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John Gurdon, vencedor do Nobel de Medicina, se tornou cientista por acaso

Um professor chegou a escrever que achava "ridícula" a pretensão de Gurdon, então com 15 anos, de se tornar cientista. O vencedor do Nobel guarda o texto do professor até hoje

Perfil

O britânico John B. Gurdon, que venceu o Nobel de Medicina ao lado do japonês Shinya Yamanaka

O britânico John B. Gurdon, que venceu o Nobel de Medicina ao lado do japonês Shinya Yamanaka (/)

Sir John Gurdon

Nascido em 1933 em Dippenhall, na Grã-Bretanha, completou seu doutorado na Universidade de Oxford, em 1960, e o pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Atualmente é professor emérito de Biologia do Desenvolvimento no Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge. Também dirige, na mesma universidade, um instituto que leva o seu nome, voltado para a pesquisa sobre câncer e biologia do desenvolvimento.

O veterano britânico John Gurdon, vencedor do Nobel de Medicina por ter revolucionado seu campo com trabalhos sobre a reprodução celular, começou a estudar biologia quase por acaso, depois de ter sido considerado sem aptidão para as ciências.

Nascido em 1933, em uma cidade pequena do sul da Inglaterra, Gurdon se interessou desde cedo por insetos. Seu pai, no entanto, desejava que ele fosse militar. Felizmente para o jovem Gurdon, ele foi recusado pelo Exército quando um médico diagnosticou um simples resfriado como uma bronquite. “Isto eliminou qualquer possibilidade, graças a Deus, de fazer carreira militar”, disse o cientista.

Os primeiros passos no mundo acadêmico científico, quando tinha 15 anos, também foram considerados um fracasso. “O professor de biologia escreveu um relatório que dizia: ‘Acredito que Gurdon tem a pretensão de virar um cientista. Dados os resultados atuais, é bastante ridículo. Se não pode aprender simples dados científicos, não tem nenhuma possibilidade de fazer o trabalho de um especialista'”, lembra vencedor do Nobel, que afirma conservar o texto em seu escritório.

Depois do revés inicial, quando chegou o momento de tentar uma vaga em uma universidade, Gurdon apresentou o pedido de matrícula em Oxford para estudar Letras Clássicas. A surpresa veio quando foi chamado para uma vaga de Ciências, depois que um erro administrativo abriu vagas neste curso.

“Padrinho” da clonagem – Em 1962, dois anos depois de obter o doutorado em Biologia e antes de completar 30 anos, fez sua descoberta mais importante. Ao realizar testes com rãs, demonstrou que o material genético das células não é irreversível: ao contrário do que se pensava até então, as células mantinham toda a informação genética original e podiam ser reprogramadas.

Apesar de, na época, o termo ainda não ser utilizado, Gurdon é considerado por muitos o “padrinho” da clonagem, que mais de 30 anos depois resultaria na famosa ovelha Dolly.

Foi este avanço que lhe rendeu o Nobel de Medicina, compartilhado com o japonês Shinya Yamanaka, que levou a reprogramação nuclear um passo além. Suas descobertas, segundo o Comitê Nobel, “revolucionaram nossa compreensão sobre a maneira como se desenvolvem as células e os organismos”.

Aos 79 anos, Gurdon se declarou “imensamente agradecido, mas também espantado” com o reconhecimento de um trabalho feito há muito tempo.

No último meio século, Gurdon não interrompeu suas atividades. Após uma breve passagem pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), retornou a Oxford e, em 1972, passou para a universidade rival, Cambridge, para iniciar uma unidade de embriologia molecular.

Com o passar dos anos, a unidade evoluiu e virou a Wellcome/CRC Institute for Cell Biology and Cancer, antes da universidade decidir rebatizar o local com o nome do cientista.

Entre outras honras, Gurdon é membro da prestigiosa Royal Society e recebeu o título de cavaleiro em 1995 da rainha Elizabeth II.

(Com Agência France Presse)