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O perigo da genética

Biólogo e escritor de best-sellers tem receio diante do ressurgimento de discursos eugênicos — inclusive no Brasil — que, no passado, já levaram ao nazismo

Com formação nas prestigiadas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Stanford e Harvard, nos Estados Unidos, o indiano Siddhartha Mukherjee é um nome consagrado, aos 48 anos, como biólogo e oncologista. Hoje trabalha como pesquisador na igualmente aclamada Columbia, em Nova York. Contudo, ele é mais famoso não pelos feitos na academia, mas por seus dois livros, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, nos quais adota papel de historiador e vigilante da ética na ciência. Em O Imperador de Todos os Males (2010), ganhador do Prêmio Pulitzer, transformado em documentário pelo cineasta americano Ken Burns em 2015, ele narra a evolução do conhecimento sobre o câncer. Já em O Gene (2016), desvenda o progresso da manipulação genética. Projeta um futuro no qual cânceres poderão ser prevenidos e a edição do DNA se tornará possível. Em conversa durante passagem por São Paulo, atrasado para pegar um voo para Nova York, onde mora com as duas filhas e a mulher, a artista plástica americana Sarah Sze, Mukherjee detalhou seus prognósticos para a medicina. Afirmou ter como missão demolir o conceito de raça, apontando o perigoso renascimento das ansiedades eugênicas, inclusive no Brasil. A seguir, a entrevista.

Que tipo de perigo oferecem os movimentos eugênicos? A eugenia se baseia em querer aprimorar a espécie por meio da seleção genética. É natural o anseio do ser humano de melhorar o destino de seus filhos. Por isso, é esperado que as pessoas façam qualquer coisa para alcançar a felicidade e a saúde das crianças. A eugenia acaba por se apresentar como uma solução, já que permitiria manipular a seleção natural. No entanto, é uma ideia perigosíssima. Se ocorre apenas no âmbito pessoal, de pais querendo melhorar as condições de filhos, pelo conhecimento da genética, é compreensível. O problema é quando se torna um anseio coletivo e ganha força nas várias camadas de uma nação. Aí o Estado rouba para si o poder de decidir o que seria geneticamente bom ou ruim, gerando efeitos drásticos. Um cenário que se agrava ainda mais quando se leva em conta que, depois de um boom no fim do século XIX e início do XX, seguido de um sumiço, os movimentos eugênicos estão tendo um ressurgimento.

Como? Há dois tipos de iniciativa eugênica, a “negativa” e a “positiva”. Ambas são devastadoras. A negativa foi aplicada na prática por meio de abortos forçados, esterilizações e mesmo assassinatos. Hoje, resgata-se a eugenia de linha “positiva”.

A eugenia “positiva” teria então algum benefício? Não. As consequências podem ser igualmente devastadoras. No modelo positivo, a eugenia propõe editar diretamente os genes, incentivando a construção de uma raça tida como perfeita.

O senhor tem exemplos concretos dos efeitos devastadores dos dois modelos? A história da eugenia pode ser dividida em quatro capítulos. O primeiro, quando cientistas vitorianos, liderados por Francis Galton (1822-1911), começaram a cogitar o encorajamento da reprodução sexual apenas entre indivíduos atraentes, atléticos e inteligentes, em busca do que vislumbravam como uma raça-­mestra. Assim, anteciparam a proposta apelidada de “positiva”. A segunda fase ocorreu nos Estados Unidos dos anos 1930, com a promoção de competições para ver qual seria o bebê mais perfeito, em campeonatos, ressalve-se, em que só havia brancos. Além disso, foram abertos campos de concentração para os quais se levavam indivíduos tidos como falhos geneticamente, como deficientes mentais. Depois se descobriu que muitos deles não sofriam de doença alguma. Nessas prisões, esterilizavam-se as mulheres. Carrie Buck (1906-1983), a quem dediquei meu livro O Gene, foi uma das vítimas. Assim teve início a prática que chamo de “negativa”. Situação que tomou dimensões maiores em um terceiro momento, quando a eugenia serviu de base para o nazismo, que começou a matar em busca do que julgava ser a raça ideal. Alguns acham que Hitler surgiu como desenlace da I Guerra Mundial, que levou a Alemanha à crise social e econômica. Para mim, essa não foi a raiz. Seu surgimento se deu no uso do discurso eugênico, por meio da deturpação de estudos científicos, para criar uma agenda populista que prometia a limpeza genética. A busca pela raça perfeita iludiu e moveu o povo alemão em direção à II Guerra Mundial. Depois que se venceu o nazismo, passamos a ter maior cautela com o assunto. Porém, há um renascimento da eugenia — e esse é o quarto estágio.

Como se configura essa nova fase? A possibilidade de editar o DNA, de rees­crever códigos genéticos, da seleção de embriões, tudo isso abre portas para um novo tipo de eugenia “positiva”. O intuito é determinar o que seria perfeito e o que seria errado nos humanos e, a partir daí, redesenhá-los por meio da tecnologia. Os primeiros frutos disso devem aparecer na próxima década. Aposto que surgirão na China.

“Políticos populistas já estão usando a eugenia novamente como base para discursos que prometem a limpeza de nações e indivíduos. Isso pode dar poder indevido ao Estado”

Por que na China? As traumáticas experiências históricas tornaram o aparato legal de países ocidentais mais restrito a inovações perigosas como a clonagem. Sabemos do risco de entrar nessa seara. Já na China não há legislação para limitar essas práticas.

