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Por dentro do Observatório do Paranal, lar dos maiores telescópios do mundo

Construído a 2.600 metros de altura no Deserto do Atacama, o Observatório do Paranal é o mais produtivo complexo astronômico do planeta

A cada duas semanas, o astrônomo brasileiro Cláudio Melo pega um avião partindo de Santiago, capital do Chile, rumo à cidade de Antofagasta, no coração do deserto do Atacama, também em terras chilenas. Dali, precisa viajar mais uma hora e meia de carro para chegar a uma região montanhosa que lembra muito a superfície de Marte. Nessa paisagem quase alienígena, surge o que parece ser uma miragem: um luxuoso hotel, com piscina e plantas tropicais por todo lado. Esse paraíso artificial servirá de abrigo para Melo durante uma semana. Ali ficam hospedados os funcionários do Observatório Europeu do Sul (ESO), que trabalham, assim como Melo, no Observatório do Paranal, um moderno e elegante oásis científico, detentor do título de mais produtivo complexo astronômico terrestre do planeta.

Há dez anos, Melo segue essa rotina: uma semana no deserto, outra semana em Santiago. O rodízio foi elaborado para preservar a saúde dos pesquisadores. O observatório, obra da mais moderna engenharia, fica ao redor do Cerro Paranal, uma montanha de 2.635 metros de altitude, em um dos locais com menos umidade do planeta. Além de Melo, trabalham outros 180 profissionais, entre astrônomos, engenheiros e físicos que procuram os segredos do universo no céu límpido do deserto.

Resort científico – Todos os cientistas ficam hospedados no Residência Paranal, um majestoso hotel usado nas filmagens do filme Quantum of Solace, com o espião britânico James Bond. Quem visita o local, facilmente se esquece que está no meio do deserto onde não há água, comida e níveis aceitáveis de umidade em um raio de 130 quilômetros.

O saguão principal do hotel tem uma decoração inusitada – no centro do gigantesco salão redondo de dois andares há um belíssimo jardim de palmeiras e plantas baixas que fazem sombra sobre uma piscina. “As plantas e a água ajudam a manter a umidade do interior do hotel em níveis mais aceitáveis”, explica Andreas Kaufer, diretor de operações do ESO. O hotel também possui uma pequena videoteca, sala de música, jogos e um refeitório que serve 9.450 refeições por mês.

Assim como todos os prédios construídos no complexo, a Residência Paranal é resistente a terremotos. Uma parte da construção foi executada dentro da montanha. A outra foi construída na parte externa. “As duas partes são unidas por estruturas de borracha que tornam todo o sistema maleável para o caso de terremotos”, explica Kaufer. Quem está de passagem pelo observatório também tem acesso a um ginásio poliesportivo com quadra e equipamentos de ginástica.

O complexo erguido pelo ESO no meio do deserto é de fazer inveja aos grandes parques tecnológicos. O Observatório do Paranal gera a própria energia por meio de dois geradores a gás e mais três sobressalentes a diesel. “Temos autonomia de 12 dias de energia”, diz Kaufer. A autonomia do Paranal não para por aí. São cinco dias de água – sete se contar a que é separada para o controle de incêndio – garantidos por dois caminhões-pipa que trazem o líquido ao local diariamente. As medidas garantem a vida das 135 pessoas que povoam o complexo em esquema de rodízio.

Kaufer diz que o momento mais tenso vivido no observatório, que está em atividade desde 1999, foi durante uma greve de caminhoneiros em 2010. “Ficamos sem receber reserva de água ou comida durante cinco dias”, conta. “No fim do quinto dia estávamos decidindo se deixaríamos o observatório”. Caso os engenheiros, cientistas e técnicos precisassem deixar o observatório, há um plano. Todos os 80 carros devem estar com o tanque sempre cheio, no mínimo, pela metade. “Isso garante combustível suficiente para se chegar a Antofagasta, a cidade mais próxima”, explica Kaufer, que também vai coordenar a construção do E-ELT, o maior telescópio ótico da história. O complexo científico também possui uma central de manutenção de alta tecnologia. Todo o maquinário dos telescópios, incluindo espelhos e instrumentos óticos, recebem manutenção em um grupo de prédios ao lado do ginásio poliesportivo. “A maior parte dos problemas técnicos é resolvida aqui mesmo”, diz Kaufer.

