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Malária ou aids? Guerra civil ou violência doméstica? Quais deveriam ser as metas para um mundo melhor?

O dinamarquês Bjorn Lomborg reuniu os melhores economistas do mundo para estabelecer, de forma prática e matemática, os dezenove desafios que a ONU deveria estabelecer para moldar o planeta até 2030

O que faria se tivesse 2,5 trilhões de dólares para resolver os problemas de desenvolvimento do mundo pelos próximos quinze anos? Essa é a difícil missão que negociadores dos 193 países-membros da ONU terão que resolver em setembro, quando acontecerá em Nova York um encontro para decidir as metas globais para o período 2016-2030.

A proposta atual da ONU, que continuará a ser negociada até se chegar ao documento final, conta com numerosas 169 metas. A título de comparação, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos também pela organização em 2000, limitavam-se a dezoito causas, como estabelecer a igualdade entre os sexos e erradicar a pobreza.

Para estudar quais das diversas metas mereciam ser priorizadas, o economista dinamarquês Bjorn Lomborg, eleito uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista americana TIME e uma das 50 pessoas que poderiam salvar o mundo pelo jornal inglês The Guardian, decidiu levar o assunto a sua consultoria, a Copenhagen Consensus. Os mais de cem economistas que fazem parte do grupo, entre os quais estão sete laureados Nobel, chegaram a dezenove objetivos que deveriam ser privilegiados por terem grande eficácia mesmo com pouco investimento.

A conclusão do trabalho virou o livro The Nobel Laurets guide to the smartests targets for the world 2016-2030 (O guia dos laureados Nobel para as metas mais inteligentes para o mundo 2016-2030, em tradução livre para o português). No Brasil nesta semana para divulgar a obra e suas ideias, Bjorn conversou com o site de VEJA e explicou a sua já polêmica metodologia.

Em seu livro, o senhor defende que a ONU deveria se focar em dezenove metas em vez das 169 que constam no documento atual. Como julgar as que valem mais a pena? Primeiro, quero esclarecer que todas as 169 metas são bem intencionadas, querem fazer o bem. Mas o ponto é que enquanto algumas atingiriam milhares de pessoas, outras teriam um efeito mínimo e distante. Idealmente, todos deveriam estar bem alimentados e educados, ninguém deveria estar doente e não deveria existir destruição ambiental. No mundo real, porém, apesar de querermos, não conseguiremos resolver todas essas questões nas próximas cinco décadas. O que estamos tentando dizer é: uma vez que não conseguiremos fazer tudo ao mesmo tempo, não deveríamos priorizar as metas com mais eficiência e com maior alcance primeiro? Uma maneira muito eficaz e terrivelmente perturbadora de explicar nossa linha de raciocínio é pensar do ponto de vista da saúde: nós estimamos que, para salvar uma pessoa que tem malária, se gasta 1 000 dólares. Para uma pessoa que tem aids, o valor é dez vezes maior. Se você tivesse esses 10 000 dólares, preferiria salvar uma ou dez pessoas? É um dos problemas mais diabólicos, faz com que nos sintamos mal, mas é preciso priorizar. Fazer de tudo um pouco é apenas uma maneira ineficaz de nos sentir melhor e esquecer esse dilema moral.

Por que economistas são as pessoas mais aptas a definir quais problemas são mais importantes que outros? Quando o assunto é investir dinheiro, não se deve perguntar a um médico ou a um climatologista; os economistas são as pessoas certas para definir quais são as apostas. Nós reunimos os melhores do mundo para conferir valores a cada um desses problemas. Nós analisamos um por um, com os seus impactos econômicos, sociais (como o número de vítimas) e ambientais (como consequente degradação de ambientes) de cada uma dessas medidas. Depois, definimos quanto se ganharia caso aquela questão fosse erradicada. Dou um exemplo: se acabássemos com a desnutrição, as crianças bem alimentadas teriam um desenvolvimento completo do cérebro, ficariam mais tempo nas escolas, se tornariam adultos mais participativos da sociedade, provavelmente tendo menos filhos, com mais dinheiro para dar-lhes uma vida decente, o que resultaria também em menos pessoas desempregadas. É um ciclo virtuoso que, pelas nossas estimativas, renderia 45 reais para cada um real investido agora na questão. É preciso destacar que também convidamos ONGs e órgãos da ONU para participar. Até tentamos envolver empresários. Mas esses não se convenceram.

Atribuir valores monetários de retorno de investimento para problemas humanos, como violência doméstica e desnutrição infantil, é a melhor forma de avaliá-los? É como o preço de um produto do supermercado. Só porque aquele produto é barato, não quer dizer que você vai escolhê-lo. Mesmo tendo à disposição espinafre, um alimento acessível e nutritivo, há quem opte pelo caviar, muito mais caro e talvez não tão benéfico para a saúde. Mas mesmo que essa não seja a única informação a ser levada em conta na hora de tomar uma decisão, ela é extremamente importante. Quanto a traduzir os problemas a valores, não é tarefa simples unir tantas variantes em um número final, mas recorremos a vários economistas para ter certeza que nossa estimativa é confiável. Além disso, se atribuirmos a todas as metas valores da mesma medida, elas podem ser comparadas e avaliadas de forma objetiva. De outra maneira, acabaríamos com uma lista imensa de fatores diferentes que dificultariam o processo de tomada de decisão.

