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O que pensa hoje a menina que calou os poderosos na Eco-92

Aos 32 anos, Severn Suzuki chega para a Rio+20 para participar de evento paralelo à conferência, e diz estar 'não muito otimista' em relação aos resultados do encontro

Por Luís Bulcão Atualizado em 6 Maio 2016, 16h34 - Publicado em 7 jun 2012, 19h39

Vinte anos depois de ter “calado o mundo por seis minutos” com um discurso dirigido aos chefes de governo durante a Rio- 92 – quando tinha apenas 12 anos -, Severn Cullis-Suzuky prepara as malas para retornar ao Rio de Janeiro. Hoje com 32 anos, mãe de dois filhos, ela diz que aquele momento mudou sua vida. Em entrevista por Skype ao site de Veja, Severn, que mora nas ilhas Queen Charlotte, no Canadá, mostrou que ainda guarda o mesmo entusiasmo romântico pela causa ambiental que marcou o espírito da Rio-92 e a tornou famosa. Depois de ter se formado em biologia, ela considera que o mundo continua no caminho errado, e acredita que a mensagem precisa ser repetida: “Nós precisamos ficar chocados”, diz.

Severn chega ao Brasil na próxima semana, sem maiores expectativas em relação aos resultados da conferência. Ela não tem participação prevista na agenda do Riocentro, onde ocorre a cúpula de líderes da Rio+20. Vai participar de diversas atividades paralelas e discursar na TEDxRio+20, evento que ocorre nos dias 11 e 12, no Forte de Copacabana.

Que lembrança você guarda da Rio-92?

Éramos um pequeno grupo de crianças. Juntamos o dinheiro para a viagem vendendo coisas. Membros da comunidade doaram fundos. Também tivemos muito apoio da Raffi, um cantor de música infantil. Nós queríamos falar para os líderes do mundo. Esse era o nosso objetivo de ir ao Rio. Acho que nós conseguimos. Fazer o discurso foi um momento muito poderoso. Eu me lembro que eu me senti muito confiante. Eu entendia muito bem o motivo de estar ali e o que eu tinha que fazer. Eu também estava indignada. Queria me certificar de que eu agiria como consciência para os líderes. Queria fazê-los pensar sobre suas próprias crianças. Me lembro de estar bem calma e focada.

Você ficou conhecida como a garota que “silenciou o mundo” por seis minutos. Como se sente por ter feito parte daquele momento na história?

É muito interessante. Eu fiz muitas coisas em 20 anos. Mas aquele foi o momento mais famoso e certamente mudou a minha vida. Acho fascinante. As pessoas responderam de maneira tão forte àquele discurso porque a imagem, a ideia e a realidade de uma criança falando a verdade ao poder é uma mensagem que faz as pessoas pensarem sobre suas próprias crianças, sobre as gerações futuras, pelas quais somos responsáveis. É uma conexão com algo muito profundo. Agora, como mãe, eu entendo porque as pessoas se emocionam tanto quando assistem ao discurso. É porque ele fala sobre justiça para outras gerações, fala sobre o futuro, sobre as nossas crianças. Nós precisamos mais mensagens como essa. Nós precisamos ficar chocados. Precisamos realmente saber o que está acontecendo e o que estamos fazendo com o nosso planeta. Eu li hoje na revista científica Nature um artigo em que cientistas ao redor do mundo dizem que nós estamos direcionando o nosso ecossistema para um formato completamente diferente, onde presenciaremos extinções em massa, mudanças atmosféricas, de temperatura, nível do mar aumentando. Estamos chegando a um ponto onde não vai haver retorno. Isso é o que os nossos cientistas estão nos dizendo e nós estamos ignorando completamente. Nós temos que encontrar formas de alertar as pessoas e vencer a relutância das pessoas em ver o que está acontecendo.

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Você se tornou uma ambientalista. Estudou isso ao longo dos anos. Nós sabemos que houve muito alarmismo quando o assunto é meio ambiente. Como você vê o movimento ambiental hoje?

Acho que o ambientalismo é um movimento de justiça humana. Acredito que está finalmente sendo retomado. Nós não podemos dar atenção à saúde humana sem dar atenção ao meio ambiente, e não podemos lidar com o meio ambiente sem justiça social. Claro que existe alarmismo. Mas temos que nos focar em construir o mundo que queremos. E esse é o grande tema do Rio, o futuro que queremos.

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Vinte anos passaram desde a Rio 92. Você acredita que as coisas pelas quais você lutou foram levadas adiante? Como você vê esses últimos 20 anos em termos de ação global?

A liderança global em meio ambiente decaiu desde a conferência. Nós simplesmente não fizemos essa transformação. Tivemos alguns avanços. Mas eles são muito pequenos diante da agenda coorporativa e de crescimento econômico em que o nosso mundo se encontra hoje.

Se você fosse falar na ONU novamente. O que você diria hoje aos líderes globais?

Estou trabalhando nisso justamente agora. Vinte anos se passaram. Temos que avaliar honestamente a situação em que nos encontramos. O que eu continuo dizendo é que nós não conseguimos justiça entre as diferentes gerações. Não encaramos o futuro como prioridade. Em um mundo em que 50% da população está abaixo da idade de 30 anos, não damos atenção às gerações futuras. Isso é uma insanidade. Pelo mesmo motivo, temos que dar ouvidos aos alertas dos cientistas. Temos que dar valor a essas duas coisas para poder avançar.

Você esteve no Brasil desde 1992? Como vê o país no aspecto ambiental?

Passei dois meses em uma estação de pesquisa na Amazônia em 2001. Foi uma ótima experiência. Passei algum tempo na floresta tropical com os índios Caiapós. Realmente me entristece saber sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte e sobre o Código Florestal. O Brasil tem a oportunidade de ser líder como membro de uma economia. Mas não pode seguir o caminho das economias já desenvolvidas. Nós sujamos o planeta e não podemos deixar o nosso exemplo ser seguido.

Como vê o abandono do Protocolo de Kyoto pelo Canadá?

Estou envergonhada do meu governo, do meu país. É de cortar o coração ver a liderança que nós tínhamos em 1992 e onde estamos agora. Somos conhecidos internacionalmente como os “retardatários ambientais”, somos conhecidos como destrutivos. Estamos jogando fora todo o nosso trabalho científico em termos de governança política. Estamos levando nossa democracia à ruína. Nosso país está em profunda crise democrática agora. Essa é uma das outras razões pelas quais estou indo para o Rio. Estou acompanhando um grupo chamado “Nós o Canadá”, onde nos dedicamos a instigar o governo a realmente nos representar.

O que você espera da Rio+20? Acredita em uma resposta efetiva?

Espero que sim. Mas não estou muito otimista. Precisamos de uma mudança de paradigma para que o planeta tenha chance de sobreviver. Não sei qual será o legado da conferência. Nós vamos descobrir logo.

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