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Sapo amazônico pratica necrofilia para preservar a espécie

A estratégia é usada para evitar a perda dos óvulos após a morte da fêmea

Um sapo da Amazônia acasala com fêmeas mortas acidentalmente por asfixia durante o ato. A estratégia, usada para evitar a perda dos óvulos e preservar a espécie, foi documentada por biólogos brasileiros. A espécie identificada como necrófila é a Rhinella proboscidea, que mede até 5,5 centímetros, já descrita pelos cientistas, endêmica da Amazônia central e difícil de ser observada porque não sobrevive em regiões desmatadas.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Functional necrophilia: a profitable anuran reproductive strategy?

Onde foi divulgada: periódico Journal of Natural History

Quem fez: William Magnusson, Albertina Lima, Thiago Izzo, Domingos Rodrigues e Marcelo Menin

Instituição: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Dados de amostragem: observação de sapos da espécie Rhinella proboscidea

Resultado: Os machos da espécie de sapo amazônico Rhinella proboscidea conseguem “ejetar” os óvulos das fêmeas que morrem sufocadas para depois fertilizá-los

“Após provocar a morte da fêmea por afogamento devido a seu peso, o macho mantém o abraço sobre sua companheira durante horas, à espera de que ela libere os óvulos na água para fecundá-los”, explicam os pesquisadores.

De acordo com os biólogos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a morte de fêmeas durante o acasalamento é comum nas espécies de sapos que costumam se concentrar maciçamente em brejos ou lagoas para se reproduzir.

“No geral, o que ocorre com as espécies com um comportamento similar é que, quando a fêmea morre, o macho deixa de abraçá-la e a fecundação se perde”, explica a bióloga Albertina Lima, pesquisadora do Inpa e uma das autoras do artigo em que foi descrita a necrofilia. “Descobrimos que, nesta espécie, o macho continua apertando a fêmea já morta até conseguir a fecundação. Não se conhece nenhuma outra espécie de sapo que retire os óvulos da fêmea morta e os fecunde”, acrescentou.

Morte acidental – A espécie pratica a “reprodução explosiva”, não muito comum entre os sapos e que acontece quando um número muito elevado de indivíduos se concentra durante dois ou três dias nos lugares de reprodução, em geral na beira de riachos ou cabeceiras dos rios. As fêmeas vão para o local para deixar seus óvulos à espera de que sejam fecundados e se retiram, mas os machos permanecem todo o tempo ali, disputando as possíveis companheiras.

“Quando a fêmea entra na água, muitos machos tentam subir sobre ela e, sem deixá-la voltar à superfície, terminam afogando-a”, explica William Magnusson, também pesquisador do Inpa e um dos autores da descoberta.

“É uma morte acidental. São muitos machos disputando cada fêmea que chega. Vimos pequenos brejos em que se concentravam entre 50 e cem sapos e chegamos a contar mais de dez fêmeas mortas. Não sabemos se é um número elevado ou não. Ainda temos que estudá-lo”, explica Albertina. Segundo a bióloga, os casos de necrofilia aparentemente não ameaçam a população da espécie.

Albertina acrescentou que o comportamento pode ser explicado pela teoria da seleção natural, já que o propósito é o sucesso reprodutivo. O comportamento inédito foi verificado em observações realizadas na reserva florestal Adolpho Ducke, administrada pelo Inpa e localizada a 26 quilômetros de Manaus.

Os pesquisadores descobriram duas pequenas lagoas aonde grupos de Rhinella proboscidea iam para se reproduzir e recolheram 15 fêmeas mortas em junho de 2001 e outras cinco em junho de 2005. Em nenhuma foram achados óvulos, o que demonstrou que o macho esperou até que os expulsasse.

Os biólogos também colheram e observaram os ovos deixados pelas fêmeas mortas até que entraram em estado embrionário, com o que puderam verificar que todos tinham sido fecundados.

(Com Agência EFE)