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Os átomos que mudaram o mundo

Substâncias como ouro, urânio ou petróleo estiveram no centro de guerras e tragédias do passado. Para o cientista sueco Lars Öhrström, a química pode ajudar a salvar o planeta de catástrofes assim e encontrar meios de transformar as moléculas ao nosso redor em algo útil e lucrativo

Por Rita Loiola - Atualizado em 9 Maio 2016, 14h47 - Publicado em 21 abr 2014, 08h10

A história está repleta de tragédias químicas. Além da bomba atômica, os elementos da tabela periódica levaram gerações à loucura, provocaram assassinatos, despiram exércitos e fizeram toda uma região europeia ser conhecida por seus “idiotas”. Catástrofes, armas e doenças guiaram, durante séculos, a ciência química. “Temos problemas interessantes para resolver. Do nosso jeito humilde, nós (químicos) realmente tentamos salvar o planeta”, diz o químico sueco Lars Öhrström, pesquisador da Universidade Chalmers, em Gotemburgo, na Suécia, e membro da União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac), a instituição mundialmente famosa por dar nomes a novos elementos e construir a tabela periódica oficial.

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The Last Alchemist in Paris

Livro The Last Alchemist in Paris

Lars Öhrström, químico da Universidade Chalmers, em Gotemburgo, na Suécia, e membro da União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac), reúne aventuras históricas curiosas que tiveram os elementos químicos como protagonistas.

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Autor: LARS ÖHRSTRÖM

Editora: OXFORD UNIVERSITY PRESS

Em seu segundo livro, The Last Alchemist in Paris (O Último Alquimista de Paris, publicado no início deste ano nos Estados Unidos e sem tradução no Brasil), Öhrstrom reúne duas dezenas de casos históricos em que átomos e moléculas foram os protagonistas. Há histórias sobre as descobertas nucleares, cura de doenças e enigmas científicos que, por meio de explicações simples e algumas fórmulas, o cientista busca decifrar. O objetivo é mostrar que somos feitos e estamos cercados por essas estruturas. E, sem saber como funcionam, seremos sempre dominados por elas.

“Às vezes sinto que estou revelando os segredos de uma arte antiga que poucas pessoas conhecem”, diz Öhrstrom em seu livro. “É como se houvesse um sentimento generalizado de que a química é ‘ruim’, como bruxaria.”

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Os humanos já se envolveram em violentas batalhas pela posse de substâncias químicas. Ouro, prata ou petróleo levaram nações a se enfrentarem por séculos. E, se não tomarmos cuidado, outra molécula, aparentemente inofensiva, será o centro da próxima disputa mundial. A disputa pela água, diz o cientista, certamente causará conflitos armados. “Grandes rios explorados na nascente levando menos água ou poluentes para outro país será um problema bastante difícil se não forem selados bons acordos entre os países”, diz.

Solução para catástrofes – Em sua rotina, cientistas como Öhrström buscam compreender o funcionamento de elementos da natureza, como a água, os gases e metais que envolvem nosso planeta, e os mecanismos biológicos que comandam o nosso organismo. Esses pesquisadores podem ter a chave não só para impedir guerras ou catástrofes naturais, mas também para a descoberta de novos medicamentos capazes de combater doenças.

“Hoje podemos ver em detalhes o que moléculas de DNA fazem com nosso corpo e somos capazes de entender os processos biológicos em seus detalhes químicos. Conseguimos ver enzimas e outras proteínas e compreender seu papel no organismo”, afirma o químico. “A busca pela cura de moléstias ou por soluções para desastres como a mudança climática sempre levou a ciência para novas direções.”

Alquimistas do presente – Nas páginas do livro que demorou cinco anos para ficar pronto, Öhrstrom mostra como as pesquisas em química tornaram-se mais avançadas após a II Guerra Mundial e levaram os cientistas a buscar fórmulas capazes de tornar os elementos ao nosso redor mais úteis e lucrativos. Hoje, o grande foco dos laboratórios está nos estudos que procuram uma maneira prática e barata de converter energia solar em eletricidade ou meios de produzir combustíveis químicos com o uso do hidrogênio. Bilhões são investidos em estudos para criar uma “energia limpa”, econômica e, ao mesmo tempo, produtiva.

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No decorrer dessas descobertas, os químicos combinam conhecimentos de várias áreas (física, história e medicina) para manusear as diferentes moléculas. O mais novo candidato a elemento da tabela periódica, que pode levar o número 115 e ser batizado de ununpentium (ele só será oficializado depois de passar pelas análises da comissão de Öhrstrom), foi descoberto no fim do ano passado, como uma junção de outros átomos. O procedimento é parecido com o usado por alquimistas do passado, que combinavam filosofia, conhecimentos esotéricos e químicos, e usavam materiais baratos para fabricar ouro. “Hoje não temos químicos buscando ouro, mas físicos combinando elementos pesados para criar outros. O que mais gosto nessa área é que é ela é intelectualmente estimulante e divertida. Além disso, a combinação entre colaboração internacional, política e cultura é muito interessante.”

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