Quais seriam as metas eficientes e de grande alcance, então? Uma delas, como disse, é a desnutrição infantil. Uma outra seria a contracepção para mulheres, que é um investimento incrível porque dá às mulheres o poder de decisão de ter filhos apenas quando elas quiserem, o que provavelmente significaria menos crianças no mundo e pais com mais recursos financeiros para lhes dar uma boa educação. Estimamos que para cada real gasto com essa questão, o retorno será de 120 reais. Também há exemplos de outras áreas, como a perda de corais. Seria preciso investir 3 bilhões de dólares para lidar com esse problema, impedindo, por exemplo, que pescadores os destruam. Mas valeria a pena, porque a conservação resultaria em mais peixes e mais turismo, ou seja, para cada real investido, se ganharia 24 reais. Outro exemplo é o comércio livre, que sozinho tiraria 160 milhões de pessoas da pobreza e faria todo mundo no planeta 10% mais rico até 2030. Então, estimamos que cada real gasto renda 2 000.

O senhor defende a bandeira de se escolher melhor as batalhas há algum tempo. Em sua apresentação no TED há dez anos, por exemplo, a luta contra a aids aparecia como prioridade número 1, mas o senhor acabou de nos contar que o combate da malária passou a valer mais a pena. Que outras mudanças ocorreram? Em 2005, estávamos quase tendo uma pandemia global da aids, a doença não estava contida, havia muitas pessoas doentes que não recebiam tratamento, mesmo que básico e barato, como um exame de sangue ou ser informado sobre a transmissão do vírus entre mãe e filho. Hoje, tudo isso já foi feito e o que sobrou é essencialmente a parte cara, por isso a doença caiu no nosso ranking. Mas, fora isso, tivemos poucas mudanças, porque o que tentamos enfatizar é que são justamente essas coisas velhas e chatas que ainda são importantes. Se olharmos para 2014, qual foi a doença de que mais se falou? Sem dúvida, o ebola, que matou 20 mil pessoas ao todo. A tuberculose mata 1,3 milhão no mundo a cada ano, mas se falou em ebola porque era algo novo e assustador. Na realidade, porém, são os problemas velhos e chatos que ainda são extremamente importantes.

O que o senhor quer dizer com “problemas velhos e chatos”? Um outro exemplo foi uma descoberta que fizemos na última década, que foi parar nesse ranking, mas foi simplesmente erro nosso não tê-la percebido antes. Falo da poluição do ar interior de casas, o maior problema ambiental do mundo, que mata 4,3 milhões de pessoas a cada ano — só no Brasil, são 20 000 –, basicamente porque quase metade das pessoas do planeta cozinha e se mantém aquecida utilizando combustíveis sujos, como madeira. Morar nessas casas extremamente poluídas é o equivalente a fumar dois maços de cigarro todo dia, por isso é tão perigoso e deveríamos fazer algo a respeito, apesar de poucas pessoas saberem do problema. Outro exemplo: no quesito violência, jornais divulgam conflitos no Iraque ou das FARC, na Colômbia, que são realmente importantes. Nós estimamos que o custo com guerras civis ou de situações similares é de 160 bilhões de dólares por ano. Mas um problema de violência muito maior é o contra mulheres e crianças. Nós estimamos que 305 milhões de mulheres são agredidas por seus parceiros a cada ano, e se colocarmos um valor nisso, o prejuízo seria da ordem de 4 trilhões de dólares. Entre as crianças, 280 milhões são agredidas a cada mês por pais, resultando em um prejuízo para a sociedade de 3,5 trilhões de dólares, o equivalente a 9% do PIB global. Mas é mais interessante mostrar bombardeamento na Síria, com ótimo apelo visual. Nós somos os defensores dessas questões anônimas e não tão atraentes, queremos que as pessoas percebam que há grandes problemas dos quais não falamos muito, e que os problemas que mais divulgamos podem não ser os mais importantes se quisermos ajudar a humanidade de fato.

Quais seriam as questões que não são tão relevantes, mas têm grande destaque? Além do caso do ebola e de conflitos pontuais, um bom exemplo de apostas com pequena escala de retorno seria as mudanças climáticas. Vejamos a Alemanha, a maior incentivadora de energia solar do planeta. Se olharmos para os subsídios que ela deu, foi um investimento de 130 bilhões de dólares, e o efeito de todo esse trabalho será adiar o aquecimento global no final do século em 37 horas. Gastar esse dinheiro para ter um impacto mínimo daqui quase um século não é um bom investimento. A própria ONU fez uma pesquisa com 7 milhões de pessoas no mundo todo, perguntando ‘o que é mais importante para você?’. Entre dezesseis itens, educação, saúde, empregos, governos honestos e comida ocuparam os primeiros lugares, enquanto que as mudanças climáticas ficaram em último posto. A ONU não deve ter gostado desse resultado, é uma pesquisa inconveniente, mas precisamos ao menos reconhecer que é isso que as pessoas preferem ao redor do mundo.

