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Pesquisadores brasileiros descobrem área cerebral responsável pelo sentimento de apego à família

Descoberta ajuda a entender onde se formam as emoções humanas e pode levar a novos tratamentos contra depressão e esquizofrenia

Um estudo conduzido por neurocientistas brasileiros identificou as áreas do cérebro que são responsáveis pelos sentimentos de afiliação: o apego e a ternura que sentimos em relação aos membros de nossa família. Publicada no periódico científico Journal of Neuroscience, a pesquisa ajuda a entender como as emoções humanas são desencadeadas. Segundo os pesquisadores, a descoberta pode ajudar ainda na compreensão dos mecanismos cerebrais envolvidos em alguns distúrbios psiquiátricos, como a depressão e a psicopatia.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: A Neural Signature of Affiliative Emotion in the Human Septohypothalamic Area

Onde foi divulgada: revista Journal of Neuroscience

Quem fez: Jorge Moll, Patricia Bado e Ricardo de Oliveira-Souza

Instituição: Instituto D’or

Dados de amostragem: 27 voluntários, que leram frases que trouxeram a tona emoções afiliativas negativas e positivas

Resultado: A partir de dados de ressonância magnética, os pesquisadores descobriram que a região cerebral Septo-Hipotalâmica apresentava uma maior atividade quando as emoções afiliativas estavam envolvidas

As experiências afiliativas são inerentes aos seres humanos e também a outros mamíferos, ajudando na coesão social dessas espécies. Segundo os pesquisadores, a afiliação está envolvida em diversas experiências humanas, que podem inclusive despertar emoções opostas. Ela, por exemplo, está presente nos sentimentos de cuidado e ternura com pais, irmãos e filhos, sejam eles em momentos de felicidade ou tristeza. “A afiliação está envolvida quando uma mãe olha para o filho brincando, e sente alegria e satisfação. Mas a afiliação também está presente quando uma mãe vê seu filho se machucando e se sente ansiosa por isso. Esse é um sentimento negativo, mas ainda assim ela sente apego por seu filho”, diz o neurocientista Jorge Moll Neto, presidente do Instituto D’or, responsável pelo estudo.

Pesquisas anteriores realizadas em animais já haviam apontado para regiões específicas do cérebro envolvidas neste tipo de emoção. Agora, a equipe de cientistas decidiu procurar por essa região no cérebro de seres humanos. Para isso, eles criaram algumas frases capazes de induzir os sentimentos de afiliação em humanos, que poderiam ser experimentados tanto de maneira positiva quanto negativa. (Veja alguns exemplos dessas frases no box abaixo)

O apego à família

Veja algumas das frases usadas no estudo, para trazer à tona os sentimentos de afiliação

Frases afiliativas positivas

– Você ensinou seu filho a andar de bicicleta e ele te agradeceu com um abraço

– Você juntou fotografias velhas de sua infância e fez um álbum para sua mãe

Frases não afiliativas positivas

– Você foi ao show de sua banda de rock preferida e eles te convidaram ao palco

– Você fez alguns comentários em uma reunião que deixaram seu chefe impressionado

Frases afiliativas negativas

– Você esqueceu seu aniversário de casamento e sua esposa ficou muito desapontada

– Você descobriu que seu pai está quebrado e acabou de perder o emprego

Frases não afiliativas negativas

– Você foi acusado por um problema que não foi sua culpa e perdeu o emprego

– Você foi a uma reunião no trabalho em que seu chefe o criticou publicamente

Em uma segunda fase da pesquisa, os cientistas estudaram a reação de 27 voluntários ao banco de frases. Dentro de um aparelho de ressonância magnética, eles tinham de ler cerca de 200 sentenças, que eram mostradas em uma tela de LCD. Enquanto os voluntários experimentavam as diferentes emoções descritas, o aparelho media quais áreas cerebrais eram ativadas. “A partir dos dados que recebemos da ressonância magnética, fizemos uma análise para encontrar qual foi a área que mais teve sua atividade aumentada por conta dos estímulos de afiliação”, disse Jorge Moll Neto.

Região rica em oxitocina – Por fim, a pesquisa mostrou que a área envolvida nas emoções de afiliação era a região septo-hipotalâmica, localizada atrás do lóbulo frontal, na base do cérebro. Segundo os pesquisadores, isso não foi uma surpresa. “Testes em animais já haviam mostrado que essa área é rica em oxitocina e vasotocina, hormônios que agem nos mecanismos de ligação social”, afirma o neurocientista.

A descoberta mostra que o apego social sentido pelos seres humanos não é um mero acaso – mas produto de uma especialização cerebral, que pode ter razões evolutivas. Os cientistas dizem que novas pesquisas nessa região cerebral podem ajudar a explicar os mecanismo por trás de doenças que apresentam falhas nesse apego, como o autismo e a depressão pós-parto (ver entrevista abaixo).

Jorge Moll Neto

Jorge Moll Neto (/)

“O mecanismo de apego é fundamental para a nossa sobrevivência”

Jorge Moll Neto

Neurocientista, presidente do Instituto D’or

Qual a importância do sentimento de afiliação? Ele é um mecanismo fundamental de sobrevivência entre mamíferos – e possivelmente entre algumas aves. A afiliação está presente entre os animais que têm o comportamento de proteção à cria, mas é mais proeminente entre os humanos do que em qualquer outra espécie. Esse mecanismo de apego é fundamental para a nossa sobrevivência, uma vez que os pais criam seus filhos durante muitos anos antes de eles terem independência. Sem ele, as mães estressadas poderiam abandonar o cuidado dos filhos – como acontece em alguns casos de depressão pós-parto. Entender o funcionamento desse sentimento ajudará também a entender esse tipo de disfunção.

Qual o valor do sua descoberta? Antes de tudo, ela pode ajudar a resolver uma questão conceitual. Ao localizar as regiões responsáveis por sentimentos e motivações humanas, mostramos que nosso cérebro tem uma especialização maior no sentido de promover o comportamento de apego social. Além disso, o estudo pode ajudar a entender certos distúrbios de comportamento. Em alguns casos, o indivíduo pode ter todas as emoções preservadas, mas um comprometimento nos sistemas de afiliação. Podemos estudar o papel desses circuitos na psicopatia, na depressão pós-parto, no autismo e na própria depressão.

Então lesões nessa área podem levar a disfunções psicológicas? Em modelos de animais, a lesão dessas regiões leva a um comportamento extremamente agressivo. O indivíduo costuma se tornar violento com animais de sua própria espécie. Mais que isso, alguns camundongos começaram a devorar os próprios filhos.