atletas incrivelmente talentosas, engajadas, extremamente comprometidas com o esporte limpo ─ e com as duras e corretas políticas anti-doping ─ e motivadas para mostrar até onde podemos chegar nas quadras e fora delas. Não podemos mais ignorar o assédio que estão sofrendo e o espaço que estão sendo obrigadas a ceder ─ caladas ─ para homens biológicos que estão quebrando seus recordes, vencendo seus torneios, suas premiações financeiras e, aos poucos, tirando seu ânimo e seu espaço duramente conquistado.

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Em uma recente entrevista e também em sua conta no Twitter, Martina Navratilova disse o óbvio: “é insano e desleal. Fico feliz em falar com mulheres trans da forma que elas preferirem, mas eu não gostaria de competir contra elas. Não seria justo”. Acredito que qualquer atleta de bom senso e honestidade intelectual poderia externar a mesma opinião, mas um mito do tênis, a maior jogadora de todos os tempos, homossexual, ativista LGBT e com uma técnica trans, sua declaração tem ainda mais força.

As reações foram as baixarias de sempre, desde o xingamento previsível até seu banimento do conselho do grupo LGBT “Athlet Ally” que divulgou uma nota dizendo “os comentários recentes de Martina Navratilova sobre atletas trans são profundamente transfóbicos, baseados em um falso entendimento da ciência e que perpetua perigosos mitos que atingem continuamente as pessoas trans”. Se a ONG acredita que possui melhores argumentos que a campeã máxima do tênis, por que não convidar para o debate? Por que preferir a rotulação, a acusação e a tentativa de assassinato de reputações de uma de suas heroínas? Será que é por que o que está em jogo não é o interesse da comunidade trans, mas uma agenda política muito mais complexa que ataca os fundamentos da sociedade ocidental? Fica a pergunta.

Enquanto a tenista passava por um verdadeiro corredor polonês na imprensa e nas redes sociais, um ator de pouca expressividade e ainda menos caráter, o americano Jussie Smollett, da série “Empire”, desfilava pela mídia americana todo seu vitimismo de plateia por um suposto ataque racista e homofóbico que teria sofrido numa madrugada gelada de Chicago. O ator não contava, porém, com o rápido e eficiente trabalho da polícia da cidade. Smollett, de acordo com os investigadores, contratou dois irmãos nigerianos para simular um ataque a ele, que é negro e gay, com o objetivo de culpar eleitores de Donald Trump e reforçar a narrativa da esquerda americana sobre “racismo sistêmico” e imposturas do tipo. O roteiro do plano, inacreditavelmente tosco em seus detalhes e digno da Framboesa de Ouro, “premiação” do pior da indústria cinematográfica, deu tão errado que a farsa foi descoberta e o ator preso.

Agora a defesa de Jussie Smollett alega problemas advindos do uso de drogas para justificar suas atitudes, como se sexo, drogas & rock’n’roll fosse algo raro em seu meio. Nem por isso outras celebridades estão encenando ataques contra si, deixando sua militância ideológica radical e antiamericana para discursos contra o capitalismo nas premiações e festas em suas mansões regadas a caviar e champagne, marchas de mulheres fantasiadas de vaginas e palhaçadas constrangedoras do tipo. Mesmo para os padrões de Hollywood, Smollett foi longe demais. Para o caso do ator, que já foi desligado da série “Empire”, foram designados 24 agentes do departamento de polícia de Chicago e investigações de 56 crimes nas semanas seguintes ao ataque falso do quase herói anti-Trump foram adiadas. A bufonaria do mártir de auditório custou caro aos cofres e à sociedade de Chicago.

Os dois casos chamam atenção pela recepção que ambos receberam de grande parte da imprensa tradicional, com honrosas exceções. Enquanto Martina Navratilova era atacada impiedosamente pelo crime de falar o óbvio e com a ciência a seu lado, a história de Jussie Smollett foi aceita como verdadeira imediatamente, sem qualquer filtro, ceticismo ou apuração séria, e agora os mesmos veículos fazem contorcionismos inacreditáveis para relativizar a atitude criminosa e abjeta do ator. A verdade é que há muito pouco jornalismo nestes temas, mas há muita militância, mistificações e proselitismo político, com assassinato de reputações, perseguições implacáveis a quem tenta usar o bom senso e que envolvem não apenas o pivô da polêmica, mas seus meios de vida como seus patrocinadores, seus empregos e seus perfis nas redes sociais.

Jussie Smollett, justamente preso, foi tratado como vítima. Martina Navratilova, intelectualmente honesta e corajosa, foi tachada (ou taxada, já que se paga um preço altíssimo pela exposição do bom senso e da verdade) de preconceituosa e inimiga da comunidade LGBT; uma mentira tão absurda que só um militante para acreditar e repetir.

Abraham Lincoln disse há 150 anos que a única maneira de se destruir a América era por dentro. Rezo para que essa inversão de valores pare, não merecemos ser a geração que realizou a previsão de Lincoln, o abolicionista que tanto faz falta em tempos de grilhões ideológicos que prendem consciências e acorrentam a verdade. Em nome do esporte limpo, da ciência, do bom senso, da verdade e, principalmente, em nome das mulheres, obrigada Martina Navratilova por suas declarações. São heroínas como você que ainda nos dão alguma esperança contra o ex-politicamente correto, agora politicamente insano.

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