Mas no caso das mudanças climáticas, os maiores efeitos serão sentidos no futuro. Descartar essa questão não seria deixar de fazer planos a longo prazo, e até ser um pouco conformista? Investir em nutrição definitivamente não é pensar a curto prazo, porque os custos acontecem agora, mas os ganhos só vão chegar daqui a 30, 40 anos, e este também é o caso de se priorizar a educação. A questão é pensar em quanto custa cada coisa frente aos benefícios que trará. Não estou dizendo que combater as mudanças climáticas não é importante, mas as políticas atuais que só se focam na redução de emissões fazem muito pouco a preços elevados. O presidente americano Barack Obama prometeu 3 bilhões de dólares para o Fundo Verde do Clima e se essa quantia for investida em mitigação o corte de CO2 vai conseguir adiar o aquecimento em 2 horas. Com esse dinheiro, porém, você também poderia salvar 3 milhões de pessoas com malária ou 67 milhões de crianças desnutridas. Isso conta a historia resumidamente. Um bom investimento nessa área ambiental seria em tecnologias verdes, que pelas nossas estimativas deve render onze dólares por dólar investido. Só duas coisas cortam emissões: recessão ou trocar carvão por fontes menos poluentes. Precisamos baratear as renováveis, com suas baterias, e a tecnologia de captura de carbono, só então as pessoas trocarão uma pela outra. Não há segredo. Não estamos dizendo que o aquecimento global não é importante, estamos dizendo que é preciso abordar essa questão pelo lado do custo/benefício, e não pelo apelo de deixar a consciência tranquila. O que me preocupa é que muitas vezes acabamos nos focando no ‘politicamente correto’, como na questão do clima, e não nas nossas reais oportunidades de fazer o bem com o maior alcance possível.

O encontro em Nova York para definir as novas metas vai acontecer em setembro e apenas três meses depois está agendado para Paris a Cúpula do Clima que deve definir o acordo que substituirá o Protocolo de Quioto. A proximidade dos eventos colocará pressão sobre os negociadores para defender medidas ambientais? Com certeza há uma jogada politica aí, mas essa poderia ser uma maneira de criar uma diferenciação. A conversa sobre o desenvolvimento será em setembro, e aquela sobre o clima, em dezembro. O problema é que a conversa sobre o clima é tão forte que tem uma influência tremenda nas decisões de setembro, apesar de 7,5 milhões de pessoas terem dito a ONU que prefeririam investir em uma série de outras coisas em detrimento às mudanças climáticas. A minha impressão é que estamos deliberadamente dizendo ‘todos vocês, pessoas pobres, me desculpem, mas vocês não se importam com as coisas certas e nós vamos contar para vocês quais são elas’. É um tanto pretencioso.

Ainda há tempo de negociação suficiente para se diminuir o número de metas? Os negociadores são muito bons, são caras espertos. Com certeza eles entendem a necessidade de restringir esse número, e acredito que muitos deles concordam conosco pessoalmente. Mas esse não é o trabalho que eles foram enviados à ONU para fazer. Os negociadores do Brasil precisam conseguir passar as cinco prioridades do país, assim como todos os outros com as suas respectivas nações. O resultado é que todo mundo concorda com todas as metas para que sejam incluídas. Quando converso com presidentes ou com a equipe diplomática dos países, eles sempre concordam que é necessário ter menos metas, contanto que os objetivos deles não sejam cortados. Mas não é a pequena bolha que acontecerá em Nova York que ditará como o Brasil e outras nações vão implementar essas metas. Aí está a oportunidade. Espero que os brasileiros mostrem que preferem gastar o seu dinheiro com prioridades cuidadosamente selecionadas e então se lembrem de nós. Não há como fugir desse fracasso que acontece em câmera lenta, a provável aceitação das 169 metas da ONU. Mas quando a festa acabar e a ressaca chegar, será hora de pensar em um plano B, e o plano B pode ser os dezenove objetivos selecionados por nossos laureados com o Nobel.

O papa Francisco tentou recentemente vincular os valores religiosos à preocupação com as mudanças climáticas. O que você acha disso? Todos nós somos humanos e, independentemente da religião, precisamos ter a responsabilidade de ajudar o outro e o meio ambiente. Não seria preciso ter sequer dezenove metas, só uma seria necessário. Fazer um mundo melhor. Mas espero que o Papa não diga somente as coisas que façam com que as pessoas se sintam bem, ou aquelas que estão em destaque na mídia, como painéis solares e ebola. Mas, sim, as que nos ajude a encarar coisas que parecem chatas, como poluição do ar interno, o maior problema ambiental do mundo. Ou a tuberculose, que apesar do que muitos pensam, não é um problema que resolvemos há cem anos. A boa notícia é que podemos lidar com essas questões de um jeito barato.