Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Os brasileiros que sonham em colonizar Marte

Projeto Mars One promete enviar em 2023 — em uma viagem só de ida — a primeira equipe de astronautas a Marte. Mesmo não havendo garantias de que a empreitada vá para frente, mais de 10.000 brasileiros estão inscritos

Durante a era das grandes navegações, milhares de colonos europeus deixaram suas terras natais para conhecer, explorar e povoar um novo mundo. Era o começo do século XVI, e aqueles homens estavam dispostos a abrir mão de sua casa, família e segurança, para dar início a uma nova civilização na América, onde não sabiam que tipos de dificuldades iriam enfrentar – e de onde provavelmente nunca iriam voltar. Em busca de uma nova vida do outro lado do planeta, acabaram entrando para a História.

No século XXI, o espírito desbravador das grandes navegações ganha nova forma. O foco não é mais cruzar o Atlântico, mas o espaço sideral. Em vez de uma missão comandada por nobres e com uma tripulação de marinheiros experientes, a colonização de Marte pode ficar a cargo de uma empresa privada, comandada por executivos com senso de marketing e tripulada por participantes de um reality show. Esse é o plano da Mars One, empresa fundada pelo engenheiro holandês Bas Landsdorp, que pretende enviar 24 pessoas até o planeta a partir de 2023, numa viagem só de ida. Apesar de todo o descrédito com que o projeto foi recebido pela comunidade científica, mais de 200.000 voluntários se inscreveram para participar da missão – desses, 10.289 são brasileiros -, movidos basicamente pelo mesmo desejo que moveu os colonizadores antigos: o de entrar para a História.

A Mars One garante que toda a tecnologia necessária para a missão já existe. Em busca de artimanhas para aumentar sua credibilidade, ela tem entre seus apoiadores cientistas do calibre de Gerard’t Hooft, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 1999. Ainda assim, o ceticismo é imenso. Pesquisadores da Nasa – que já afirmou que não vai enviar astronautas para Marte até 2030 -, por exemplo, duvidam que esse tipo de viagem tenha sucesso.

As principais dúvidas estão relacionadas não só à existência de tecnologias capazes de transportar e manter os humanos em segurança no planeta, mas também à fonte de financiamento do projeto. Segundo, a empresa, os 6 bilhões de dólares necessários para bancar a missão virão de doações, cotas de patrocínio e da transmissão do reality show.

As dúvidas, é claro, também afligem os voluntários brasileiros. “Existe o medo geral de que o projeto não passe de uma maneira tosca de ganhar dinheiro, e no fim nunca vá para frente”, diz Edmark Ciminelli, médico de 32 anos que se inscreveu para a viagem. Mesmo assim, o receio não foi suficiente para fazê-lo desistir do plano. Na verdade, ele conta que não pensa em voltar atrás. “Eu quero ser uma desbravador do espaço, como os personagens da série Star Trek. Meus amigos e familiares me chamaram de louco – e em alguns casos querem até me proibir de ir. Mas não têm como me impedir, sei que como médico posso ajudar muito na missão.”

O fato de tudo poder não passar de uma esperta jogada de marketing não foi suficiente para demover nenhum dos 200.000 voluntários, fascinados com a possibilidade de colonizar outro planeta. “Sinceramente, não tenho medo de dar errado. Caso o projeto seja sério e eu seja chamado, ficarei feliz. Se for mentira, não tem problema, pois não vai me impedir de desfrutar a vida aqui na Terra mesmo”, diz José da Silva Neto, 25 anos, militar da Força Aérea Brasileira que também se inscreveu no site da empresa. “De minha parte, essa é uma decisão muito séria. Quero ajudar a mudar a vida de várias pessoas”.

Colonizadores do amanhã – Para se inscrever no projeto, a única exigência era que o voluntário tivesse mais de 18 anos. Os interessados deveriam se cadastrar no site da Mars One, fornecendo informações pessoais e enviando um vídeo de um minuto explicando por que merecia tomar parte na viagem. Dentre os mais de 200.000 inscritos, o Brasil foi o quarto país com maior número de candidatos – com 5% do total-, atrás apenas de Estados Unidos (24%), Índia (10%) e China (6%).

Segundo os organizadores, os 24 colonizadores que farão parte da missão serão escolhidos a partir de uma série de características pessoais, como inteligência, criatividade, estabilidade psicológica e saúde. Eles, no entanto, não fornecem mais detalhes de quais serão os critérios adotados – se os candidatos que buscam têm mais o perfil dos astronautas selecionados pela Nasa ou dos participantes de reality shows que inundam a televisão brasileira. A ideia é que os selecionados sejam divididos em seis equipes de quatro pessoas, cada uma de uma nacionalidade diferente – o que aumenta a chance de um brasileiro fazer parte da missão.

“Essa é uma oportunidade de entrar para a História. Imagine só ser a primeira mulher a pisar em Marte, ser o Neil Armstrong brasileiro de Marte?”, diz a empresária Melissa Nechio, de 34 anos. Sem nada que a prenda à Terra – não tem marido nem filhos – ela foi uma das primeiras brasileiras a se inscrever no site da empresa, apenas cinco minutos depois de ser informada sobre o projeto. “Quando eu tinha oito anos, me lembro de pegar o atlas geográfico e fazer um plano de como ia conhecer o mundo inteiro. Hoje em dia, eu já visitei quase todos os continentes. Quando fiquei sabendo do projeto, pensei: ‘Posso ir ainda mais longe, onde nenhum ser humano esteve'”.

