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Primeiros colonos ingleses nos EUA praticaram canibalismo para sobreviver

Ossos de uma menina de 14 anos encontrados em Jamestown, na Virgínia, fornecem a primeira evidência física de canibalismo na América Colonial. A prática já havia sido descrita em relatos da época

Os colonos começaram a comer cavalos e outros animais, antes de recorrer a cães, gatos, ratos e cadáveres das sepulturas.

Os primeiros colonos ingleses que se estabeleceram nos Estados Unidos recorreram ao canibalismo para sobreviver à fome durante o inverno, por volta de 1609. Relatos escritos de testemunhas da época já haviam revelado tal prática, mas a análise de ossos de uma menina de 14 anos encontrados em Jamestown, na Virgínia, fornece a primeira evidência física de que isso ocorreu na América Colonial.

Don Hurlbert/Smithsonian

Jane

Jane (/)

Reconstituição facial da garota de 14 anos cujos ossos forneceram as primeiras evidências físicas de canibalismo na região

O crânio, a mandíbula e a tíbia da adolescente, apelidada de Jane pelos pesquisadores, foram encontrados em uma pilha de resíduos, junto de ossos de cavalo e de cachorro. Os ossos foram encontrados em agosto do ano passado, por uma equipe de arqueólogos liderada por William Kelso, da Preservation Virginia, organização sem fins lucrativos, e as análises foram conduzidas por Douglas Owsley, antropólogo do Museu Nacional de História Natural de Washington.

O crânio apresenta marcas de tentativas de perfuração da testa, que não foram bem sucedidas. Depois disso o corpo foi virado e quatro golpes desferidos contra a parte de trás da cabeça, um dos quais teria fraturado o crânio. Na tíbia há marcas deixadas provavelmente por uma pessoa mais experiente. A mandíbula apresenta marcas de corte, que sugerem a retirada do músculo da face. “A intenção clara era desmembrar o corpo, tirar o cérebro e tirar a carne do rosto para o consumo”, afirma Owsley.

A idade da garota foi estimada por meio da análise de seus molares. O estudo dos ossos revelou que ela consumia uma dieta tica em proteína, de modo que ela provavelmente não era uma servente, mas pertencia a uma classe social mais elevada. A causa da morte de Jane ainda é desconhecida, mas os pesquisadores acreditam que ela já estava morta quando seus ossos foram atacados.

Condições desfavoráveis – Apesar de esta ser a primeira evidência física de canibalismo em Jamestown, os pesquisadores já especulavam essa possibilidade devido às adversidades que os colonos encontraram em sua chegada.

O assentamento em Jamestown, primeiro grupo de ingleses permanente na América, foi fundado por pouco mais de 100 colonos em 1607. Eles enfrentaram situações adversas, como o inverno, a fome e o ataque dos índios Powhatan. A terra da região era pantanosa, imprópria para a agricultura, o que deixava os colonos dependentes de suprimentos enviados pela metrópole.

Já tinham sido feitas referências à ocorrência de canibalismo no local, segundo a revista Smithsonian, que divulgou uma antiga carta escrita a mão por George Percy, presidente de Jamestown durante o período conhecido como a Época da Fome (1609-1610). Percy descreveu como os colonos começaram a comer cavalos e outros animais, antes de recorrer a cães, gatos, ratos e cadáveres das sepulturas.

De acordo com James Horn, historiador da Colonial Williamsburg Foundation, a adolescente provavelmente chegou aos Estados Unidos em um dos navios sobreviventes de uma frota de nove embarcações que saiu de Plymouth, na Inglaterra, em junho de 1609, levando suprimentos. A uma semana de chegar ao destino, a frota foi atingida por um furação, de modo que em meados de agosto apenas seis navios chegaram ao local. No entanto, a chegada de mais colonos, com pouca comida, não amenizou o problema. “Apenas as circunstâncias mais desesperadoras teriam feito os ingleses praticarem canibalismo”, afirma Horn.

Em junho de 1610, outra frota chegou ao local, comandada pelo lorde De La Warr, que depois daria seu nome para o estado americano de Delaware. Apenas 60 colonos sobreviventes foram encontrados, extremamente magros.

(Com Agência France-Presse)