Vigor científico – Toda a estrutura para receber cientistas e engenheiros do mundo todo não faria sentido sem a presença do conjunto de telescópios que conferiram ao complexo o título de melhor observatório do mundo, na opinião de Brian Schmidt, um dos três cosmólogos laureados com o prêmio Nobel de Física de 2011. (Continue lendo a matéria)

Vídeo mostra uma noite de observações no Observatório do Paranal:

O Paranal tem um portfólio invejável de telescópios. Um deles é o VISTA, o maior telescópio de rastreamento do mundo dedicado a pesquisar o céu em frequências próximas do infravermelho. Com um espelho de 4,1 metros de diâmetro, o VISTA consegue observar comprimentos de onda maiores do que os visíveis ao olho humano. Isso quer dizer que os astrônomos podem estudar astros escondidos por nuvens de poeira ou frios demais para serem observados no espectro visível. O telescópio é 40 vezes mais sensível que seus antecessores.

Outro telescópio que detém o título de maior do mundo em sua área é o VST (VLT Survey Telescope). A mais recente aquisição do Observatório do Paranal é o mais potente telescópio para observação do céu no espectro visível. O equipamento possui um espelho com 2,6 metros de diâmetro e pretende estudar astros remotos dentro do Sistema Solar e descobrir planetas orbitando outras estrelas.

A joia do Paranal, contudo, é o VLT (Very Large Telescope). Trata-se de um agrupamento de quatro telescópios com espelhos de 8,2 metros de diâmetro cada, apoiados por quatro telescópios menores, com espelhos de 1,8 metro. O VLT, junto com os outros telescópios do ESO, é o mais produtivo complexo astronômico terrestre do mundo. Diariamente, dois artigos científicos são publicados com dados obtidos por meio deles. Em número de artigos publicados, o Observatório Europeu do Sul só perde para o Hubble. (Continue lendo a matéria)

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O que torna o VLT tão especial é que todos os seus telescópios podem funcionar interligados, formando uma rede que pode aumentar em várias ordens de grandeza a resolução das imagens obtidas. Isso é possível por meio de um complexo sistema subterrâneo que recebe o sinal luminoso de todos os telescópios e os une em uma única faixa, gerando uma única imagem, mas com o detalhe e a luminosidade capturada por todos os telescópios.

Os telescópios instalados no topo do Cerro Paranal são controlados a partir de uma sala de operações logo abaixo do complexo. Dentro de cada uma das quatro unidades do VLT está uma gigantesca estrutura que dá suporte para um espelho de 8,2 metros de diâmetro e apenas 15 centímetros de largura – ao todo, 22 toneladas. “É como uma lente de contato”, diz Kaufer. A fina espessura permite que o espelho seja modelado por pequenas hastes abaixo da estrutura. O sistema garante que o espelho tenha sempre a curvatura perfeita, mesmo quando o telescópio é balançado por ventos. A enorme estrutura de 450 toneladas foi instalada em um sistema de imãs e motores especiais que permitem mover o telescópio de um lado para o outro com grande velocidade e no mais absoluto silêncio.

Publicações ESO

Apesar da complexidade do telescópio, o princípio de funcionamento é simples, explica Kaufer. “A luz dos astros incide sobre o espelho principal e depois é concentrada em um espelho menor”, diz. “Em seguida, essa luz é direcionada através de uma lente e segue para os detectores”. Depois disso, os instrumentos – cada um tentando responder uma pergunta científica – analisam a luz e enviam os dados para a sala de controle. De lá, são recebidos pelos computadores do ESO e operados por astrônomos da instituição que trabalham durante toda a madrugada.

A rotina é pesada. “É um lugar difícil de trabalhar”, diz Pierre Bourget. O engenheiro francês – que já morou no Brasil e fala português muito bem – trabalha há quatro anos no ESO. “A jornada de trabalho vai ficando cada vez mais cansativa”, diz. “Apesar disso, a satisfação profissional compensa”, garante Michael West, diretor científico do ESO no Chile. “Fazemos parte de um projeto de altíssima qualidade que tenta responder questões fundamentais sobre o universo”, afirma. “E ainda somos pagos para isso.”

O site de VEJA visitou dois dos maiores complexos astronômicos do Obsevartório Europeu do Sul. Saiba mais sobre os projetos:

ESO