A equipe de voluntários brasileiros é variada ao extremo, formada por cientistas, médicos, desocupados, estudantes, deslumbrados, curiosos, fascinados por astronomia ou astrologia, jovens, idosos, doutores, músicos, empresários, solitários e pais de família. Todos dispostos a deixar tudo para trás, em busca de um lugar nos livros como os fundadores de uma nova civilização.

Alexandre Domingo de Albuquerque, por exemplo, descreve sua profissão como aventureiro. Com 30 anos, diz que vai sentir falta de tomar banho de mar e curtir um sol na praia, mas não abre mão da viajem para Marte. “Essa é uma escolha que pode ser feita apenas uma vez na vida. Não estamos falando da rua de baixo ou do país vizinho, mas de outro planeta. Eu quero participar da viagem pela aventura, pela ciência e pela fé. Quero ajudar a Terra a transformar Marte, torná-lo igual a nosso planeta”, diz.

Seu objetivo final é ainda mais ambicioso: marcar não só a história da Terra, mas do Universo. “Não vamos só povoar Marte, mas dar início à geração espacial. Ou seja, vamos gerar os filhos do Universo, criando uma civilização planetária. Todo nosso conhecimento humano será necessário nessa missão e, pelo tanto que já investiguei sobre as estrelas e o Universo em si, acho que estou pronto para ser um astronauta.”

No limite – Os 202.586 inscritos ainda devem passar por mais uma série de testes e provas até que sejam escolhidos aqueles que supostamente vão participar da missão. Eles serão submetidos a testes médicos e psicológicos para assegurar sua saúde, e passarão por entrevistas com os organizadores do projeto. As etapas de seleção serão feitas regionalmente, mas com transmissão para o mundo todo. Como se trata de um reality show, o público deverá ajudar a escolher os melhores candidatos.

Findo todo o processo, a primeira missão chegaria a Marte em 2023, com quatro voluntários a bordo. Depois disso, uma nova equipe será enviada a cada dois anos. Nessa primeira etapa, os desafios serão imensos – e os voluntários sabem disso. “Essa missão é incrivelmente complexa e perigosa. Um dos maiores riscos é a exposição à radiação solar, pois Marte não possui um campo magnético que proteja o astronauta. Por isso, os pesquisadores terão de desenvolver trajes especiais que, de alguma forma, reduzam esses feitos”, afirma Alex Aquino dos Santos, analista de sistemas de 27 anos que está inscrito entre os voluntários inscritos para a viagem.

Ele também cita outros perigos: como o pouso e a decolagem, e a fina poeira da superfície marciana, que pode fazer mal aos humanos e seus equipamentos. “Quando você é muito apaixonado pela ciência e tem o propósito de contribuir com a evolução, você não pensa muito nisso. Quero ajudar na continuidade da nossa espécie; nosso planeta está com os dias contados, e Marte é a única esperança que temos”, diz.

Segundo Douglas Galante, astrônomo do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, as dificuldades devem ser ainda maiores do que as apontadas, começando na própria viagem de ida. “Eles talvez nem cheguem lá. Os voluntários vão precisar de uma nave espacial que consiga mantê-los vivos pelo tempo da viagem – que pode durar de seis meses a um ano – ou seja, precisa ter suporte de oxigênio, temperatura e proteção à radiação no espaço. É importante lembrar que hoje não existe uma blindagem à radiação suficientemente boa e leve para ser usada em uma nave espacial.”

Em Marte, os desafios dos colonos serão montar a base onde viverão e aprender a usar os recursos do planeta a favor deles. “Para não entrar em contato com a atmosfera de Marte, toda vez em que saírem das instalações os astronautas precisarão usar roupas específicas. Se não fizerem isso, estarão sujeitos a uma atmosfera composta por substâncias ainda desconhecidas. Além disso, não sabemos quais podem ser as consequências do consumo de alimentos provenientes do solo marciano, pois não sabemos se ele é tóxico”, afirma Galante.

Mochileiros da galáxia – Afora as dificuldades enfrentadas no novo – e hostil – ambiente, a missão megalomaníaca implica mais um desafio: deixar para trás toda a vida construída na Terra. A decisão de abandonar para sempre mulher, filhos e amigos exige desprendimento por parte do voluntário e compreensão dos parentes. O militar José da Silva Neto, por exemplo, afirma que uma das primeiras coisas que falou para sua atual namorada foi sobre sua inscrição no Mars One. “Deve ser por isso que estou com ela desde então – porque ela aceitou”, afirma.

Para outros voluntários, a falta de raízes na Terra é só mais um motivo que os leva a sonhar com a vida em outro planeta. O mochileiro – formado em administração de empresas – Raphael Mariz, de 31 anos, por exemplo, diz que ficou sabendo sobre a Mars One enquanto estava viajando pela Grécia, em meio a uma volta ao mundo que já dura 16 meses. “Estou viajando por terra, pegando caronas, cruzando fronteiras, ficando na casa de desconhecidos em busca de um novo lugar que possa chamar de lar. Após comentar que estava cansado de viver nesse mundo e adoraria conhecer outros, minha companheira de viagem italiana me contou que estavam recrutando pessoas para ir para Marte”, afirma.

A possibilidade de trocar de planeta, deixar tudo para trás e criar uma nova civilização do zero foi justamente o que levou à sua inscrição. “Nós podemos criar uma nova sociedade, onde terei a chance de construir um novo começo e um mundo livre dos erros cometidos na Terra. Lá, viveremos em prol dos outros, e não do indivíduo. Não precisaremos fazer guerras por terra, religião e poder. Estou pronto para dizer adeus. Adoraria ser o primeiro a pisar em Marte e, quem sabe, o pai do primeiro marciano”.