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Por que a expressão ‘a preço de banana’ periga sair de cena

A mais querida das frutas sofre com o clima e a eclosão de um fungo que pode vir a dizimar a espécie

Por Marília Monitchele Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 12 Maio 2024, 08h00

Talvez seja a elegância do design, a curva inigualável inventada pela natureza. Pode ser o dourado da cor. Quem sabe o sabor. Não há fruta mais popular e querida do que a banana — são 100 bilhões de unidades devoradas no mundo a cada ano, em 125 países. O incontestável charme a fez símbolo de muitas ideias. Nos séculos XIX e XX, espalhada pelas Américas por meio de empresas dos Estados Unidos, que enriqueciam aos baldes com o produto, deu origem a uma expressão pejorativa — “república de bananas” —, criada como referência às nações exploradas, economicamente dependentes e instáveis, afeitas a ridículos golpes de Estado. A alcunha perdeu sentido, as republiquetas parecem desaparecer — ainda que muita gente, fora do Brasil, tenha apelado ao codinome quando a corja de 8 de janeiro de 2023 depredou a Praça dos Três Poderes, em Brasília. Ah, o.k., o presidente do Equador é herdeiro de uma riquíssima família produtora, da marca “Bonita Bananas”, mas convém considerar mera coincidência. Tem ainda a Venezuela de Nicolás Maduro, mas coitada da planta herbácea.

A fruta serviu também, desde tempos imemoriais, como termômetro financeiro. “A preço de banana”, a etiqueta das etiquetas, é sinônimo de algo pelo qual se paga muito pouco, dada a fartura e a facilidade de plantio. Era assim até outro dia mesmo. Contudo, tal qual o desuso da alcunha atrelada à política da bagunça, a tiranetes de araque, chegou a hora de já não considerá-la barata para o bolso. A estatística é evidente. Em 1994, o preço médio anual era de 0,43 dólar por quilo. Em 2024, tocou em 1,65 dólar (veja no gráfico). No Brasil, apenas em 2024, a dúzia da banana-prata subiu pelo menos 18% e pode ser encontrada a mais de 13 reais. Deu-se o incômodo salto em decorrência das mudanças climáticas que devoram plantações, ondas sucessivas de calor e frio extremados, inundações e ciclones — tudo aquilo, enfim, que assusta a humanidade e pede reação imediata.

arte banana

Há, porém, um fantasma redivivo, que parecia sumido e voltou com estardalhaço agora: um fungo, o Fusarium oxysporum f. sp. cubense, responsável pelo chamado mal-do-­panamá, devastador. Nos anos 1800, ela dizimou um tipo de banana, a “gros michel”, ou “big mike”, que sumiria do mapa, de modo inapelável. Em seu lugar, os agricultores fizeram vicejar uma outra cultivar, a cavendish (a nanica ou d’água no Brasil), globalmente dominante hoje, que representa 99% das exportações. O risco de estragos é imenso, espalhado por todos os continentes. Fala-se, jocosamente, em “bananapocalipse”. Mais de vinte países estão severamente afetados, e não se excluem danos em território brasileiro. “Como a variedade anterior à atual foi completamente afetada, mudando o curso da história, não é impossível que ocorra fenômeno semelhante”, diz o cientista colombiano Fernando Garcia-Bastidas.

Uma solução possível seria o desenvolvimento, por meio da ciência, de um outro tipo, avesso ao fungo. É caminho improvável. Um problema é a dificuldade para consumo. A banana-princesa, desenvolvida pela equipe da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, é muito elogiada, mas não chega à doçura e adequação da campeã do paladar, a cavendish. Uma alternativa de laboratório vem sendo buscada com ansiedade. “Uma saída química pode despontar em breve”, diz Fernando Haddad, homônimo do ministro da Fazenda, pesquisador da Embrapa. Trata-se, grosso modo, de encontrar respostas a partir do cruzamento de espécies para a obtenção de famílias mais resilientes. Estuda-se, ainda, o recurso da edição genética. “É uma corrida contra o tempo”, resume Haddad.

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O Brasil — o país das bananas, por que não? — pode vir a salvá-las, o que seria para lá de bem-vindo. Elas movimentam por aqui 13,8 bilhões de reais ao ano e geram mais de 500 000 empregos diretos. Perdê-las, sem algo para substituí-las, produziria o pior dos mundos. Haveria o prejuízo econômico, sem dúvida, mas também o de um período da civilização e da diplomacia. O derradeiro capítulo está distante, e convém não promover o desespero. Mas é bom prestar atenção.

Uma metáfora possível da tragédia do fim das bananas pode ser encontrada em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. No romance, ele descreve a chegada a Macondo da BananaCompany — referência indireta à United Fruit americana — como “um evento de proporções bíblicas e, em seguida, como uma maldição”. O veneno mortal do Fusarium oxysporum, alheio a interesses poderosos, é verdade, pode servir a esse mesmo destino. Tomara que não, e que possamos cantarolar por aí: “Yes, nós temos bananas / bananas pra dar e vender / banana, menina, tem vitamina / banana engorda e faz crescer”, como na marchinha de Carnaval dos anos 1930. Ainda que não mais a preço de banana.

Publicado em VEJA de 10 de maio de 2024, edição nº 2892

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