Qual é o risco? Políticos populistas já estão usando a eugenia novamente como base para discursos que prometem a limpeza de indivíduos e de nações. Isso pode voltar a dar um poder indevido ao Estado, o de definir mandatos de felicidade. Ou seja, construindo cenários nos quais só é aceito o que o líder do governo tem como correto, sendo extirpado todo o restante, o que costuma incluir ­etnias diferentes da predominância nacional e gêneros sexuais diversos. Com a desculpa de limpar o sangue da nação, isso já está ocorrendo em países como Estados Unidos, França, Turquia, Áustria e tantos outros. Inclusive no Brasil. A crise na recepção de refugiados tem tudo a ver com ­isso. Políticos populistas encontram no ódio aos imigrantes uma fórmula fácil e barata de conquistar o apoio daqueles que caem na ladainha de que expulsar o diferente faria da nação um lugar melhor.

Como isso está ocorrendo no Brasil? Estive me informando sobre a corrida presidencial. Jair Bolsonaro é exemplo da utilização do discurso euge­nista como forma de ganhar votos. Quando ele chama de “escória” os haitianos, senegaleses, bolivianos, sírios e até mesmo membros do movimento brasileiro dos sem-terra, o que está embutido? Que esses humanos são sujos, ou seja, donos de sangue ruim. Ao dizer que “quilombolas não servem nem para procriar”, há na afirmação a manifestação de que negros seriam piores e, portanto, não mereceriam multiplicar seus genes. O mesmo teor eugênico se revela em muitas outras frases de Bolsonaro. Ele pode até não saber o que é eugenia, mas é evidente como utiliza, instintivamente ou não, esse recurso como arma populista.

Não se pode entender que isso tudo não passa de preconceito? Não se trata somente de preconceito. Esse tipo de discurso é forte justamente por se apoiar numa ilusória procura por limpar a nação. É uma linguagem de perversão da ciência que infelizmente conquista o povo e acarreta conse­quências trágicas, como se viu no caso do nazismo, cujos líderes se apoiavam em frases similares às de Bolsonaro. Por isso costumo dizer que a existência do gene é simultaneamente a ideia mais linda e a mais perigosa.

Há forma de derrotar de vez o discurso eugenista? É preciso, antes de tudo, acabar com o conceito colonialista de raça. Essa palavra não tem significado para a ciência. As diferenças genéticas entre as populações não se dão pela cor da pele, mas pela localização geográfica. Todos nós somos provenientes de um mesmo grupo de Homo sapiens que deixou a África há uns 100 000 anos, migrou para a Ásia e para a Europa e se misturou, por meio da reprodução, com outras espécies do gênero Homo, a exemplo dos neandertais. Nesses fluxos, apareceram as distinções no DNA.

“Quando Bolsonaro chama de ‘escória’ os haitianos, senegaleses, bolivianos, sírios, até os sem-terra, está embutido na fala que esses humanos são mais sujos, donos de sangue ruim”

Essa ideia, que destaca as distinções geográficas, e não a aparência física, não instigaria mais conflitos? Esta é a verdade científica: somos geneticamente diferentes em consequência dos fluxos migratórios. Se vão usar isso como desculpa para guerras, aí entramos no campo da política. Agora, em busca da paz, é necessário ressaltar que nossas semelhanças são bem maiores que as distinções. Quando digo que existem diferenças, faço menção, por exemplo, a suscetibilidades a doenças. Há populações que são mais vulneráveis a um tipo de câncer. São detalhes que podem levar a tratamentos personalizados. Mas nada que seja motivo para nos colocar em conflito.

Mesmo que se consiga vencer os riscos eugenistas, o progresso da bioengenharia não pode acabar nos dividindo em castas, com uma elite que tem acesso ao aprimoramento do DNA? A ameaça existe. Hoje não estamos próximos de nos transformar em deuses gregos, cheios de poderes. A longo prazo, porém, há esse risco.

Um dos benefícios do avanço da genética será a cura do câncer? Não existirá, nunca, uma única cura para o câncer. Até recentemente procurávamos um remédio definitivo. Agora descobrimos, pela genética, que a melhor solução é prevenir, não remediar. Pesquiso, por exemplo, como dietas talvez ajudem as pessoas a precaver-se contra a doença.

Todo dia parece sair uma nova conclusão sobre o câncer. Em que acreditar? A verdade é que ainda não sabemos ao certo quais hábitos ajudam ou não no combate à doença. Estamos em um momento de estudo, e levará uns dez anos para termos resultados.

Com o progresso da prevenção, seria possível erradicar o câncer? Não. Os mesmos genes que permitiram que nos transformássemos em seres multicelulares bem-sucedidos são os que podem se corromper e levar ao mal. Em um próximo livro, vou me debruçar sobre a história do acúmulo de conhecimento a respeito de nossas células, as responsáveis por nossa evolução.

Estamos próximos da imortalidade, tema sobre o qual o senhor também está escrevendo? Experiências pessoais me motivam a ser médico e a escrever. Estudo a imortalidade por ter acompanhado a morte de meu pai. A frustração diante do fim me fez mergulhar no conhecimento que se tem a respeito da morte. Por que e como morremos? Dentro de 500 anos vamos morrer de maneira distinta. Nossos organismos não viverão 300 anos. Mas haverá a possibilidade de transferir memórias para um chip e passá-las para um clone, por exemplo. Esse clone será você? Em minha visão, não. Mas assim atingiremos algum tipo de imortalidade.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603