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Quem foi Arinda da Cruz Sobral, primeira ‘architecta’ do Brasil

Pesquisadora resgata história da primeira formanda do curso de arquitetura da Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro

Por Alessandro Giannini Atualizado em 30 jun 2022, 13h48 - Publicado em 30 jun 2022, 07h00

No Rio de Janeiro, a Capela São Silvestre está localizada na Estrada Heitor da Silva Costa, no caminho para o Corcovado. Com um único altar, é toda revestida de cerâmica vermelha e pintura branca. A pedra fundamental foi lançada em 31 de dezembro de 1911, num evento com a presença do então presidente, Hermes da Fonseca. As obras começariam no ano seguinte, no aniversário da cidade, e terminariam em 1918 – ainda não havia nem sinal do Cristo Redentor no horizonte. Segundo os jornais da época, uma cápsula do tempo, com bilhetes, notícias do dia e a ata da cerimônia, foi depositada nas fundações. Tombada como patrimônio histórico em 1967, sobreviveu a um incêndio, em 1918, e a um deslizamento de terra, em abril de 2010. Todas essas informações estão disponíveis na internet, à distância de um clique. Menos o nome de quem projetou o edifício, Arinda da Cruz Sobral (1883- 1981).

Mas isso já está mudando. A historiadora carioca Camila Almeida Belarmino vai publicar um artigo na Risco, revista científica do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, no qual resgata a história de Arinda e de mais 27 arquitetas. Elas foram as primeiras mulheres matriculadas no curso de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, entre 1907 e 1938. “O artigo faz parte da minha pesquisa de doutorado, que teve como motivação uma dúvida de meus alunos e alunas quando dava aula no curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estácio de Sá, no Rio”, disse ela, em entrevista a VEJA. “Onde estão as mulheres na arquitetura?” As respostas vieram por meio de pesquisa em fontes primárias, ou seja, documentos escritos – basicamente arquivos públicos e imprensa – e imagens do período.

Capela São Silvestre
No Rio de Janeiro, a Capela São Silvestre está localizada na Estrada Heitor da Silva Costa, no caminho para o Corcovado — Camila Almeida Belarmino/Reprodução

No levantamento, Camila descobriu que Arinda pode ter sido realmente a primeira mulher formada em um curso de arquitetura no Brasil. Em 1906, ela concluiu o curso normal e começou a dar aulas na rede pública do então Distrito Federal. Um ano depois, iniciaria sua formação como arquiteta na Escola de Belas Artes. Dois documentos sustentam a tese. Em 16 de dezembro de 1911, o jornal carioca O Paiz, de grande circulação na cidade, publicou uma nota sobre ela com o título “Futura architecta”. No acervo do Arquivo Histórico do Museu D. João VI, o Livro de Premiações e Diplomas expedidos entre 1903 e 1970 traz o nome dela como primeiro registro de mulher formada no curso de arquitetura em 1914. De lá para cá, apesar de seu pioneirismo, ela passou por um longo processo de esquecimento.

Recorte de jornal de 1911
Recorte do jornal ‘O Paiz’ de 16 de dezembro de 1911, com notícia sobre Arinda da Cruz Sobral, ‘futura architecta’ — Fundação Biblioteca Nacional/Reprodução

Com sua pesquisa de doutorado em Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo na USP, Camila quer ajudar a reparar uma injustiça que é também consequência de um modo patriarcal de produzir memória. Como resultado, o nome de Arinda praticamente desaparece e não é mais mencionado em lugar algum, nem na Capela São Silvestre, que seria a primeira projetada por uma arquiteta no país. “No acervo da Biblioteca Nacional, só tem uma foto dela”, diz a professora. “Por essas e outras coisas, eu posso afirmar que o esquecimento dessa personagem e de outras se dá por uma questão de gênero. Hoje, segundo dados do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, 64% de profissionais são mulheres. Mas quando a gente fala de salários e cargos, existe uma desigualdade e não tem um debate sobre isso.”

O resgate de Arinda da Cruz Sobral já começou. Arquiteta e professora da Escola da Cidade, Marianna Boghosian Al Assal não teve envolvimento na pesquisa de Camila sobre a pioneira, mas tomou conhecimento do trabalho por meio de sua orientadora no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, Eulalia Negrelos. Para Marianna, reabilitar a personagem é importante menos pela sua figura individual e mais pela lógica da representatividade em uma área tomada pelos chamados “gênios solitários”. “A gente vai descobrindo uma diversidade maior de profissionais que são responsáveis pelas obras das cidades”, disse ela, em entrevista a VEJA. “É como o resgate do Tebas (Joaquim Pinto de Oliveira), arquiteto negro que contribuiu para o desenvolvimento de São Paulo. A gente vai descobrindo o que há muito mais por trás de coisas que nos parecem corriqueiras e tiveram a participação de outras pessoas.”

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