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Julgamentos morais são mais rápidos e extremos do que os pragmáticos

Nova pesquisa mostra que um indivíduo pode escolher julgar uma mesma questão usando perspectivas morais ou pragmáticas. Ao escolher a visão moral, seu julgamento pode ser menos ponderado

Por Da Redação - Atualizado em 6 maio 2016, 16h24 - Publicado em 30 nov 2012, 12h00

É correto carregar uma arma? E mentir para conseguir um emprego? E deixar de pagar seus impostos? Ao escolher o ponto de vista pelo qual essas questões serão analisadas, um indivíduo pode alterar não só a resposta que será dada, mas também a própria complexidade de seu raciocínio. Uma nova pesquisa mostra que, ao analisar essas ações por um enquadramento exclusivamente moral, as respostas tendem a ser mais rápidas e extremas, deixando de levar em conta posições intermediárias sobre o assunto. Mas se elas foram avaliadas usando um raciocínio pragmático, as respostas são mais ponderadas. O estudo foi publicado nesta quarta-feira na revista PLOS ONE.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: The Importance of Moral Construal: Moral versus Non-Moral Construal Elicits Faster, More Extreme, Universal Evaluations of the Same Actions

Onde foi divulgada: revista PLOS ONE

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Quem fez: Jay J. Van Bavel, Dominic J. Packer, Ingrid Johnsen Haas, William A. Cunningham

Instituição: Universidade de Nova York, nos Estados Unidos

Dados de amostragem: 263 estudantes, que avaliaram 104 frases. Em metade delas, eles deveriam dizer se a ação descrita era moralmente correta. Para a outra metade, deveriam dizer se a ação era pragmaticamente correta.

Resultado: As questões morais foram respondidas de modo mais rápido. Além disso, suas respostas foram mais simples e extremas.

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Nas últimas décadas, uma nova corrente de pesquisadores passou a questionar a ideia de que os julgamentos morais seriam realmente racionais. Segundo esses pensadores, uma questão moral não é resolvida pelo raciocínio, mas pela intuição. Essas decisões seriam tomadas a partir de processos mentais inconscientes, rápidos e automáticos. O raciocínio moral só aconteceria depois de o indivíduo ter tomado sua decisão, mais como um modo de justificar sua escolha do que como base para esta.

Outra questão levantada recentemente é a ideia de que diferentes culturas podem escolher encarar determinadas questões a partir de um ponto de vista moral ou não. Mais que isso, pessoas diferentes podem ver uma mesma ação como tendo um importante fundo moral, ou ser completamente indiferentes a ela. Ou seja, a moral não seria intrínseca a nenhum estímulo externo, mas relacionada ao enquadramento que cada indivíduo resolva dar à situação.

A partir dessas questões, os pesquisadores buscaram responder a algumas perguntas: as pessoas são capazes de mudar, rapidamente, de uma avaliação moral para uma pragmática? E, se elas fossem capazes, essa mudança afetaria o resultado de seu julgamento?

Da meditação ao assassinato – Para chegar a uma resposta, os pesquisadores realizaram três experimentos semelhantes com 263 estudantes da Universidade de Nova York. Antes dos testes propriamente ditos, eles explicaram aos voluntários que existiam dois modos de avaliar uma mesma ação: “Um modo de avaliar é pensando se a ação seria boa ou ruim para você. Esses julgamentos pragmáticos se focam nos prós e contras, e levam em conta os benefícios ou os danos que você pode experimentar ao fazer algo. Um segundo modo de avaliar uma ação é pensando sobre quão moral e ética ela seria. Em vez de pensar no quanto você poderia se beneficiar, esses julgamentos morais se focam em pensar se algo é a coisa certa a se fazer.”

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Depois da explicação, cada voluntário foi apresentado a 104 frases, que descreviam desde ações corriqueiras como andar de bicicleta, meditar e reciclar o lixo, até ações mais sérias, como o assassinato, o roubo a lojas e a traição conjugal. Em metade dessas frases, o voluntário deveria usar uma escala de 1 a 7 para responder se a ação descrita era moralmente boa ou moralmente ruim. Na outra metade das frases, ele deveria usar a mesma escala para fazer uma avaliação pragmática, e responder se os resultados da ação seriam pessoalmente bons ou ruins.

Os pesquisadores também quiseram analisar se o voluntário pensava que o comportamento descrito poderia ser universalizado. Usando a mesma escala de 1 a 7, o indivíduo deveria responder se a ação descrita poderia ser realizada por todo mundo ou ninguém.

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Rápido e rasteiro – Ao analisar as respostas, os autores perceberam que os voluntários faziam avaliações diferentes de cada ação dependendo se a analisava de um ponto de vista moral ou pragmático. Segundo os dados, as avaliações morais eram mais extremas que as outras, se aproximando mais do 1 e do 7 na escala de respostas. Além disso, os voluntários gastavam menos tempo pensando antes de responder uma questão moral. Quanto à universalização das ações, os pesquisadores viram que os voluntários estavam mais dispostos a universalizar – ou a proibir – um comportamento após julgar sua moralidade.

Segundo os cientistas, o principal resultado da pesquisa é mostrar que os indivíduos podem escolher enquadrar as questões usando lentes morais ou pragmáticas, com consequências diferentes para sua avaliação. Ao decidir olhar uma questão pelo primeiro ponto de vista, ele tende a efetuar seus julgamentos baseado em absolutos, usando avaliações mais extremas – como se o mundo fosse preto e branco. Para os pesquisadores, isso daria suporte à ideia de que os julgamentos morais estão mais próximos da intuição do que do raciocínio, pois levariam a respostas mais simples e rápidas.

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